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quarta-feira, 25 de março de 2015

Será o ponto de inflexão?



Agência Internacional de Energia informou dados preliminares que indicam estabilidade ou até leve redução das emissões de CO2 no setor de energia, a principal e mais resiliente fonte de emissões de gases de efeito estufa do planeta.
Se confirmada, a emissão de 32,3 GtCO2 em 2014 seria a primeira queda dissociada de forte recessão econômica (como em 2008, por exemplo). Em 2014 a economia global cresceu 3%. Houve queda das emissões na Europa, Estados Unidos e China, os três principais emissores mundiais.
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Mas seria este um ponto de inflexão? Teríamos chegado ao tão esperado pico das emissões de gases de efeito estufa e o inicio de uma nova era com emissões declinantes nos próximos anos?
Ainda é cedo para estas conclusões por se tratar de números preliminares e limitados à energia, mas alguns elementos coincidentes – como esta redução de emissões – mostram que este ponto de inflexão, se já não está acontecendo, deverá acontecer muito em breve.
O preço do petróleo caiu pela metade ao longo de 2014, o que em outros tempos significaria redução de investimentos em energias renováveis. Mas,desta vez foi acompanhado por um expressivo crescimento nos investimentos em renováveis, que ultrapassou US$ 300 bilhões em 2014.
Nos Estados Unidos, além do óleo, o gás de xisto compete com carvão mineral e petróleo com menos emissões relativas. A capacidade instalada de geração de energia elétrica em novos empreendimentos de energia elétrica de fonte renovável suplantou as novas instalações de termoelétricas.
A nova regulação do EPA para termoelétricas está provocando o descomissionamento de milhares de MW de geração, ao mesmo tempo que os incentivos a energias renováveis estão suplantando, com folga, as termoelétricas que saem do sistema. Em 2015, o fenômeno deve se repetir pelas projeções da EPA.
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Na China, houve crescimento do PIB próximo a 7% mas, com inédita queda de emissões em 1%. A capacidade instalada de energias renováveis cresceu fortemente e houve redução do consumo de carvão mineral, motivada principalmente pelas recentes iniciativas de regulação para redução de emissão de poluentes locais nas grandes cidades do país.
Na União Europeia, o consumo de carvão mineral – que vinha num período de crescimento entre 2009 e 2012 – voltou a cair em 2013 e 2014, empurrado pelo processo de eliminação gradual dos subsídios para combustíveis fósseis com vistas a zerar subsídios em 2020.
Em 2014, durante a Cúpula de Clima, em setembro em NY, fundos de investimento e fundos de pensão, juntamente com o setor industrial e seguradoras, firmaram compromissos de redução de investimentos relacionados a combustíveis e aumentaram, significativamente, os investimentos em indústrias de baixo carbono.
Os desinvestimentos em companhias reféns de combustíveis fósseis começaram a ganhar escala. As desistências de construção de novas termoelétricas já supera o numero de termoelétricas que estão sendo construídas sendo o relatório Coalswam 2015.
Com estes sinais, não será surpresa se, em 2015, as emissões não crescerem, mas recuarem. Uma surpresa boa para todos, pois aumenta as chances de conseguirmos limitar as emissões ao orçamento de 1 mil GtCO2 de 2012 a 2099.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Não tem chuva, vamos de sol! – 2ª tentativa


Nas últimas semanas, o fantasma do apagão voltou a assombrar os brasileiros quando, em um pico de demanda numa tarde quente de verão, a geração teve que ser cortada para não sobrecarregar o sistema. Em outras palavras, a geração de energia no Brasil não está dando conta da demanda. Com um detalhe: o crescimento da demanda está acanhado devido a estagnação econômica.
É como uma tempestade perfeita, mas sem chuva, em pleno sol: a longa estiagem e a falta de água nas bacias do sudeste e nordeste se somam aos atrasos nas obras de geração e de transmissão de energia (segundo o TCU, devido especialmente a problemas de planejamento), também à fragilidade financeira atual dos agentes do sistema elétrico e à relutância dos órgãos reguladores em promover o racionamento e a economia de consumo.
Nos dias que se seguiram ao corte preventivo de energia, o Brasil teve de importar entre 500 e 1 mil MWh de energia da Argentina para atender os picos de demanda.
Há um ano, propus em artigo publicado em 12 de fevereiro neste blog, que o Brasil entrasse de cabeça na energia solar instalando 1 mil MWh de capacidade de geração solar distribuída para atender os períodos de pico de demanda que se deslocaram para as tardes quentes de verão.
No verão, quando mais calor se propaga, maior a demanda de refrigeração e, portanto, de energia e é ai que a energia solar entra, pois é justamente nestas condições que os painéis solares atingem o pico de sua capacidade. Ao gerarem de forma distribuída (exemplo: telhados), os painéis reduzem a necessidade de transmissão de grandes quantidades de energia para atender os picos. É como se formassem um colchão de amortecimento.
Na Alemanha e na Espanha, a energia solar chega a representar metade da geração nos momentos de pico do verão. Embora represente menos de 5% do consumo geral durante todo o ano, cumpre papel fundamental de segurança para o sistema elétrico.
A energia solar avança de forma fulminante no planeta. Entre os anos 2000 e 2014, a capacidade instalada subiu de 1 GW para pelo menos 180 GW (mais do que todo o potencial de geração elétrica do Brasil com todas as fontes juntas). Em termos de energia produzida, em 2014 e pela primeira vez, a energia solar superou 1% do total de energia elétrica gerada no mundo. Na Itália, superou 8% de toda energia produzida. No final de 2014, mais de 20 países já tinham instalado mais de 1 GW de potencial de geração solar.
No Brasil, continuamos desperdiçando esta imensa oportunidade e realizando leilões de novas termoelétricas, inclusive de carvão que, além de chegarem à maturidade depois de muitos anos e não resolverem os problemas emergentes, são fontes geradoras de grandes emissões de CO2.
O modelo regulatório para geração solar distribuída é desestimulante e trava a sua expansão (exemplo: não permite ao gerador vender sua energia para rede). Com uma revisão objetiva e cirúrgica da regulação, o Brasil poderia implantar, em 2015, pelo menos 1 GW de energia solar distribuída que nos permitira enfrentar os picos de energia que tendem a se repetir cada vez mais no verão devido ao aumento da temperatura.
A China instala, por mês, quase 2 GW e a Índia 1 GW. Não tem porque não podermos produzir 1 GW por ano!
Com a mudança de comando no Ministério de Minas e Energia e um novo governo em formação, renova-se a esperança de o Brasil acordar para a energia solar. Os primeiros sinais, contudo, não são muito alvissareiros. Em vez de estimular a geração solar o ministro anunciou que pretende estimular as empresas a ligarem seus geradores termoelétricos próprios para injetar energia na rede. Caros, sujos e concentrados. Somos mais criativos que isso.
Um exemplo das grandes oportunidades para refletir: o Greenpeace lançou campanha para colocar painéis solares em duas escolas públicas. Trata-se de um projeto piloto, mas que pode ser escalado facilmente. Com pouco menos de 200 m2 de painéis, é possível gerar cerca de 1200 KW mensais, o que pode representar até 50% do consumo de energia da escola. Existem cerca de 190 mil escolas de ensino básico no Brasil, 150 mil delas públicas (80% municipais). Se 50% das escolas públicas fossem dotadas de projeto semelhante, daria para gerar mais de 1 milhão de MW por ano. Considerando que as térmicas começaram o ano custando R$ 1 mil por MW, teríamos uma economia de, pelo menos, R$ 1 bilhão de reais, além de milhões de toneladas de CO2 que deixariam de ser emitidas.
Esse mesmo modelo pode ser incentivado em granjas (áreas enormes em geral já voltadas para a face norte), armazéns, fábricas e toda sorte de infraestrutura com grandes áreas de cobertura.
O governo que criou programas de larga escala e altamente distribuídos como Minha Casa, Minha Vida, Bolsa Família, Pronatec, entre outros, precisa abraçar esta oportunidade.
Esta e minha segunda tentativa! Torço para que não precisemos de uma terceira no próximo ano.

Publicado no Blog do Clima em Planeta Sustentável - 03.02.2015

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Meio bilhão

Segundo o IPCC — painel de cientistas da ONU para mudanças climáticas —, é necessário limitar as emissões globais de gases de efeito estufa em mil bilhões de toneladas de CO2 equivalente (CO2e) entre 2012 e 2100, para que possamos deter o aquecimento global em até dois graus até o fim do século.

Para se ter uma ideia do que isso representa, desde meados do século 19 até hoje foram emitidas cerca de 2.600 gigatoneladas de CO2 equivalente e deste total as últimas mil gigatoneladas foram emitidas entre 1990 e 2012. Se considerar o ritmo atual de emissão global anual, na casa de 52 gigatoneladas de CO2e, o limite proposto pelo IPCC seria esgotado em menos de 20 anos.

Os diversos cenários considerados pelo IPCC para alcançar o objetivo de dois graus indicam que as emissões devem ser reduzidas a menos de 20 gigatoneladas de CO2e em 2050. Considerando uma população atual de 7,2 bilhões de pessoas e, em 2050, em pouco mais de nove bilhões, a emissão per capita média global deveria cair das atuais sete toneladas de CO2e para cerca de duas toneladas de CO2e em 2050.

Segundo os dados do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa do Observatório do Clima (SEEG/OC), o Brasil emitiu no acumulado de 1990 a 2012 um total de 46 gigatoneladas de CO2e, ou cerca de 4,5% das emissões globais no período. Em termos per capita, as emissões brasileiras chegaram a alcançar mais de 17 toneladas de CO2e na década de 90 e apenas a partir de 2005, com a expressiva queda do desmatamento, começou a regredir até que em 2012 convergiu para média global de sete toneladas de CO2e por habitante por ano.

No novo acordo global de clima em negociação até o fim de 2015, é esperado que todos os países assumam metas e compromissos para contribuir com a redução de emissões de forma a limitar o aquecimento global a dois graus.

Considerando o Brasil um país industrializado e de renda média, é razoável pensar que deveríamos chegar em 2050 com a emissão per capita pelo menos alinhada com a média global. O IBGE estima a população brasileira em 230 milhões de habitantes em 2050. Portanto, o compromisso brasileiro deveria ser orientado a limitar suas emissões a cerca de 500 milhões de toneladas de CO2e, ou cerca de um terço da 1,5 gigatonelada de CO2e emitida em 2012.

Com esta visão de longo prazo, é essencial orientar politicas de inovação e promoção do desenvolvimento do país que contemplem como diretrizes: zerar a perda de cobertura florestal, neutralizar as emissões do setor agrícola, reverter a tendência de queda na participação de fontes renováveis de energia na matriz energética, universalizar o tratamento biológico de resíduos sólidos e esgoto no Brasil com aproveitamento do biogás e dos materiais recicláveis e implantar iniciativas de captura e armazenamento biológico de carbono.


Publicado em O Globo em 29.08.2014

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Descarbonização Profunda

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Em 2008, um grupo de fundações, instituições de pesquisa e empresas mobilizou um grupo de dezenas de especialistas em ciência do clima, tecnologia e políticas públicas de todo o mundo para produzir um suporte analítico independente e inspirador para apoiar o desenho do novo acordo climático esperado para COP15, em Copenhague, no final de 2009.
Catalyst Project, como foi batizado, juntou as informações produzidas pelo 4º relatório do IPCC com uma extensa revisão das ações possíveis a serem feitas para reduzir emissões globalmente e estimou os custos envolvidos. O projeto foi fundamental para sustentar a necessidade e possibilidade de assumir o limite de aumento da temperatura global em 2ºC como objetivo geral da convenção. Uma série de instituições fundamentais no debate climático foram forjadas no projeto (2008-2011) como a Fundação ClimateWorks, a European Climate Foundation e o CPI – Climate Policy Initiative.
Em 2010, a UNEP (Programa de Meio Ambiente das Nações Unidas) publicou a primeiro estudo da série “Emissions Gap Report” que avalia anualmente o quanto as contribuições e compromissos dos países pode gerar de reduções globais de emissões e o qual a lacuna (do inglês gap) para entrarmos em uma trajetória compatível com o cenário de 2ºC.
Ambas iniciativas firmaram a convicção de que não existe possibilidade de se manter no cenário de 2ºC sem um esforço global que envolva todas as partes num processo deprofunda descarbonização da economia global. Mas como conduzir um desenvolvimento inclusivo associado a uma drástica redução das emissões?
Buscar respostas a esta pergunta é o principal propósito do DDPP – Deep Decarbonization Pathways Project (Projeto Caminhos para Descabonização Profunda, na tradução livre do inglês) conduzido pelo SDSN (Sustainable Development Solutions Network) sob coordenação do professor Jeffrey Sachs, da Universidade de Columbia (USA).
O projeto reúne inicialmente grupos de pesquisa independentes em 15 países (África do Sul, Alemanha, Austrália, Brasil, Canadá, China, Coréia do Sul, Estados Unidos, França, Índia, Indonésia, Japão, México, Reino Unido e Rússia) que respondem por cerca de 70% das emissões de gases de efeito estufa para produzir cenários de desenvolvimento associados à profunda descarbonização da economia.
O primeiro relatório preliminar do DDPP foi lançado no inicio de julho já com os estudos de 12 dos 15 países (os do Brasil, México e Alemanha será publicados nas próximas semanas) e se prepara para o lançamento da versão completa do DDPP2014. Ela será lançada em setembro, pouco antes da Cúpula do Clima convocada pelo secretário-geral da ONU, quando se pretende elevar o nível de ambição para o novo acordo climático global a ser finalizado em 2015 na COP21, em Paris.
As primeiras 40 páginas do longo relatório (218 pág.) traz uma análise agregada das lições obtidas a partir do desenvolvimento dos DDPs (Cenários de Profunda Descarbonização) preliminares para os diferentes países do estudo, que se concentraram nas emissões do setor de energia que representam quase dois terços das emissões globais de GEE. Para produzir os cenários os grupos assumiram como premissas:
1) o cenário de descarbonização deve ser compatível com o volume máximo de emissões globais agregadas que limitar o aumento de temperatura a 2ºC;
2) todos os países irão adotar ações coordenadas para atingir a profunda descarbonização, incluindo as medidas nacionais adequadas em regulação e incentivos,
3) o fluxo de recursos fluirá do portfólio de alta para baixa intensidade de emissões de GEE e
4) haverá financiamento para os países com iniciativas genuínas de mitigação e desenvolvimento com baixas emissões.
Abaixo, gráfico da trajetória da redução das emissões de CO2 relacionadas ao setor de energia em 15 DDPs. Clique na imagem para ver os detalhes:
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A seguir as principais mensagens do relatório preliminar:
• Os cenários de descarbonizarão produzidos para o período até 2050 levam a uma redução de 45% das emissões relacionadas a energia até 2050 no agregado. Na troca de experiências e informações entre os grupos, foram identificadas novas oportunidades de descarbonização que serão incorporadas nas próximas versões do DDPP;
• A descarbonização profunda no setor de energia envolve, em todos os países estudados, pelo menos três pilares estratégicos:
(i) forte melhoria da eficiência e conservação da energia,
(ii) forte redução das emissões na geração de energia elétrica e
(iii) agressiva substituições de combustíveis fósseis por combustíveis de baixa emissão ou energia elétrica renovável;
• A Captura e Armazenamento de Carbono (CCS), a energia nuclear e a substituição de carvão por gás natural embora tenham sido consideradas em parte dos países, aparecem como componente forte no agregado para a descarbonização até 2050;
• De todos os setores estudos os dois que apresentam maiores desafios para compor DDPs são transporte de carga e processos industriais que ainda precisam ser aprofundados;
• A viabilidade técnica dos DDPs depende em grande medida na capacidade de entrega em larga escala, nos próximos anos, de várias tecnologias de baixo carbono ainda em desenvolvimento. Algumas tecnologias chaves em áreas como armazenamento de energia de alta capacidade e transmissão de alta performance ainda precisam de grande avanços.
Mas a lição mais importante é que sem perspectivas clara de longo prazo (eg. 2050) para o limite de emissões, a tendência é que as definições de metas e compromissos de redução de emissões, para períodos mais curtos como 2025 ou 2030, sejam claramente insuficientes para limitar as emissões a mil GtCO2e até o final do século, condição para termos 2/3 de chance de mantermos o aquecimento global em até 2ºC.
A sugestão do DDPP é clara: devemos definir os compromissos de curto e médio prazo para redução de emissões tendo como ponto de partida um limite global de emissões acumuladas no longo prazo (2050) e, durante 2015, o projeto colocará na mesa alternativas para subsidiar o processo de decisão. É uma contribuição fundamental para o processo da negociação do novo acordo global.
No Brasil, a equipe da pesquisa do DDPP é liderada pelo Prof. Emílio La Rovere do COPPE/UFRJ.

Foto: Christopher Craig/Creative Commons


terça-feira, 27 de maio de 2014

Emissões embarcadas

É certo que precisamos reduzir drasticamente as emissões globais de gases de efeito estufa para limitarmos o aumento de temperatura média global em 2ºC. O desafio maior é distribuir o esforço de redução ou os limites de emissão. Este é um tema central que precisa ser equacionado para garantir o novo acordo global sobre climaem 2015.
Existem várias possibilidades de alocação do esforço de redução entre os diferentes países como emissões per capta, responsabilidade histórica de emissões ouconcentração de gases na atmosfera, nível de desenvolvimento entre outros. Mas, independente do critério adotado, quem é o responsável pela emissão? Em outras palavras, de quem é a pegada de carbono?
Os acordos internacionais, como o Protocolo de Kyoto, tem como referência a metodologia desenvolvida pelo IPCC para inventariar as emissões de um país. Ela toma como base as emissões geradas diretamente em cada país para produzir produtos e serviços. Assim, se um país A exporta gás para o país B, as emissões para produzir o gás são consideradas no país A e as emissões relativas ao uso do gás (queima para gerar energia) são consideradas no país B. Igualmente, se um país exporta um eletrodoméstico, terá contabilizadas todas as emissões de produção; no país importador, a apenas a emissão pelo uso do eletrodoméstico será contabilizada.
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Vários pesquisadores têm procurado avaliar como seria distribuída a responsabilidade pelas emissões se o critério fosse o das emissões embarcadas no consumo dos produtos e serviços.
Em 2011, pesquisadores da Universidade de Stanford em parceria com o CICERO – Centre for International Climate and Environmental Research (Oslo), publicaramestudo sobre os fluxos de carbono a partir das emissões de energia e de processos industriais embarcadas nos insumos e produtos, tendo como base o ano de 2004. Clique na imagem abaixo para ver os detalhes.
Utilizando estes dados o Carbon Trust produziu uma contabilidade alternativa das emissões e concluiu que se, fossem contabilizadas a importação e a exportação de emissões embarcadas em produtos e serviços, as emissões seriam 34% maiores na Inglaterra e 43% maiores na França. A Alemanha (+29%), o Japão (+19%) e os EUA (+13%) também seriam grandes importadores de emissões. Por outro lado, a China teria emissões 23% menores, como exportador de emissões. Clique na imagem abaixo para ver os detalhes.
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quarta-feira, 21 de maio de 2014

CO2 como matéria-prima

Utilizar o CO2 capturado como matéria-prima de novos produtos tem sido uma boa alternativa para os polêmicos processos de captura e armazenamento geológicos desse elemento.
O recente relatório do IPCC aponta que a maioria dos cenários de trajetórias de emissões compatíveis com o limite de aumento de 2oC na temperatura média global só são possíveis quando se atinge emissões antrópicas de CO2 próximas de zero ou até mesmo negativas. As emissões negativas acontecem quando a quantidade emitida é menor que a remoção e/ou o decaimento.
A remoção do CO2 da atmosfera acontece por meio da absorção pelos oceanos e pela biomassa terrestre. Com o aumento das emissões de CO2 na atmosfera, o volume de remoção dos oceanos e da terra também vem aumentando, mas em velocidade insuficiente para evitar o aumento de concentração de gases na atmosfera que já supera as 400 ppm.
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Para obter emissões negativas é preciso reduzir drasticamente as emissões e aumentar a absorção. Nos oceanos, o aumento da captura de CO2 leva a efeitos negativos comoacidificação que, no médio prazo, leva ao comprometimento do crescimento dos organismos vivos e, por tabela, reduzir a própria capacidade de captura de carbono. Já a biomassa terrestre pode crescer bastante tanto nas florestas já existentes (mais biomassa por km2) como por expansão destas áreas.
Nas áreas temperadas, o balanço de carbono por alterações do uso da terra já são positivas, ou seja, as florestas já absorvem mais carbono do que o que é emitido por seu corte ou por outras conversões para uso com menos biomassa. Nas zonas tropicais, o desmatamento e a degradação das florestas é um dos principais fatores de emissão.
Os estudos do IPCC sugerem que apenas o esforço de aumentar a captura de carbono por florestas não será suficiente para provocar as emissões negativas necessárias ao final da segunda metade do século. Será necessário utilizar outros métodos de captura e armazenamento de carbono conhecidos pela sigla CCS (Carbon Capture and Storage).
Os métodos mais difundidos de CCS estão relacionados à captura do CO2 em processos industriais (ex. termoelétricas) antes de ser liberado para a atmosfera e posterior armazenamento geológico deste CO2 na sua forma condensada numa formação rochosa subterrânea (jazidas de petróleo e gás, camadas de sal e pré-sal e minas de carvão).
O armazenamento geológico ainda custa muito caro e apresenta uma série de riscos que o tornam bastante polêmico. Como garantir que o armazenamento seja seguro e permanente? Quem se responsabiliza pela manutenção do armazenamento no longo prazo uma vez que os contratos de exploração de petróleo, gás e carvão têm prazo determinado?
Mas se, em vez de armazenar o carbono em rocha, ele pudesse ser transformado em materiais e produtos úteis que ajudassem a reduzir as emissões? Uma séria de iniciativas começa a ganhar vida no mundo com esta abordagem.
LanzaTech, startup neozelandesa fundada em 2008, transforma o CO2 capturado em processos industriais em combustível (etanol) e produtos químicos como acetona, ácido acético e isopreno através de um processo de fermentação do gás comprimido. Uma planta com capacidade de produção de 350 mil litros de Etanol por ano já esta em funcionamento na China. Para 2015 esta prevista a primeira instalação da primeira unidade comercial com capacidade de produção de 100 milhões de litros de etanol por ano (o que equivale a uma usina de etanol de cana de médio porte).
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Na Universidade de Michigan, pesquisadores conseguiram transformar CO2 em material sólido a partir da sua mistura com um composto de Lítio (Li3N). Da mistura que libera grande quantidade de energia resultam um material semicondutor (C3N4) e uma cianamida (Li2CN2) utilizada na fabricação de fertilizantes.
Várias empresas no mundo como a AkzoNobel trabalham para produzir Dimetil Carbonato OC(OCH3)2 uma solução que pode atuar como solvente e aditivo para combustíveis, entre outras aplicações.
Na Alemanha, o Catalyct Center, uma parceria da Universidade de Aachen e da Bayer está desenvolvendo pesquisas e processos de baixo consumo energético para transformar CO2 em polímeros e outros componentes precursores dos plásticos.
A transformação de CO2 em materiais sólidos e cada vez mais permanentes (ex. materiais para construção) é uma das mais promissoras formas de transformação econômica associada a mitigação das emissões de gases de efeito estufa.
Mas quem imagina que o uso da CO2 como matéria prima seja abertura ou oportunidade para continuarmos consumindo combustíveis fósseis e emitindo bilhões de toneladas anuais de gases de efeito estufa, deve repensar. O mundo emite anualmente cerca de 35 bilhões de toneladas de CO2 na atmosfera. Para efeito de comparação, a produção mundial de ferro é de pouco mais de 2 bilhões de toneladas anuais. Por mais materiais que se possa produzir capturando carbono, ainda sim será necessário uma redução drástica das emissões de CO2.
A solução ideal é a integração da substituição de combustíveis fósseis por fontes renováveis associadas a captura de carbono. Um bom exemplo seria uma siderúrgica que utiliza carvão vegetal no lugar de carvão mineral e captura o carbono do processo industrial para produzir polímeros estruturais estará se tornando um sumidouro de CO2 em vez de uma das principais fontes de emissão.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

O preço das emissões

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Acontece esta semana em Abu Dhabi a conferência preparatória da Cúpula de Mudanças Climáticas, que será realizada em 23/09, previamente à abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas.
A cúpula de setembro tem dois objetivos:
- catalisar iniciativas e ações práticas e ambiciosas para reduzir já as emissões e aumentar a resiliência do planeta e da sociedade e;
mobilizar vontade politica para o novo acordo climático em 2015 que limite em 2ºC o aumento da temperatura média global.
Embora não seja parte do processo formal de negociação do novo acordo climático, o evento teve participações importantes como a do presidente da Assembleia Geral da ONU John W. Ashe, do secretário geral do ONU Ban Ki Moon, da secretária da convenção Christiana Figueres, do presidente da COP 20 em Lima Manuel Pulgar, além de uma centena de ministros de Estado e personalidades dos mundos acadêmico, empresarial e de ONGs.
O evento, organizado em várias sessões, teve apresentações e debates rápidos sobre potenciais parcerias e iniciativas que poderiam ser catapultadas em setembro, como por exemplo, ganho de escala nos compromissos de redução do desmatamento eaumento da restauração florestal ou ainda, criação de um corredor de energias renováveis na África.
Porém, houve dois movimentos muito interessantes que aconteceram na reunião – especialmente por ela estar sendo realizada nos Emirados Árabes, um dos maiores produtores de petróleo do planeta. Primeiro foi repetido por diversas vezes, sem oposição aparente, que será necessário construir um futuro sem combustíveis fósseis na segunda metade do século. Caso isso não seja possível ou ainda viável, que seja compensado por medidas seguras de captura e armazenamento das emissões. O segundo e mais marcante movimento foi a mensagem uníssona de que é preciso colocar preço nas emissões de gases de efeito estufa.
Quando o moderador de um painel pediu ao ex-presidente americano Al Gore (Prêmio Nobel da Paz) para escolher uma única ação fundamental para o mundo conseguir limitar o crescimento da temperatura em 2ºC e alavancar a economia de baixo carbono, Al Gore foi direto – “put a price on carbon!” (coloque um preço no carbono).
O secretário geral do programa de Meio Ambiente das Nações Unidas Achim Steinertocou na mesma tecla mostrando que redução e transferências de subsídios de combustíveis fósseis para fontes renováveis de energia, baseados na diferença de emissões de uma fonte para outra poderia resolver grande parte do problema de financiamento de uma economia de baixo carbono.
O mais marcante, entretanto, é como o setor empresarial está incorporando este debate e saindo do polo de combate do custo das emissões para pedir urgência na sua implementação. O ponto foi muito bem elaborado nas intervenções do CEO da Unilever e presidente do Conselho Mundial de Empresas para a Sustentabilidade Paul Polman. Segundo ele, pelo menos metade das 200 maiores empresas do mundo já conta em seu planejamento que haverá inevitavelmente, cedo ou tarde, custo para emissões de gases de efeito estufa.
Para as empresas, e em especial o setor financeiro, é fundamental uma definição rápida dos mecanismos e a forma como se dará a imposição destes custos, e o mercado a ele associado, para poder planejar de maneira adequada os investimentos de longo prazo na economia de baixo carbono. Mesmo representantes de países grandes produtores de petróleo apoiam a iniciativa, mas fazendo a ressalva de que se devem incluir todos os gases e não apenas o CO2.
Uma coalizão esta sendo formada para promover a precificação das emissões e entender melhor experiências existentes no mundo abrangendo taxação, limitação, comércio de certificados, políticas de subsídio, entre outros instrumentos. Segundo a vice-presidente do Banco Mundial Rachel Kyte, há inúmeras experiências internacionais de precificação e mercado de carbono em implementação hoje, envolvendo dezenas de países – sejam desenvolvidos e em desenvolvimento, inclusive na China, África do Sul, Marrocos e México.
No Brasil, a Lei da Política Nacional de Mudanças Climáticas, aprovada em 2009, indica que será criado o Mercado Brasileiro de Redução de Emissões (MBRE), mas até agora pouco ou nenhum progresso foi realizado nesta agenda. Estudo conduzido pela equipe do Ministério da Fazenda sobre o assunto em 2011 ainda aguarda autorização da Casa Civil para ser publicado. Temos que recuperar este esforço para recolocar o Brasil na vanguarda desta agenda. Esta será uma questão crucial para a competitividade da indústria.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Com tremendo esforço conseguiremos manter os 2ºC

Em um post recente comentamos que a 3ª parte do 5º relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) sobre mitigação, lançado na primeira semana de abril, revisou mais de 900 cenários de emissões até 2100 para buscar possíveis caminhos para alcançar a estabilização e eventual redução da concentração de gases de efeito estufa (GEE) na atmosfera e limitar o crescimento da média da temperatura global. Mas o que são estes cenários e para que servem? É o que vamos tentar explicar neste post.
O Grupo III do IPCC estimou emissões e remoções antrópicas de GEE e identificou as principais fontes de emissão (ex. queima de combustíveis fósseis) e fatores que influenciam as mesmas (ex. tamanho da população, nível de eficiência energética). A partir destas informações foram definidas variáveis para compor cenários de emissões que incluem:
- crescimentos populacional e econômico
- demanda e eficiência energética
- penetração de novas tecnologias mais limpas
- intensidade de emissões na economia
- uso de fontes renováveis ou de baixa emissão na matriz energética
- perda ou ganho de biomassa – como desmatamento/ reflorestamento
- utilização de tecnologias de captura e armazenamento de carbono
- precificação do carbono
- políticas de subsídios
Estas variáveis são analisadas tomando em conta diversos setores como transportes, energia, mudança de uso da terra, agropecuária, construção civil e indústria.
A partir de combinações de valores de dezenas destas variáveis ao longo do tempo (por exemplo, a participação da energia solar na matriz elétrica global) foram estimadas trajetórias de emissões e remoções de GEE até 2100 e respectivas curvas deconcentração de gases na atmosfera (medida em partes por milhão – ppm – CO2eq). Cada uma destas combinações representa uma conjuntura analisada.
Estes cenários são então agrupados de acordo com a proximidade com as quatro trajetórias representativas de concentração de GEE (RCPs), desenvolvidas pelo Grupo I do IPCC – respectivamente RCP 2.6, 4.5, 6.0 e 8,5 W/m2, que correspondem a concentrações médias de 450, 650, 850 e 1370 ppm CO2eq. O RCP 2.6 é o que apresenta maior probabilidade de se manter o aumento de temperatura média global em até 2ºC e o RCP 8,5, no outro extremo, representa zero chance de atingir este limite.
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O primeiro conjunto de cenários gerado pelo Grupo III do IPCC tenta reproduzir o que seria a trajetória das emissões se nosso desenvolvimento seguisse a tendência atual, os chamados cenários tendenciais ou de linha de base. Foram desenhados cerca de 300 cenários (combinações das variáveis) tendenciais que apontam que as emissões acumuladas podem chegar a 4000 GtCO2 em 2100 e uma concentração de gases de efeito estufa na atmosfera de 730 a mais de 1300 ppm, portanto em linha com as indesejáveis trajetórias RCP 6.0 e 8,5.
A figura abaixo que aparece no resumo técnico do relatório mostra em tons de cinza o espaço ocupado pelas trajetórias dos cenários tendenciais:
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O segundo conjunto de cenários representa diferentes possibilidades de mitigação, seja reduzindo emissões ou aumentando remoções antrópicas. Foram testadas 900 situações para identificar alternativas compatíveis com os RCPs 2.6 e 4,5.
A figura abaixo ilustra à esquerda dezenas de trajetórias de emissões no período entre 2010 e 2030, retiradas de cenários compatíveis com RCP 2.6, enquanto à direita mostra que quanto mais altas forem as emissões em 2030 maior deve ser a redução anual das emissões no período seguinte para manter os cenários compatíveis com RCP 2.6, ou seja com limite de 2oC de aumento médio de temperatura.
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A figura também mostra onde estariam as emissões em 2020 considerando diferentes compromissos dos países no Acordo de Cancún. A boa notícia é que ainda é possível se manter no cenário de 2oC se os compromissos forem cumpridos. Por outro lado, a queda de emissões nas décadas seguintes deve ser na ordem de 4 a 6% ao ano, o que exige tremendo esforço considerando que atualmente crescem a cerca de 2% ao ano.
Na análise do conjunto de pouco mais de 500 cenários compatíveis com o RCP2.6, o IPCC conseguiu extrair pontos em comum das trajetórias de emissões que nos dão dicas preciosas do esforço que precisamos fazer para alcançar a meta de limitar o aumento de temperatura em 2oC:
- Todos os continentes do planeta devem reduzir substancialmente emissões frente ao cenário tendencial até 2100
- As mudanças de uso da terra devem representar, no agregado, remoções em larga escala de CO2 na segunda metade do século
- Os sistemas energéticos devem passar por uma revolução em larga escala que diminua drasticamente as emissões antes de 2050. Isso significa uma acelerada eletrificação do mundo (hoje é 20% da matriz energética global), combinada com adescarbonização da geração de energia instalada e encerramento da geração pela queima de carvão mineral
- O carbono terá valor – seja como taxa, imposto ou limite de emissão – e será disseminado pela economia
- Transferências de recursos, investimentos e tecnologias precisam ser feitas em larga escala para evitar uma distribuição relativa de custos de transformação proporcionalmente maior para os países em desenvolvimento. Estas transferências devem chegar na casa das centenas de bilhões de dólares anualmente.
- As emissões em 2030 terão enorme impacto nos desafios de se limitar em níveis de concentração de GEE na atmosfera compatíveis com 2º C. A vasta maioria dos cenários com custos viáveis indicam que as emissões em 2030 estejam entre 30 e 50 GtCO2e (atualmente já superam os 50 GtCO2eq e crescendo). Os cenários com emissões em 2030 mais próximos de 50 GtCO2eq consideram emissões negativas em parte da segunda metade do século, ou seja, remoções maiores que emissões.
- Grande parte dos cenários considera a aplicação e viabilidade de aplicação de tecnologias de remoção de carbono da atmosfera (CDR) em larga escala a partir de 2050
- A maioria deles desconsidera o uso de geoengenharia para captura de carbono ou interferência na radiação solar como parte da solução devido aos riscos e incertezas que acarretam.
Em resumo, o IPCC analisa inúmeros cenários de emissões para tirar lições das características das trajetórias, demonstrando que ainda podemos mitigar as emissões de gases de efeito estufa e limitar o crescimento da temperatura média global em 2oC. Exige um esforço tremendo, mas é possível de ser alcançado como revelam os cenários produzidos pela ciência nos últimos anos.
Este deve ser o pano de fundo para embasar o compromisso dos países e da sociedade global para formar o novo acordo global sobre mudanças climáticas em 2015.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Precisamos de Mais Ambição

Um dos temas-chave dos debates das últimas COPs (Conferência das Partes da Convenção sobre Mudanças Climáticas da ONU) e que deve perdurar até a COP21, em Paris, é a necessidade de aumentar o nível de ambição dos compromissos de mitigação das emissões de gases de efeito estufa (GEE) pelos países-membro de forma a fechar a lacuna entre as emissões projetadas para 2020 e os limites de emissões indicados pelo IPCC  para termos uma chance razoável de limitar o aumento da temperatura média do planeta em 2oC.
O Brasil tem sido um firme advogado da pressão sobre os países desenvolvidos para que aumentem significativamente o seu nível de ambição para redução das emissões até 2020. A liderança e a força moral do Brasil estão calcadas na significativa queda de suas emissões de GEE desde 2005, como consequência da queda do desmatamentoe, especialmente, pelos compromissos voluntários assumidos entre 2008 e 2009 para mitigar emissões nos setores de energiaindústriaagropecuária e mudança de uso do solo. O nível de ambição do país vinha colocando pressão sobre os países desenvolvidos e outras economias emergentes.
Mas, uma série de sinais recentes aponta um cenário em mutação. Nossos resultados estão sendo refreados e o nível de ambição está sendo revisado, para baixo.
O desmatamento voltou a crescer em 2012/2013 na Amazônia (PRODES/INPE) e Mata Atlântica (SOS Mata Atlântica/INPE). Dados preliminares do LAPIG – Laboratório de Processamento de Imagens e Geoprocessamento mostram a mesma tendência noCerrado. A criação de unidades de conservação, indicada por vários estudos independentes como um dos mais eficazes meios de evitar o desmatamento, não só foi praticamente paralisada no atual governo como se abriu uma frente de redução das áreas existentes para fins de estudos e implementação de projetos de infraestrutura.
Em novembro, os dados do Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG) publicados pelo Observatório do Clima mostram profunda mudança no perfil das emissões brasileiras. As emissões por desmatamento – que chegaram a representar 2/3 das emissões, com queda nos últimos oito anos – em 2012, representaram menos de 1/3 das emissões. As emissões diretas da agropecuária e do setor de energia já representam quase 60% das emissões.
O crescimento das emissões do setor de energia acelerou e nos últimos anos e deve se tornar a principal fonte nos próximos anos, ultrapassando as emissões da agropecuária e de mudança de uso da terra. Um dos objetivos do plano nacional de mudanças climáticas, lançado em 2008, era aumentar em 11% o consumo de etanol até 2018. Em vez disso, entre 2008 e 2012, o consumo de etanol caiu mais de 20% e o consumo de gasolina disparou, estimulado por uma politica de subsidio implícito no controle de preços. A proporção de fontes renováveis em nossa matriz energética caiu de 45% para 42,3% entre 2009 e 2012, quando a meta apresentada em 2010, no Conselho de Politica Energética, era aumentar esta participação para 48% até 2020.
A geração de energia elétrica, que historicamente representou uma fração de cerca de 1% das emissões, chegou a quase 4% de participação em 2012, devido à necessidade de ligar termoelétricas de contingência por longos períodos. E, em 2013, órgãos reguladores do setor elétrico fizeram uma séria de movimentos para viabilizar termoelétrica de carvão mineral como parte da base do sistema elétrico.
Estes sinais dão pistas do que pode ter provocado um nível de ambição tão baixo na proposta de atualização do Plano Nacional de Mudanças Climáticas, colocado em consulta publica nos meses de outubro e novembro pelo governo federal. Como já comentado, neste blog, a proposta de atualização produziu documento com muitas palavras, mas pouca reflexão sobre a evolução no cenário brasileiro de emissões. Asmetas de mitigação de emissões foram revisadas para baixo, retrocedendo em relação ao documento original publicado em 2008.
No momento em que cobramos, com razão, um aumento de ambição dos países desenvolvidos em relação a seus compromissos de redução de emissões, até 2020 e para o período posterior, não podemos retroceder em nossos compromissos. Pelo contrário, temos que ser muito mais ambiciosos, dentro de nossas possibilidades, para liderar pelo exemplo.
Precisamos reverter este quadro em 2014, recuperando e reforçando as politicas públicas orientadas para mitigação das emissões, buscando não só cumprir as metas estabelecidas em 2008, como reforçá-las e aprofundá-las. Este processo pode começar com uma profunda revisão da proposta de atualização do Plano Nacional de Mudanças Climáticas de forma que ele represente um claro aumento da ambição brasileira para contribuir para mitigação das emissões globais de gases de efeito estufa.
Devido aos graves impactos que as mudanças climáticas podem trazer para o Brasil, conforme indicado pelo recente relatório do Painel Brasileiro sobre Mudanças Climáticas (RAN1), este aumento do nível de ambição é do mais legítimo interesse nacional.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Quando o Menor é o Maior

A área desmatada na Amazônia no último período anual (entre agosto de 2012 e julho de 2013 ) aumentou em 28% em relação ao período anterior. Apesar do aumento, os 5.843 quilômetros quadrados medidos pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) representam a segunda menor área anual desmatada desde 1988, quando teve inicio a série histórica de medições, e uma redução de quase 80% em relação ao pico extremo de desmatamento em 2004.
O problema é a reversão de tendência num momento de fragilidade proporcionado pelas alterações no Código Florestal. Desde 2004, a taxa de desmatamento na Amazônia tem caído consistentemente, com exceção de 2008, quando houve um aumento de 11%, que provocou uma forte reação do governo, com politicas de responsabilização da cadeia produtiva e alinhamento de instrumentos de crédito que levaram a novas quedas a partir de 2009.
Por outro lado, os dados preliminares do Laboratório de Geoprocessamento da Universidade Federal de Goiás (Lapig) apontam um crescimento do desmatamento no Cerrado nos últimos dois anos, e não será surpresa se os dados a serem publicados nos próximos meses apontarem uma taxa próxima a 8.000 quilômetros quadrados. Ou seja, o desmatamento no Cerrado já é muito maior do que o da Amazônia. Ainda falta colocar na conta a Mata Atlântica (220 quilômetros quadrados em 2012), Caatinga (sem dados atualizados, último dados de 2009 em 1.970 quilômetros quadrados), Pantanal e Pampa (ambos sem dados atuais). Seguramente, estamos falando de uma taxa de desmatamento atual no Brasil acima de 15 mil quilômetros quadrados ou 1,5 milhão de hectares. Ainda assim, uma redução importante em relação aos 4,6 milhões de hectares desmatados em todos os biomas brasileiros em 2004.
Mas isso é muito ou é pouco? É muito. É de longe ainda a maior área de desmatamento do planeta, mais do que o dobro do segundo colocado, a Indonésia. As emissões de carbono do desmatamento foram estimadas em 476 milhões de toneladas de CO2 pelo Sistema de Estimativas de Emissões de GEE do Observatório do Clima. Se fossem as emissões de um país seria o 20º maior emissor de CO2 do planeta.
É ótimo que tenhamos reduzido de forma dramática o desmatamento no Brasil nos últimos anos, e isso deve ser comemorado, mas estamos ainda longe de cumprir a meta estabelecida no Plano Nacional de Mudanças Climáticas (PNMC), de zerar a perda de cobertura florestal dos biomas brasileiros em 2015. Não devemos desistir desta meta, como os sinais dados pelo processo de revisão do PNMC dão a entender, e sim redobrar os esforços para cumpri-la, mesmo após o revés dos últimos dados. Revertemos o jogo em 2004 e 2008 e temos que reverter novamente agora e de forma ainda mais incisiva.
Publicado em O Globo em 20/11/2013

domingo, 17 de novembro de 2013

Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG)

Em 2012, eu fiz uma estimativa das emissões de gases de efeito estufa do Brasil até 2011. Este exercício serviu de base para o desenvolvimento do Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estuda (SEEG) lançado oficialmente no dia 07 de Novembro em evento realizado em São Paulo.

O SEEG é uma inciativa do Observatório do Clima que compreende a realização de estimativas anuais das emissões de gases de efeito estufa (GEE) no Brasil, documentos analíticos sobre a evolução das emissões e um portal na internet para disponibilização de forma simples e clara sobre métodos e dados gerados no sistema.  

As Estimativas de Emissões de Gases do Efeito Estufa são realizadas segundo as diretrizes do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), com base nos dados do Segundo Inventário Brasileiro de Emissões e Remoções Antrópicas de Gases do Efeito Estufa, elaborado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e em dados obtidos junto a relatórios governamentais, institutos, centros de pesquisa, entidades setoriais e organizações não governamentais.


Cinco setores foram avaliados – Agropecuária, Energia, Mudanças de Uso da Terra, Processos Industriais e Resíduos – com dados anuais para o período 1990-2012. A partir desta publicação, o SEEG será atualizado anualmente.

A plataforma disponível na internet é super simples de utilizar e permite pesquisar os dados com vários níveis de detalhes além de permitir a visualização em gráficos e exportação dos dados em arquivo MS-Excell. 

Todos os dados tiveram a qualidade avaliada (tabela de qualidade dos dados) e notas metodológicas foram preparadas para cada setor e estarão disponíveis também no site.

Para acessar o SEEG:    seeg.observatoriodoclima.eco.br




terça-feira, 12 de novembro de 2013

Uma lacuna de 8 gigatoneladas

Em 2009, durante a Conferência do Clima (COP15), em Copenhague, apesar do fracasso na negociação de uma ampla renovação do acordo global sobre mudanças do clima, dezenas de países apresentaram seus compromissos específicos paramitigação das emissões de gases de efeito estufa, em sua maioria para o horizonte de 2020.
O Brasil, por exemplo, se comprometeu em reduzir de 36,1 a 38,9% as emissões em relação ao cenário tendencial em 2020 e os Estados Unidos se comprometeu a reduzir 17% as emissões em relação a 2005. Ao todo, mais de 40 países apresentaram metas de redução de emissões de gases de efeito estufa, incluindo todas as principais economias e os principais emissores (China, União Europeia, Rússia, Canadá, Indonésia etc).
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Na imagem acima, países com compromissos de mitigação até 2020 (Executive Sumary Emissions Gap Report 2013) 
Para avaliar se os compromissos dos países feitos no acordo de Copenhague ou depois dele são suficientes para limitar o aumento da temperatura média do planeta em 2ºC o Programa de Meio Ambiente das Nações Unidas (PNUMA) publica, desde 2010, relatório anual sobre a lacuna de emissões, o Emissions Gap Report.
O relatório tenta responder anualmente estas quatro perguntas-chave:
1. Qual o nível de emissões desejáveis em 2020 para nos colocar na trajetória dos 2ºC ou menos?
2. Qual a tendência de emissões em 2020 considerando as condições atuais (cenário de tendência, ou, business as usual – BAU)?
3. Quando serão as emissões em 2020 se os países cumprirem os compromissos apresentados a partir do Acordo de Copenhague?
4. É possível fechar a lacuna entre o nível desejável de emissões e o que está previsto nos compromissos atuais dos países?
O primeiro relatório foi publicado em 2010. Definiu o limite desejável de emissões em 2020 em 44 GtCO2e e indicou que as emissões entre 49 em 2020 considerando que todos os países cumprissem com seus compromissos (considerando a interpretação mais rígida dos compromissos).  A lacuna entre o necessário e o que permitem os compromissos era de 5 GtCO2e.
O relatório de 2013 é mais preocupante: a lacuna aumentou. Ele indica que, em 2010, as emissões chegaram a 50,1 GtCO2e e, no cenário de tendência (seguindo ritmo de crescimento até 2010), chegariam a 59 GtCO2e em 2020. Quando considerados todos os compromissos dos países em mitigar emissões este valor cairia para 52 GtCO2e no melhor cenário, portanto, teríamos uma lacuna de 8 GtCO2e em relação ao cenário desejável de 44 GtCO2e.
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Mas o relatório também indica que ainda seria possível fechar esta lacuna, ampliando os esforços de redução de emissões – com tecnologias já conhecidas – nos setores agrícola, mudança de uso da terra, energia, transportes, processos industriais e manejo de resíduos.
Como trabalha com dados de 2010 e 2011 o relatório ainda não captou os recentes dados sobre a evolução das emissões globais em 2012 e as boas notícias vindas de países como EUA, China e Brasil. Globalmente, em 2012, o crescimento das emissões pela primeira vez desacelerou sem a presença de uma grave crise econômica.
As emissões cresceram pouco mais de 1% enquanto a economia mundial cresceu pouco mais de 3%. Nos EUA, principalmente devido ao crescimento da substituição de carvão mineral por gás, em 2012, as emissões caíram mais de 5% e seguem numa trajetória que deve superar a meta de redução de 17% em 2020. A China anunciou metas de restrição do uso do carvão mineral e ampliou significativamente os investimentos em energias renováveis. Na última semana, no Brasil, o Observatório do Clima divulgou estudo mostrando que, no ano passado, as emissões brasileiras registradas foram as menores em 20 anos. Esforços também estão se ampliando no México, na Africa do Sul, Índia, Japão, Austrália, Nova Zelândia, Comunidade Europeia e Canadá, só para citar alguns.
Com estes movimentos começa a ser possível vislumbrar a ocorrência do pico de emissões globais até 2020. Ou seja, é possível que vejamos o inicio da reversão do crescimento das emissões para uma trajetória de redução nos próximos anos. Isso é fundamental, pois, se houver reversão de tendência, é mais provável que as forças politicas e de mercado passem a operar com mais força para potencializar a redução das emissões.
A percepção destas possibilidades é fundamental para informar e influenciar a atmosfera politica no entorno do processo de negociação do novo acordo global de mudanças climáticas que se inicia na COP19 do Clima, que começou hoje (11/11) em Varsóvia, e tem seu ápice previsto para a COP21 em Paris, em 2015. Este processo precisa culminar com compromissos muito mais ambiciosos do que aqueles apresentados. Só assim conseguiremos vencer esta lacuna de 8 gigatoneladas que nos desafia de forma tão eloquente neste momento.

Publicado em Planeta Sustentável - 12-nov-2013