terça-feira, 12 de novembro de 2013

Uma lacuna de 8 gigatoneladas

Em 2009, durante a Conferência do Clima (COP15), em Copenhague, apesar do fracasso na negociação de uma ampla renovação do acordo global sobre mudanças do clima, dezenas de países apresentaram seus compromissos específicos paramitigação das emissões de gases de efeito estufa, em sua maioria para o horizonte de 2020.
O Brasil, por exemplo, se comprometeu em reduzir de 36,1 a 38,9% as emissões em relação ao cenário tendencial em 2020 e os Estados Unidos se comprometeu a reduzir 17% as emissões em relação a 2005. Ao todo, mais de 40 países apresentaram metas de redução de emissões de gases de efeito estufa, incluindo todas as principais economias e os principais emissores (China, União Europeia, Rússia, Canadá, Indonésia etc).
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Na imagem acima, países com compromissos de mitigação até 2020 (Executive Sumary Emissions Gap Report 2013) 
Para avaliar se os compromissos dos países feitos no acordo de Copenhague ou depois dele são suficientes para limitar o aumento da temperatura média do planeta em 2ºC o Programa de Meio Ambiente das Nações Unidas (PNUMA) publica, desde 2010, relatório anual sobre a lacuna de emissões, o Emissions Gap Report.
O relatório tenta responder anualmente estas quatro perguntas-chave:
1. Qual o nível de emissões desejáveis em 2020 para nos colocar na trajetória dos 2ºC ou menos?
2. Qual a tendência de emissões em 2020 considerando as condições atuais (cenário de tendência, ou, business as usual – BAU)?
3. Quando serão as emissões em 2020 se os países cumprirem os compromissos apresentados a partir do Acordo de Copenhague?
4. É possível fechar a lacuna entre o nível desejável de emissões e o que está previsto nos compromissos atuais dos países?
O primeiro relatório foi publicado em 2010. Definiu o limite desejável de emissões em 2020 em 44 GtCO2e e indicou que as emissões entre 49 em 2020 considerando que todos os países cumprissem com seus compromissos (considerando a interpretação mais rígida dos compromissos).  A lacuna entre o necessário e o que permitem os compromissos era de 5 GtCO2e.
O relatório de 2013 é mais preocupante: a lacuna aumentou. Ele indica que, em 2010, as emissões chegaram a 50,1 GtCO2e e, no cenário de tendência (seguindo ritmo de crescimento até 2010), chegariam a 59 GtCO2e em 2020. Quando considerados todos os compromissos dos países em mitigar emissões este valor cairia para 52 GtCO2e no melhor cenário, portanto, teríamos uma lacuna de 8 GtCO2e em relação ao cenário desejável de 44 GtCO2e.
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Mas o relatório também indica que ainda seria possível fechar esta lacuna, ampliando os esforços de redução de emissões – com tecnologias já conhecidas – nos setores agrícola, mudança de uso da terra, energia, transportes, processos industriais e manejo de resíduos.
Como trabalha com dados de 2010 e 2011 o relatório ainda não captou os recentes dados sobre a evolução das emissões globais em 2012 e as boas notícias vindas de países como EUA, China e Brasil. Globalmente, em 2012, o crescimento das emissões pela primeira vez desacelerou sem a presença de uma grave crise econômica.
As emissões cresceram pouco mais de 1% enquanto a economia mundial cresceu pouco mais de 3%. Nos EUA, principalmente devido ao crescimento da substituição de carvão mineral por gás, em 2012, as emissões caíram mais de 5% e seguem numa trajetória que deve superar a meta de redução de 17% em 2020. A China anunciou metas de restrição do uso do carvão mineral e ampliou significativamente os investimentos em energias renováveis. Na última semana, no Brasil, o Observatório do Clima divulgou estudo mostrando que, no ano passado, as emissões brasileiras registradas foram as menores em 20 anos. Esforços também estão se ampliando no México, na Africa do Sul, Índia, Japão, Austrália, Nova Zelândia, Comunidade Europeia e Canadá, só para citar alguns.
Com estes movimentos começa a ser possível vislumbrar a ocorrência do pico de emissões globais até 2020. Ou seja, é possível que vejamos o inicio da reversão do crescimento das emissões para uma trajetória de redução nos próximos anos. Isso é fundamental, pois, se houver reversão de tendência, é mais provável que as forças politicas e de mercado passem a operar com mais força para potencializar a redução das emissões.
A percepção destas possibilidades é fundamental para informar e influenciar a atmosfera politica no entorno do processo de negociação do novo acordo global de mudanças climáticas que se inicia na COP19 do Clima, que começou hoje (11/11) em Varsóvia, e tem seu ápice previsto para a COP21 em Paris, em 2015. Este processo precisa culminar com compromissos muito mais ambiciosos do que aqueles apresentados. Só assim conseguiremos vencer esta lacuna de 8 gigatoneladas que nos desafia de forma tão eloquente neste momento.

Publicado em Planeta Sustentável - 12-nov-2013

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Emissões Globais começam a desacelerar

Em 2012, aconteceu a primeira desaceleração das emissões globais não relacionada a uma crise econômica específica, mas em tomadas de decisão e evoluções das mesmas, em países-chave como Brasil, China, Estados Unidos e Canadá.
Segundo o Relatório 2013 de Tendências em Emissões Globais de CO2 publicado pelo Join Research Center da Comissão Européiaem parceria com o Ministério de Meio Ambiente da Holanda, as emissões globais de CO2 atingiram 34,5 bilhões de toneladas (Gt) em 2012, o que significa crescimento de 1,4% em relação a 2011, bem abaixo da média de 2,9% de crescimento anual da década passada. A economia global cresceu 3,2% em 2012 o que reforça a importância desta desaceleração.
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Vários fatores têm contribuído para esta desaceleração dos quais vale destacar estes:
1. Declínio expressivo de emissões no Canadá e dos Estados Unidos devido a substituição de carvão mineral por gás de xisto nas termoelétricas a um preço extremamente competitivo;
2. Novas regulamentações de limites de emissão para usinas termoelétricas nos Estados Unidos, totalmente desestimulantes a novas termoelétricas a carvão mineral;
3. Expressivo crescimento do investimento em energias renováveis – desde 1992, foram necessários 15 anos para dobrar a participação das energias renováveis não convencionais (biocombustíveis, solar e eólica) de 05 para 1,1% da matriz global e apenas outros 6 anos para dobrar novamente para 2,4% em 2012. A geração de energia por hidroelétricas cresceu 4,3% apenas entre 2011 e 2012;
4. Segundo o REN 21 - Renewables 2013 - Global Status Report, em 2012, as fontes renováveis ultrapassaram as fontes fósseis em potencial de geração de energia elétrica adicional instalada. Na Europa já representa 70% dos novos projetos e na China pela primeira vez ultrapassou o carvão mineral;
5. A nova regulamentação chinesa para o setor siderúrgico e termoelétrico que define metas progressivas de desaceleração e redução do uso de carvão mineral especialmente próximo aos grandes centros urbanos por conta da poluição do ar e água esta mudando a tendência de conformação destes setores;
6. Na Austrália e na Nova Zelândia, novos sistemas de taxação e mercado de carbono começou a funcionar em escala, ao mesmo tempo que o sistema europeu volta a tomar fôlego; e
7. O Brasil reduziu drasticamente as emissões de CO2 por desmatamento, especialmente na Amazônia. Na década passada, a perda de cobertura florestal global diminuiu pela primeira vez, desde que as medidas começaram a ser tomadas pela FAO no inicio do século passado.
O que tem sido crucial para esta nova tendência é a confluência de ações de países e regiões que representam mais de 50% das emissões globais e que, adicionalmente, são os motores das decisões em política climática global. Foi justamente a resistência de países como EUA, Canadá e China em se comprometer com avanços nesta agenda que impediu um acordo climático ambicioso em Copenhague, em 2009.
Se persistir e aprofundar esta tendência de desaceleração, é possível que tenhamos o pico das emissões globais antes de 2020, renovando as esperanças de conseguirmos colocar o planeta em marcha para uma forte redução das emissões nas próximas décadas, que seja compatível com o cenário de limitar o aumento de temperatura média do planeta em 2oC.
Esta nova conformação é, sem dúvida, a maior contribuição para garantir que, em 2015, em Paris, possamos finalmente ter o novo acordo climático global com metas e compromissos de todos os países para o enfrentamento das mudanças climáticas globais a partir de 2020.

Publicado em Planeta Sustentável em 04-11-2013

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Um mundo cada vez mais eletrificado

Discutimos em posts anteriores o grande desafio para reduzir as emissões de gases de efeito estufa (GEE) no planeta de modo a limitar o aumento da temperatura média global.
Se o limite de 2ºC, definido em 2009 no Acordo de Copenhague for o parâmetro a ser perseguido, as emissões anuais médias de carbono não devem ultrapassar 11GtCO2 por ano até o final deste século. É um desafio e tanto já que, hoje, as emissões globais alcançam 52GtCO2eq.
O principal contribuinte para as emissões de gases de efeito estufa é o setor de energia que emite cerca de 31GtCO2/ano. Mesmo considerando que todos os outros setores reduzam a zero as suas emissões, o setor energético terá que reduzir suas emissões a menos de 1/3 das  atuais para que possamos cumprir as 11GtCO2 médias do orçamento de carbono até o final do século.
É um tremendo desafio, especialmente se considerarmos que, antes de meados do século, a demanda por energia vai dobrar. Ou seja, temos que dobrar a capacidade de oferta de energia com zero de emissões e ainda reduzir 2/3 das emissões da capacidade já instalada.
Para enfrentar este dilema há cinco linhas clássicas de ação, possíveis e já em desenvolvimento:
1. Promover a racionalização/redução do consumo;
2. Reduzir perdas no processo de geração-distribuição-consumo;
3. Aumentar a eficiência energética dos equipamentos e sistemas;
4. Promover fontes renováveis de energia (com emissão baixa ou nula) e
5. Estabelecer tecnologias de sequestro/captura de carbono para as fontes fósseis.
Porém, uma das transformações mais importantes em escala, que podem mudar o jogo, é a progressiva eletrificação do planeta. A eficiência do processo de produção/geração, armazenamento, transporte/transmissão e consumo da energia é significativamente maior por meio de sistemas elétricos do que de motores a combustão.
Por exemplo, o motor a gasolina de um carro transforma em movimento cerca de 15% da energia contida no combustível. Se o mesmo combustível for queimado em uma usina térmica moderna e abastecer um carro elétrico, o aproveitamento mais do que dobra, dada a eficiência do motor elétrico.
Por outro lado, a multiplicação rede elétrica acoplada a sistemas de armazenamento (ex. baterias, células de hidrogênio, soluções salinas etc) permite que se utilize mais fontes de energia intermitentes como solar e eólica. Um grande sistema de bateria pode ser programado para funcionar como um sistema descentralizado de armazenamento de energia (que pode fazer o papel de reservatório de hidroelétricas).
Uma outra vantagem é que, neste caso, a eletricidade pode ser transmitida a grande distâncias com baixíssimas emissões. Sistemas interligados além fronteiras podem viabilizar a produção de energia onde houver as melhores oportunidades de geração renovável e sustentável estejam presentes.
Difícil prever o que acontecerá com a energia no futuro, mas é desejável e provável que qualquer que seja o caminho ele deve passar pela intensificação da eletrificação do planeta.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Megaflorestas para Manter a Vida

Estou na Indonésia para reunião de líderes das agências florestais dos países com maior área florestal do planeta, como Rússia, Brasil, Canadá, Estados Unidos, China, Congo, Indonésia, Peru e Austrália. Juntos representam quase 70% da área florestal do planeta.
Os grandes maciços florestais têm importância crucial para manter a vida no planeta e principalmente regular o clima. São responsáveis por 2/3 da formação das nuvens que precipitam sobre os continentes e, portanto, provêem a maior parte de nossa água doce.
De todo carbono que emitimos para atmosfera, cerca de 28% são capturados pelas florestas, mais do que os oceanos (26%), que ocupam uma área 10 vezes maior.
O planeta tem cerca de 4 bilhões de hectares de floresta, sendo ¾ de florestas em zonas temperadas e ¼ em áreas tropicais, metade delas no Brasil.
A cobertura florestal vem diminuindo continuamente nos últimos séculos. Segundo dados da FAO, há uma perda anual líquida (áreas desmatadas x áreas reflorestadas ou recuperadas) da ordem de 0,2% da cobertura florestal por ano.
Neste ritmo, até o fim do século teremos perdido quase 1/4 das floretas remanescentes do planeta.
Uma perda desta magnitude resultaria em um colapso da disponibilidade de água para consumo humano, agricultura e geração de energia e um aumento de 10% na concentração de CO2 na atmosfera.
O grupo de líderes das agências florestais — não mais do que 20 pessoas — se reúne anualmente há oito anos com intuito de trocar experiências sobre os desafios que enfrentam, sendo o maior deles a sensibilidade das florestas às mudanças climáticas.
Se por um lado as florestas têm um papel crucial para sugar parte do carbono que estamos emitindo para a atmosfera, e este é seu lado heroico da história, por outro lado as florestas são vitimas das mudanças climáticas que têm aumentado de forma assustadora a intensidade, magnitude e frequência de pragas (como besouro do pinheiro) e de grandes incêndios florestais.
Estes fenômenos podem acelerar a perda da cobertura florestal e a efetividade de regulação climática das florestas.
Dependendo do cenário futuro de aumento de temperatura e concentração de carbono na atmosfera, as florestas reagirão de maneira diferente — e este é o dilema central dos gestores florestais que, por dever de oficio, têm que tomar decisões de manejo (plantar, colher, manejar, proteger...) que terão os resultados medidos décadas à frente, pelos seus sucessores.
Poucas profissões têm tão presente o sentido prático do cuidado com as futuras gerações.

Publicado em O Globo, 23/10/2013

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

O último pedaço de bolo

Como dividir os últimos pedaços de bolo quando tem gente que já comeu várias fatias, outros que comeram só uma e ainda tem gente que nem chegou à festa? Este é mais ou menos o dilema do debate sobre limites de emissões de gases de efeito estufa (GEE) para evitar alterações climáticas graves para sociedade global.
balanço energético da Terra tende a um equilíbrio no qual a quantidade de energia que chega do sol (cerca de 340 Watts/m2) equivale à quantidade de energia que retorna ao espaço.  A interação desta energia com a superfície e o efeito de retenção de calor pelos gases de efeito estufa permitem que uma determinada quantidade de energia permaneça circulando na atmosfera e também manter a temperatura média do planeta em torno de 14-15oC. Sem esses gases, a temperatura média da terra seria de 18oC negativos (-18ºC).
É como uma caixa d´água com entrada de água na parte de cima. Se a saída de água estiver localizada no fundo, a água não será armazenada, mas se a saída da água estiver nos níveis superiores da caixa, ela encherá e será possível manter um determinado estoque.
Quando a concentração dos gases de efeito estufa aumenta na atmosfera, altera o balanço de energia que é refletido e, portanto, aumenta a quantidade de energia em circulação até que se estabeleça um novo equilíbrio. Esta perturbação do balanço de energia é chamada de forçamento radiativo (FR) e é medida em watts/m2. Quando o FR é positivo causa aquecimento da atmosfera, quando o FR é negativo causa esfriamento. Diferentes gases e materiais lançados na atmosfera têm efeito positivo (CO2, CH4 e N2O, entre outros) ou negativo (alguns aerossóis) no forçamento radiativo.
5º relatório do IPCC mostra que o aumento dos GEE na atmosfera, desde 1750, que ocorreu majoritariamente devido as emissões antrópicas – especialmente a queima de combustíveis fósseis – levou a um forçamento radiativo de 2,16 W/m2 e isso foi suficiente para levar ao aumento de +1oC  na temperatura média do planeta (+0,6 de 1880 até 2005).
Para estudar os possíveis caminhos das mudanças climáticas, o IPCC organizou estudos de quatro cenários de forçamento radiativo em 2100: 2,6 / 4,5 / 6,0 e 8,5 W/m2. Daí o nome dos cenários RCP2.6, RCP4.5 e assim por diante.  A partir destes cenários foi possível estimar os impactos no clima como aumento de temperatura, aumento do nível dos oceanos (que ao reter mais calor se expandem), derretimento de geleiras entre outros.
Conhecendo a trajetória e a relação entre a concentração de GEE na atmosfera e o forçamento radiativo, o IPCC foi capaz de estimar a quantidade máxima de emissões possíveis para que tenhamos chance de limitar o aumento da temperatura média do planeta.
Assim, o IPCC aponta que – para termos a chance de manter 66% de aumento médio da temperatura em 2oC em 2100 (2081-2100), comparado com 1880 (1861-1880), como definido nos objetivos da Acordo de Copenhague, o máximo de carbono a ser emitido na atmosfera no período é 1 mil GtC (bilhões de toneladas de carbono).  Isso porque o efeito é acumulativo, pois o carbono permanece por séculos na atmosfera.
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Então este é o nosso orçamento de carbono para o período de 200 anos. Acontece que, se descontarmos o efeito da emissão de outros gases (200 Gt em carbono equivalente) e o que já foi emitido até 2011 (531 GtC), sobram apenas 271 GtC para emitirmos até o final do século. Isso dá uma média de 3 GtC ou 11 GtCO2 por ano, muito abaixo das emissões atuais de CO2 na casa de 35 Gt/ano (e crescendo).
Não sem motivo, este foi uma dos pontos mais duros do debate final sobre o Resumo para Tomadores de Decisão do primeiro volume do V Relatório do IPCC (AR5). Ao se tornar explícita a existência deste orçamento, cria-se uma pressão para que as partes da convenção (ou seja, os países membros) estabeleçam mecanismo para alocar tal orçamento de carbono no processo de construção do novo acordo internacional do clima, que poderá ser aprovado em 2015, definindo o caminho pós-2020.
Mas qual critério utilizar para dividir a porção do bolo que sobrou? Como incorporar as responsabilidades históricas do que já foi emitido? Como considerar as gerações futuras ou mais de 1 bilhão de pessoas que, hoje, emitem quase nada? Existem diversas possibilidades e todas guardam enormes desafios para que possamos atingir, ao mesmo, tempo eficácia e justiça.
No ritmo atual de crescimento de emissões, este orçamento de carbono será estourado muito antes da metade do século. Só reverteremos este quadro se conseguirmos alterar esta trajetória nos próximos anos. Criar as condições para esta reversão é o desafio central de todos envolvidos na negociação do novo acordo do clima, e ele certamente passa por enfrentar o dilema do último pedaço do bolo.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Como febre acima de 40 graus

"Ninguém embarca em um avião com 5% de chance de não chegar ao destino”. Escutei esse argumento outro dia, de um comentarista cético, sobre o recente relatório sobre mudanças climáticas globais, porque, segundo ele, teria apenas 95% de certeza sobre a relação entre a emissão de gases de efeito estufa e o aquecimento global.

É uma analogia muito distorcida. Na verdade, o postulado é outro: “Ninguém subiria em um avião que tem 95% de chance de cair”.

O debate sobre Mudanças Climáticas voltou à cena com o lançamento, pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), da primeira parte do 5º Relatório de Avaliação sobre as Mudanças Climáticas Globais. O relatório, um calhamaço de mais de mil páginas, trata da ciência do Clima, ou seja, do que está acontecendo, das causas das mudanças e dos cenários futuros.

A mensagem principal é direta: o Aquecimento Global sem precedentes (pelo menos nos últimos 800 mil anos) é um fato e as Emissões de gases de efeito estufa são a principal causa. As Mudanças Climáticas decorrentes afetam o nível do mar, a temperatura e a acidez dos oceanos, a extensão e a espessura do gelo nos polos e a disponibilidade de água na Terra. Para estancar esse processo, é preciso reduzir drasticamente as Emissões de gases de efeito estufa, sobre pena de chegarmos ao fim do século com aumento médio de temperatura do planeta em até 4,8°C.

Pode não parecer muito, mas, considerando que a temperatura média da superfície terrestre é de cerca de 14°C, um aumento de “apenas” 2°C é o equivalente a 15% mais. Proporcionalmente, corresponderia a um aumento de 5°C no corpo humano. Uma febre bem acima de 40 graus.

Nos oceanos, que absorvem mais calor, a temperatura média sobe menos; portanto, a média sobre os continentes será ainda maior e, com a variabilidade entre diferentes regiões, em alguns locais o aumento pode chegar ao dobro do aumento médio da temperatura do planeta.

O avanço dos modelos climáticos permitiu ao IPCC gerar mapas e análises específicas para as grandes regiões do planeta, e as notícias para o Brasil não são alentadoras, como já havia adiantado o relatório Avaliação Nacional sobre Mudanças Climáticas, publicado recentemente pelo Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas. Em algumas regiões do país, o aumento da temperatura em 2100 poderia chegar próximo de 7°C, no cenário mais crítico, e a redução da precipitação beirar os 30% entre o Norte e o Nordeste.

Os impactos desses cenários serão objeto da segunda parte do relatório, a ser lançado em março de 2014, e as ações necessárias para mitigar as Emissões e evitar os piores cenários entrarão na terceira parte, a ser publicada no mês seguinte. As conclusões dessa que é a mais extensa, completa e profunda revisão do estado da ciência do Clima já produzida deve ser peça fundamental para informar e dar subsídios para que os tomadores de decisão nos setores público e privado estabeleçam ações para mitigar as Emissões e adaptar as nossas atividades, negócios, infraestrutura e todos os aspectos de nossas vidas para as Mudanças Climáticas contratadas para as próximas décadas.

Avanços importantes começam a acontecer em vários cantos do mundo, e o Brasil, que deu importante contribuição para redução das Emissões globais, com a queda do Desmatamento na Amazônia na última década, precisa enfrentar as contradições atuais que aparecem em várias frentes e fazem com que as Emissões de gases de efeito estufa dos demais setores (como agropecuária, energia, processos industriais e resíduos) caminhem no sentido inverso e subam mais que a média global.

A política de subsídio à gasolina e a reintrodução do carvão mineral na matriz energética são exemplos de que o Brasil está reduzindo de forma acentuada a proporção de energias renováveis em sua matriz (caiu de 45% para 42% em três anos), quando a meta era aumentar essa participação para 48% até 2020.

O processo de atualização do Plano Nacional sobre Mudanças do Clima, atualmente em curso, é excelente oportunidade para realinhar nossas políticas públicas à necessidade clara de reduzir Emissões e nos adaptarmos o novo cenário. Infelizmente, a primeira versão dessa atualização, colocada em consulta pública recentemente pela Casa Civil, está muito longe de garantir esse realinhamento. Ainda há muito trabalho pela frente. É preciso colocar a mão na massa já.

Publicado no Correio Brasiliense em 10/10/2013 

O Plano que não estava nos planos

Da série “já existe e você não sabia”: soubemos, esta semana, que o Brasil tem um Plano de Ação da Redução de Emissões de Gases de Efeito Estufa na Aviação, ou melhor, um Action Plan on the Reduction of Greenhouse Gas Emissions from Aviation porque ainda não existe uma versão em português do documento produzido pela ANAC – Agência Nacional de Aviação Civil. Este documento foi preparado para atender a recomendação da ICAO – Organização Internacional de Aviação Civil de 2010 para que os países membros preparem planos de mitigação de emissões.
O curioso no caso brasileiro é o contexto de preparação do plano. Embora o Brasil tenha uma Politica Nacional de Mudanças Climáticas com metas de redução de emissões – que inclui, entre seus pilares, a abordagem setorial – o plano de aviação do Brasil sequer faz parte do debate interno. Nas diversas instâncias de decisão e operação da política climática do país, a existência deste plano ou de sua gestação não foi debatida ou referenciada. No Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, idem. Nem uma notinha de que o Brasil registrou este plano na ICAO. Aliás, nem mesmo os sites da Secretaria de Aviação Civil ou da ANAC fazem qualquer referência a esse Plano.
Na introdução do plano elaborado pela ANAC, há uma ressalva que explica que esse não é um dos planos setoriais tal como previstos na Lei 12.187 de 2009. A justificativa poderia ser o fato de o plano ser focado no transporte aéreo internacional, mas esse não é o caso. O Plano trata, corretamente, de todo o setor de aviação, nacional e internacional.
A ironia é que o plano que não estava nos planos é um dos melhores planos setoriais elaborados no Brasil para mitigação de emissões de gases de efeito estufa. Dos vários documentos elaborados no contexto da Comissão Interministerial de Mudanças Climáticas, apenas o da Agricultura se compara ao da aviação que apresenta diagnóstico abrangente e preciso das emissões setoriais, identificação das oportunidades de redução de emissões, definição de ações, metas e cronograma de execução.
Do ponto de vista do conteúdo, a equipe da ANAC está de parabéns pelo excelente trabalho! Do ponto de vista de processo e estratégia geral da governança do clima, mais um ponto de preocupação. Cerca de 2/3 das 16 milhões de t CO2 que, segundo a ANAC, foram emitidas pelo setor da aviação em 2010, se dão em voos nacionais e as ações de redução de emissões também são centradas em políticas no Brasil. Por isso, seria fundamental sua incorporação ao Plano Nacional sobre Mudanças do Clima, atualmente em processo de atualização e que, na versão em consulta pública, sequer menciona o setor de aviação.
COMO SE REDUZ EMISSÕES DA AVIAÇÃOAs emissões do setor aéreo acontecem, essencialmente, pela queima de combustível fóssil pelas aeronaves. Se um carro gasta 1 litro de gasolina para rodar 10 km, um avião de grande porte (mais de 100 passageiros) pode gastar 10 litros a cada Km voado, ou 3 a 4 litros por segundo (!).  O combustível chega a representar mais de 40% dos custos de uma empresa aérea.
Para reduzir as emissões das companhias aéreas, os fabricantes de aviões e turbinas e os órgãos reguladores da aviação e gestores da infraestrutura de aviação atuam em três frentes: (1). Melhorar a eficiência das aeronaves (ex. aerodinâmica e eficiência de turbinas); (2). Desenvolver biocombustíveis para substituir combustíveis fósseis (querosene e gasolina de aviação) e (3). Adaptar a infraestrutura de operações da aviação (ex. reorganização de rotas, descida planejada, coordenação de gestão do espaço aéreo).
A primeira frente é desenvolvida pelos fabricantes de aeronaves e turbinas, que são diretamente interessados em fornecer aeronaves com menor custo operacional e, portanto, mais competitivas. Já na frente de biocombustíveis e, principalmente, adaptação de infraestrutura e operação, é fundamental a articulação de politicas publica com governo e setor privado atuando de forma coordenada.
Em 2010, foi fundada no Brasil a ABRABA – Aliança Brasileira para Biocombustíveis de Aviação, que reúne as maiores empresas do setor aéreo (companhias aéreas, fabricantes de aeronaves e componentes) e empresas de tecnologia em combustíveis  para promover o desenvolvimento e a certificação de biocombustíveis sustentáveis para a aviação (veja reportagens indicadas no final deste post). Os primeiros voos com biocombustível feito a partir de pinhão manso já foram realizados.
Além de tratar dos biocombustíveis, o plano brasileiro de redução de emissões da aviação trata, também, da reformulação da gestão do tráfego aéreo para melhorar a performance nos procedimentos de decolagem, navegação, aproximação e aterrizagem, bem como melhorias na infraestrutura que permitem, por exemplo, reduzir o congestionamento do tráfego aéreo.
A FATIA DO PROBLEMAEmbora as emissões da aviação representem cerca de 2% das emissões globais de gases de efeito estufa (GEE), o setor tem potencial de crescimento por conta do forte aumento da demanda por viagens aéreas e em lugares de maior concentração de voos com Inglaterra, que chegam a 7%. Como parte importante do tráfego aéreo é internacional, existe maior dificuldade de alocação de responsabilidade territorial pelas emissões. Daí o tratamento setorial ser fundamental.
No inicio de outubro, após anos de intenso debate, os 191 países membros da ICAO fecharam acordo internacional para mitigar as emissões de GEE no setor de aviação.