sábado, 11 de dezembro de 2010

Eficiente é a pulga


Tente carregar algo que tenha seu peso. Talvez, consiga levar por dez metros, mas é provável que não.
Uma formiga carrega cinquenta vezes o peso dela, por dezenas de metros, o que equivale a você andar alguns quilômetros com um carro grande nas costas. Como somos seres muito inteligentes, inventamos o automóvel. Uma engenhoca que pesa uma tonelada e roda pelas ruas das cidades, hoje, carregando uma ou duas pessoas. O motor de combustão interna de carros de passeio, quando muito eficiente, consegue transformar em movimento 15% da energia do combustível consumido, e essa energia é utilizada basicamente para movimentar o peso do carro (talvez por isso se chame automóvel). Resultado: menos de 2% da energia do combustível colocado no veículo realmente movem a pessoa.
Em um ônibus que carrega o seu peso em passageiros, esta eficiência pode subir para 20-30%.
Um carro médio de passeio emite anualmente mais ou menos uma tonelada de CO2 (tipo assim... imagine seu veiculo vaporizado... todo ano).
Funcionando nestas bases, estamos emitindo 50Gt CO2eq (bilhões de toneladas de gases de efeito estufa) na atmosfera que, ao longo dos anos, vão se concentrando e provocando o aumento da temperatura média do planeta. A ciência do clima indica que um aumento médio maior de 2 graus C na temperatura da Terra traria impactos que os recursos tecnológicos, financeiros e logísticos disponíveis não dariam conta de enfrentar.
Para termos 50% de chance de limitar o aumento médio da temperatura do planeta, a concentração de GEE na atmosfera não deve ultrapassar 450ppm, e, para tanto, no decorrer deste século, as emissões de GEE não podem ultrapassar 1.800Gt. Isso dá 18Gt/ano em média. É como um orçamento de carbono, as emissões de todos os países somadas durante o século não podem ultrapassar este orçamento.
Na primeira década deste século, o planeta já emitiu cerca de 450Gt CO2eq e, no ritmo atual, teremos emitido mais de 1.000Gt até 2020. Ou seja, nos 80 anos que restarão até o final do século, teremos que emitir em média 11Gt, 80% menos do que emitimos hoje. No compasso atual, a China sozinha emitirá mais de 15Gt em 2020.
Para evitar os trágicos impactos da mudança climática, temos que ser muito, mas muito mais eficientes do que somos hoje. Temos que produzir muito mais para cada tonelada de carbono emitida. Uma revolução.
Em Cancún, estão reunidos, desde a semana passada, representantes de quase 200 países com esse desafio. Montar um acordo que viabilize reduzir drasticamente as emissões do planeta nos próximos anos, que ao mesmo tempo assegure o desenvolvimento dos mais pobres e a adaptação às mudanças climáticas para os países mais vulneráveis.
Desde 1992, quando foi adotada a convenção sobre mudanças climáticas, as emissões não só não diminuíram como continuaram aumentando, e num ritmo mais forte. É preciso um novo acordo que envolva todos os países com compromissos claros e proporcionais à sua contribuição para o problema e às suas capacidades e possiblidades.
É uma equação dificílima e que precisa da liderança das maiores economias do mundo. Os países do G-20 representam mais de 80% das emissões globais. O Brasil, nesse grupo, é provavelmente o país que mais tem a perder com as mudanças climáticas (especialmente devido aos possíveis impactos da produção agrícola e na geração de energia hidroelétrica), mas, paradoxalmente, é o país que mais se beneficiará de uma transição para uma economia de baixo carbono, devido ao enorme potencial de energias eólica, solar, hidroelétrica e biomassa.
E o Brasil vem evoluindo em seu posicionamento desde 2005, culminando com a definição em 2009 de metas significativas de redução das suas emissões até 2020, gerando um efeito em cascata que levou outros países a apresentarem também suas metas.
Agora é o momento de o Brasil dar um passo à frente e apontar na direção de um novo acordo legalmente vinculante que contenha atribuições e compromissos de todos os países com ações, metas e recursos para o enfrentamento deste que é um dos maiores desafios já enfrentados pela humanidade. Sim, mas e a pulga do título? Bem, ela é capaz de carregar mais de mil vezes o próprio peso.
Artigo publicado em O GLOBO em 09/12/2010

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Resultados da COP 15

Considerando a COP15 como o auge de um processo de 2 anos, delineado e iniciado no Caminho de Bali (aprovado na COP 13), que envolveu mais de 200 dias de negociação e reuniões preparatórias o resultado foi até o momento frustrante.

 

Os dois trilhos de discussão – convenção (LCA) e protocolo de Quioto (KP) tiveram como resultado básico a determinação de mais um ano de discussões para tentar fechar um acordo na COP 16 no México em nov/dez 2010.

 

O Acordo de Copenhagen pretendia ser um orientador claro do enfrentamento das mudanças climáticas com objetivos e metas de longo e médio prazo e compromissos de mitigação, adaptação, financiamento, transferencia de tecnologia e capacitação. Infelizmente, esvaziado de conteudo, não conseguiu aprovação do plenário da COP como decisão.

 

A não aprovação do Acordo pela objeção expressa por cinco países (Venezuela, Bolívia, Cuba, Sudão e Tuvalu) se deve especialmente a questão de processo e menos de conteúdo.  Sobre este prisma, elencamos os principais pontos positivos e negativos da COP 15.

 

a.    Principais pontos positivos

 

·      Participação de mais de uma centena de Chefes de Estado – inclusive com discussão direta de conteúdo – elevando o status político do tema ao mais alto nível possível.

 

·      Reconhecimento de que as decisões devem ser tomadas hoje com base na melhor informação disponível (em oposição a necessidade de ter 100% de certeza antes de tomar medidas concretas).[1]

 

·      Acordo sobre[2]:

o   limite do crescimento da temperatura média do planeta em 2oC ou menos.

o   conceito de pico global de emissões – embora sem determinação de valores.

o   mudança de escala de recursos necessários para promover economia de baixo carbono e adaptação em países em desenvolvimento – passou de US$ 10 para 100 bihões/ano.

o   limite global de emissões.

·      Aceitação da inclusão de REDD (Redução das Emissões de Desmantamento e Degradação Florestal) como mecanismo de mitigação global de emissões e com enfase na necessidade de recursos urgentes e substanciais para implementar ações já.[3]

 

·      Entendimento que em 2015 deve ser feito revisão de compromissos de acordo com os resultados no próximo relatório do IPCC inclusive considerando o cenário de limitar o crescimento da temperatura média em 1,5oC[4].

 

·      Possibilidade de no curto crazo (ex.  final de Janeiro 2010) estarem registradas as ofertas de mitigação de emissões tanto de países desenvolvidos como dos emergentes (metas e ações).

 

b.   Principais pontos negativos

 

·      Pouco proveito da presença inédita de mais de 100 chefes de estado para uma conferencia temática.

 

·      Falta de acordo com metas específicas para:

o   Redução de emissões globais (2020; 2050)

o   Redução das emissões de países desenvolvidos (2020; 2050)

o   Ano de referencia máximo para pico de emissões

 

·      Ausência de acordo para definição de referencia para redução da taxa de crescimento das emissões em países em desenvolvimento, em especial as economias emergentes.

 

·      Ausência de acordo para fechar conteúdos importantes de um novo acordo para clima incluindo:

o   NAMAs e REDD  

o   Metas do novo período de compromisso do protocolo de Quioto

o   Novas modalidades de financiamento

o   Modelo de governaça do fundo global para mitigação e adaptação

 

·      Impedimento de avanço em vários temas devido a polarização entre Estados Unidos e China:

o   Intransigência americana com a própria oferta de mitigação para 2020 criou terreno fertil para União Européia, Japão, Austrália, Canadá e outros a enfraquecerem  suas posições de oferta.

o    Escondendo-se atrás dos EUA a China conseguiu barrar todas as referencias a metas de redução de emissões do documento do Acordo de Copenhagen.

Vale ressaltar também o esforço feito pelo Presidente Lula e o Ministro Carlos Minc durante a conferencia para tentar assegurar pelo menos os pilares de um acordo minimamente significativo para deter o aquecimento global (ex. Meta Global de Redução de Emissões)

Outro fator importante a se notar é o fato de a China ter recusado a inclusão de referencia a metas globais de redução de emissões (50% em 2050) e metas para redução das emissões dos países desenvolvidos (80% em 2050) a despeito de ser signatária da Declaração de L´aquila lançada em junho de 2009 durante reunião do MEF (Major Economies Forum) que reune as 17 maiores economias do mundo. Nesta declaração se lê:

 
 
In this regard and in the context of the ultimate objective of the Convention and the Bali Action Plan, we will work between now and Copenhagen, with each other and under the Convention, to identify a global goal for substantially reducing global emissions by 2050