quinta-feira, 17 de julho de 2014

Descarbonização Profunda

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Em 2008, um grupo de fundações, instituições de pesquisa e empresas mobilizou um grupo de dezenas de especialistas em ciência do clima, tecnologia e políticas públicas de todo o mundo para produzir um suporte analítico independente e inspirador para apoiar o desenho do novo acordo climático esperado para COP15, em Copenhague, no final de 2009.
Catalyst Project, como foi batizado, juntou as informações produzidas pelo 4º relatório do IPCC com uma extensa revisão das ações possíveis a serem feitas para reduzir emissões globalmente e estimou os custos envolvidos. O projeto foi fundamental para sustentar a necessidade e possibilidade de assumir o limite de aumento da temperatura global em 2ºC como objetivo geral da convenção. Uma série de instituições fundamentais no debate climático foram forjadas no projeto (2008-2011) como a Fundação ClimateWorks, a European Climate Foundation e o CPI – Climate Policy Initiative.
Em 2010, a UNEP (Programa de Meio Ambiente das Nações Unidas) publicou a primeiro estudo da série “Emissions Gap Report” que avalia anualmente o quanto as contribuições e compromissos dos países pode gerar de reduções globais de emissões e o qual a lacuna (do inglês gap) para entrarmos em uma trajetória compatível com o cenário de 2ºC.
Ambas iniciativas firmaram a convicção de que não existe possibilidade de se manter no cenário de 2ºC sem um esforço global que envolva todas as partes num processo deprofunda descarbonização da economia global. Mas como conduzir um desenvolvimento inclusivo associado a uma drástica redução das emissões?
Buscar respostas a esta pergunta é o principal propósito do DDPP – Deep Decarbonization Pathways Project (Projeto Caminhos para Descabonização Profunda, na tradução livre do inglês) conduzido pelo SDSN (Sustainable Development Solutions Network) sob coordenação do professor Jeffrey Sachs, da Universidade de Columbia (USA).
O projeto reúne inicialmente grupos de pesquisa independentes em 15 países (África do Sul, Alemanha, Austrália, Brasil, Canadá, China, Coréia do Sul, Estados Unidos, França, Índia, Indonésia, Japão, México, Reino Unido e Rússia) que respondem por cerca de 70% das emissões de gases de efeito estufa para produzir cenários de desenvolvimento associados à profunda descarbonização da economia.
O primeiro relatório preliminar do DDPP foi lançado no inicio de julho já com os estudos de 12 dos 15 países (os do Brasil, México e Alemanha será publicados nas próximas semanas) e se prepara para o lançamento da versão completa do DDPP2014. Ela será lançada em setembro, pouco antes da Cúpula do Clima convocada pelo secretário-geral da ONU, quando se pretende elevar o nível de ambição para o novo acordo climático global a ser finalizado em 2015 na COP21, em Paris.
As primeiras 40 páginas do longo relatório (218 pág.) traz uma análise agregada das lições obtidas a partir do desenvolvimento dos DDPs (Cenários de Profunda Descarbonização) preliminares para os diferentes países do estudo, que se concentraram nas emissões do setor de energia que representam quase dois terços das emissões globais de GEE. Para produzir os cenários os grupos assumiram como premissas:
1) o cenário de descarbonização deve ser compatível com o volume máximo de emissões globais agregadas que limitar o aumento de temperatura a 2ºC;
2) todos os países irão adotar ações coordenadas para atingir a profunda descarbonização, incluindo as medidas nacionais adequadas em regulação e incentivos,
3) o fluxo de recursos fluirá do portfólio de alta para baixa intensidade de emissões de GEE e
4) haverá financiamento para os países com iniciativas genuínas de mitigação e desenvolvimento com baixas emissões.
Abaixo, gráfico da trajetória da redução das emissões de CO2 relacionadas ao setor de energia em 15 DDPs. Clique na imagem para ver os detalhes:
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A seguir as principais mensagens do relatório preliminar:
• Os cenários de descarbonizarão produzidos para o período até 2050 levam a uma redução de 45% das emissões relacionadas a energia até 2050 no agregado. Na troca de experiências e informações entre os grupos, foram identificadas novas oportunidades de descarbonização que serão incorporadas nas próximas versões do DDPP;
• A descarbonização profunda no setor de energia envolve, em todos os países estudados, pelo menos três pilares estratégicos:
(i) forte melhoria da eficiência e conservação da energia,
(ii) forte redução das emissões na geração de energia elétrica e
(iii) agressiva substituições de combustíveis fósseis por combustíveis de baixa emissão ou energia elétrica renovável;
• A Captura e Armazenamento de Carbono (CCS), a energia nuclear e a substituição de carvão por gás natural embora tenham sido consideradas em parte dos países, aparecem como componente forte no agregado para a descarbonização até 2050;
• De todos os setores estudos os dois que apresentam maiores desafios para compor DDPs são transporte de carga e processos industriais que ainda precisam ser aprofundados;
• A viabilidade técnica dos DDPs depende em grande medida na capacidade de entrega em larga escala, nos próximos anos, de várias tecnologias de baixo carbono ainda em desenvolvimento. Algumas tecnologias chaves em áreas como armazenamento de energia de alta capacidade e transmissão de alta performance ainda precisam de grande avanços.
Mas a lição mais importante é que sem perspectivas clara de longo prazo (eg. 2050) para o limite de emissões, a tendência é que as definições de metas e compromissos de redução de emissões, para períodos mais curtos como 2025 ou 2030, sejam claramente insuficientes para limitar as emissões a mil GtCO2e até o final do século, condição para termos 2/3 de chance de mantermos o aquecimento global em até 2ºC.
A sugestão do DDPP é clara: devemos definir os compromissos de curto e médio prazo para redução de emissões tendo como ponto de partida um limite global de emissões acumuladas no longo prazo (2050) e, durante 2015, o projeto colocará na mesa alternativas para subsidiar o processo de decisão. É uma contribuição fundamental para o processo da negociação do novo acordo global.
No Brasil, a equipe da pesquisa do DDPP é liderada pelo Prof. Emílio La Rovere do COPPE/UFRJ.

Foto: Christopher Craig/Creative Commons


segunda-feira, 7 de julho de 2014

Porque a mais inovadora fabricante de veículos abriu mão de suas patentes

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Tesla é a mais jovem fabricante americana de carros em série. Fundada em 1993, a empresa produz exclusivamente carros elétricos. Mas nada de híbridos, são puro sangue mesmo, 100% elétricos!
A produção em massa começou em 2012 e, em 2013, atingiu a marca de 25 mil carros projetando chegar, em 2014, a 35 mil carros. Embora sua produção represente pouco mais de 1% do que fabricam anualmente gigantes como a Ford e a GM, o valor de mercado da Tesla (US$ 28 bilhões) já é quase metade do valor da GM e 40% da Ford.
O que faz da empresa um caso raro de sucesso é uma série de inovações que têm poder para revolucionar todo o setor automobilístico. As vendas são diretas (não existe concessionária) pela internet. O veículo é conectado a internet permanentemente e a manutenção é feita, muitas vezes, através de atualizações no sistema operacional ou aplicativos/softwares do carro.  Sua performance é superior a dos automóveis movidos a motor a combustão em quase todos aspectos: velocidade, arranque, segurança, conforto, espaço útil e economia. Foi considerado pela Consumers Report como o melhor carro já produzido entre todas as categorias.
A impressão que se tem depois de se conhecer um veículo da Tesla é que todos os demais automóveis são ultrapassados. E os conceitos ali aplicados podem ser expandidos para o transporte coletivo de passageiros e mesmo de carga.
Uma dos compromissos da Tesla é oferecer gratuitamente carregamento super rápido (20-25 min) em estações fixas distribuídas de forma a permitir que qualquer veiculo possa cruzar países e continentes sem ficar na mão.
A Tesla possui centenas de patentes e outros tantos segredos industriais em áreas que vão de baterias (só aí são mais de 100 patentes) a motores elétricos, de sistemas de fabricação e equipamento de carregamento.  Este parecia ser o fator primordial de competitividade da Tesla, mas a empresa tomou a surpreendente decisão em junho de liberar o uso de todas a suas patentes como forma de acelerar a oferta de veículos elétricos.
Em carta aberta aos acionistas da empresa e ao público, Elon Musk, empreendedor e CEO da empresa, explica que a missão da empresa é acelerar a adoção do transporte sustentável e que, ao liberar as patentes, contribui para esta missão. Ele diz que seus competidores não são os demais fabricantes de carros elétricos, mas os 200 milhões de carros produzidos anualmente com motores a combustão.
A demanda por carros da Tesla é muito maior que a capacidade de fabricá-los, e a capacidade financeira e a estrutura da empresa para montar a infraestrutura de abastecimento rápido ou produzir baterias é limitada. Para que os veículos elétricos se tornem protagonistas do transporte de passageiros é fundamental a rápida adoção de inovações como aquelas produzidas pela Tesla.
Ao abrir as patentes, Elon Musk abre uma avenida de oportunidades para revoluções em outros setores tão fundamentais para uma economia de baixo carbono como tecnologias de produção, geração, armazenamento e distribuição de energias renováveis modernas ou a reciclagem e o processamento de resíduos. Que seja seguido o exemplo!
Abaixo a íntegra da mensagem em que Elon Musk anuncia e explica a decisão, em 12/06/2014:
Até ontem, havia um painel com as patentes da Tesla no lobby da sede de Palo Alto. Isso já não é o caso. Eles foram removidos, no espírito do movimento open source, para o avanço da tecnologia de veículos elétricos.
Tesla Motors foi criada para acelerar o advento do transporte sustentável.  Se abrirmos o caminho para a criação de veículos elétricos convincentes, mas atrás de nós deixarmos um caminho minado com barreiras de propriedade intelectual, estamos agindo de forma contrária a esse objetivo. Tesla não processará qualquer pessoa que, de boa fé, quiser usar nossa tecnologia e nossas patentes.
Quando lancei minha primeira empresa, Zip2, pensava que patentes eram uma coisa boa e trabalhei duro para obtê-las. E talvez elas tenham sido boas por um bom tempo, mas, hoje, muitas vezes elas servem apenas para abafar o progresso, consolidar as posições das corporações gigantes e enriquecer advogados, em vez de os inventores reais. Depois da Zip2, quando me dei conta de que receber uma patente realmente só queria dizer que você comprou um bilhete de loteria para uma futura ação judicial, passei a evitar as patentes sempre que possível.
Na Tesla, no entanto, nos sentimos obrigados a criar patentes com a preocupação de que as grandes empresas de automóveis iriam copiar nossa tecnologia e, em seguida, usar a sua enorme capacidade instalada de produção, vendas e marketing para oprimir a Tesla. Infelizmente, estávamos equivocados. A triste realidade é o oposto: os programas de carro elétrico (ou programas para qualquer veículo que não queima combustíveis fósseis) nos principais fabricantes são pequenos ou inexistentes, constituindo uma média de menos de 1% das suas vendas totais de veículos.
Na melhor das hipóteses, as grandes montadoras estão produzindo carros elétricos com alcance e volume limitado. Muitas ainda não produzem um único carro com zero de emissões.
Dado que a produção anual de veículos novos está se aproximando de 100 milhões por ano e a frota mundial é de cerca de 2 bilhões de carros, é impossível para a Tesla construir carros elétricos de forma rápida o suficiente para lidar com a crise de carbono. Da mesma forma, isso significa que o mercado é enorme. Nossa verdadeira concorrência não é o pequeno mercado de outros carros elétricos sendo produzidos, mas sim a enorme enxurrada de carros a gasolina saindo das fábricas de todo o mundo a cada dia.
Acreditamos que a Tesla, as outras empresas que fazem carros elétricos e o mundo todo se beneficiariam da rápida evolução de uma plataforma comum de tecnologia.
A liderança tecnológica não é definida por patentes (a história tem mostrado repetidamente oferecer pouca proteção de fato contra um concorrente determinado), mas, sim, pela capacidade de uma empresa para atrair e motivar os engenheiros mais talentosos do mundo. Acreditamos que a aplicação da filosofia open source para nossas patentes vai reforçar em vez de diminuir a posição de Tesla a este respeito.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Este poderá ser o ano mais quente já registrado

O mês de maio de 2014 foi o mais quente desde que as medições começaram a ser feitas, em meados do século XIX. A média de temperatura entre março e maio também é a maior registrada no período. Além disso, a evolução das temperaturas em junho aponta para um recorde neste mês. A constatação é observada nos principais centros meteorológico do planeta como NOAA (Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera), nos EUA, e a Agência Meteorológica do Japão (JMA).
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Paradoxalmente, no leste dos EUA – que iniciaram o ano com recordes históricos de temperaturas baixas -, as temperaturas têm estado abaixo da média histórica. É a única área continental no planeta que tem médias abaixo das históricas, o que explica o fenômeno da alteração do vórtex polar que tratamos em outro post – O frio do aquecimento global –, publicado em janeiro.
A precipitação também está abaixo da média e em situação crítica em várias regiões na América do Sul, Estados Unidos, Ásia e Austrália, para citar algumas regiões. O que faz o sinal de alerta subir mais ainda é o fato de ser esperado, para o final deste ano, o início de mais um El Niño, com aquecimento das águas do Pacífico, que alteram os fluxos das massas de ar provocando mais calor.
A temporada de incêndios florestais no hemisfério norte está começando mais cedo na primavera e terminando mais tarde no outono. Este pode ser uma dos piores anos também nesse aspecto.
A influência destes efeitos climáticos em turbinar conflitos latentes, como no caso da Síria, começaram a ser documentados nos últimos anos (ver documentário Years of Living Dangerously) e, recentemente, Bryan Merchant, Editor da Motherboard, chamou à atenção outro recorde recentemente registrado pela ONU: nunca houve tantosrefugiados de conflitos e desastres no mundo. Em maio, 50 milhões de pessoas encontravam-se nestas condições no mundo e esse número cresce rapidamente com a escalada dos conflitos no Oriente Médio e, em especial, no Iraque e Síria.
O Oriente Médio é uma das regiões do planeta que mais aqueceram este ano. Isso agrava de forma dramática a situação dos refugiados e as condições para seu atendimento.
De acordo com o IPCC, o aumento da temperatura média global desde o inicio da era industrial foi de 1ºC. Definitivamente, não podemos arriscar superar 2ºC. Mais um sinal do quanto são fundamentais os acordos e as ações para limitar as emissões de gases de efeito estufa (GEE) e a adaptação às mudanças climáticas.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Sol, vento e big data

As fontes de energia solar e eólica foram as que mais cresceram em potencial instalado de geração elétrica no planeta em 2013, e este acabou sendo o primeiro ano em que a capacidade instalada em 12 meses de fontes renováveis superou a das energias fósseis.
Mas a intermitência dessas fontes é um enorme desafio para sua expansão de forma ainda mais rápida e necessária. Como a incidência de sol e de ventos é inconstante e difícil de prever, os sistemas elétricos dos países e das empresas precisam contar com uma enorme capacidade de reserva para garantir a continuidade do fornecimento de energia. As principais fontes usadas para tal são as termelétricas e as hidrelétricas. Em ambos os casos, a manobra de regular o despacho de energia não pode ser feita de forma abrupta e instantânea.
No caso das termelétricas, isso significa mantê-las ligadas para poder, em caso de necessidade, responder rapidamente, gerando a energia suficiente para lidar com as variações de oferta nos sistemas eólico e solar.
Quando a parcela de energia eólica e solar é relativamente pequena, até 10% da energia gerada, este não é um grande problema, uma vez que as termelétricas e hidrelétricas estariam ligadas de qualquer maneira para atender a maior parte da demanda. Mas, quando este percentual sobe para 15% a 20% ou mais, manter as termelétricas ligadas para uma eventualidade passa a ser um fator de ineficiência significativo.
Para enfrentar este problema, engenheiros e climatologistas buscam constantemente formas de melhor prever as variações de radiação solar e vento para diminuir a incerteza da geração. Nos EUA, engenheiros de uma companhia elétrica e pesquisadores do Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica (NCAR) passaram a coletar 24 horas por dia os dados reais de ventos que passam pelas milhares de unidades de aerogeradores da empresa e cruzam com as centenas de fontes de informações climáticas disponíveis no NCAR para gerar prognósticos de ventos sem precedentes, o que permite à empresa reduzir significativamente a necessidade de termelétricas ligadas como reserva.
A inciativa foi destacada recentemente pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT) na lista anual que publica com as dez tecnologias mais disruptivas do ano. A atual capacidade de analisarmos um volume de dados colossal permite que os modelos sejam aprimorados ano a ano. Quanto mais cresce a instalação de energia eólica ou solar, mais cresce a precisão da previsão dos sistemas.

Este é mais um sinal de que a revolução das energias renováveis modernas veio para ficar.

terça-feira, 24 de junho de 2014

Matriz Energética Global

Há mais de seis décadas, um dos gigantes da indústria energética, British Petroleum (BP), preparara relatório anual sobre o estado da produção, consumo e mercado de energia no planeta. No recém-lançado relatório de 2014, o destaque é a lenta desaceleração global da demanda energética, mais acentuada nos países em desenvolvimento.
Em 2013, a demanda de energia global aumentou cerca de 2%, pouco menos que a média dos últimos 10 anos. Na Europa, depois de dois anos em queda de 1% ao ano (2011 e 2012), em 2013 a demanda aumentou 1%. Por outro lado, nos países em desenvolvimento o crescimento da demanda vem desacelerando desde 2010, quando cresceu pouco mais de 7%, e em 2013 cresceu menos de 3%.
Entre 2000 e 2013, a demanda de energia cresceu 38% e foi acompanhada do crescimento do consumo das fontes fósseis na mesma proporção (3%), sendo o crescimento mais acentuado para o carvão (70%), em especial por causa da China, e menos acentuado para o petróleo (17%). As energias renováveis tiveram crescimento de 81% no mesmo período, com destaque para solar (+14.000%), eólica (+2.000%) ebiocombustíveis (622%).
A participação das energias renováveis subiu de 7% para 9,3%, mas a participação das fontes fósseis permaneceu estável em 86%, isso porque a oferta de energia nuclear caiu 4% e a proporção na matriz energética global caiu de 6,3 para 4,4%. Ou seja, na última década, as energias renováveis têm ocupado espaço da energia nuclear e ainda não têm sido capazes de reduzir o consumo das energias fósseis.
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Fonte: compilado com dados do BP Energy Statistical Review 2014

Como consequência desta evolução, as emissões de gases de efeito estufa no setor de energia cresceram 38% entre 2000 e 2013, chegando a 35 GtCO2 ou mais de 65% das emissões globais. A partir de 2011, as emissões começaram a desacelerar, mas ainda crescem cerca de 2% ao ano.
A previsão da BP para 2035 e de aumento de 40% da demanda de energia e maior crescimento das fontes renováveis, embora aposte que as fontes fósseis ainda dominarão o mercado (afinal é uma companhia de petróleo.).
Um fenômeno importante acontece nos Estados Unidos que, apesar de terem reduzido o consumo de carvão (que vai sendo substituído por gás de xisto), vêm batendo recordes de aumento de produção de petróleo que passou a ser produto de exportação. Os EUA poderão se tornar exportadores líquidos de petróleo na próxima década.
Apesar de este ser um cenário cruel, com contínuo aumento do consumo absoluto de combustíveis fósseis, existe um universo em transformação. As energias renováveis já superaram as fontes fósseis na capacidade instalada anual em 2013 e a proporção de energia elétrica na matriz continua a crescer anualmente, aproximando-se de 20% (nos inicio dos anos 80 era 10%).
Como não podemos nos comprometer com mais emissões, pois teremos que fazer redução drástica antes da metade do século, precisamos trabalhar para aumentar rapidamente a participação da energia elétrica na matriz global e continuar aumentando a participação das fontes renováveis. Esta inclusive é a aposta dos principais cenários de baixo carbono descritos no V Relatório do IPCC.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Um passo a frente para novo acordo de clima

conferencia-bonn-mudancas-climaticas-junho2014-tassoTerminou neste sábado, 15/6, em tom surpreendentemente otimista mais uma rodada de reuniões de formulação e negociação do novo acordo sobre mudanças climáticas que reuniu durante duas semanas, em Bonn, na Alemanha, delegados de 185 países, além de representantes organismos internacionais e mais de duas centenas de organizações não-governamentais. A rodada de reuniões aconteceu sob o impacto positivo das últimas iniciativas anunciadas na China e nos EUA, com compromissos unilaterais de mitigação de emissões.
Os dois países que respondem juntos por cerca de 1/3 das emissões globais de gases de efeito estufa (GEE) e sua movimentação durante o encontro parecem ter injetado uma pitada de otimismo com relação ao nível de ambição que pode ser alcançado no novo acordo global.
Apesar da realização de uma série de eventos paralelos como as reuniões do SBSTA (Subsidiary Body for Scientific and Technological Advice) e o SBI (Subsidiary Board of Implementation), as atenções voltaram-se principalmente para as reuniões do Grupo de Trabalho da Plataforma de Durban (ADP) que tem dois mandados: – desenvolver protocolo, outro instrumento com força legal nos termos da Convenção aplicável a todas as partes, para ser concluído até 2015, a fim de que ela seja aprovada na 21 ª sessão da Conferência das Partes (COP) e para que possa entrar em vigor e ser implementada a partir de 2020; e – identificar e explorar opções para fechar a lacuna de ambição das ações de mitigação até 2020 e a necessidade de redução das emissõesrequerida pela ciência.
O avanço das negociações e o clima favorável em Bonn permitiram acordar que uma primeira versão do documento – com a proposta de elementos para o novo acordo global de clima – seja proposta e apresentada para negociação pelos presidentes do grupo de trabalho em julho próximo, de forma que o debate possa ser adiantado e permita que, na COP20, a ser realizada no Peru em dezembro, possamos efetivamente chegar à estrutura e aos elementos do novo acordo. Um dos pontos fundamentais para se chegar ao acordo em 2015 é a compatibilização do nível de ambição dos países para contribuir com a mitigação das emissões, a adaptação e o financiamento das ações nos países em desenvolvimento.
Até 31 de março de 2015, os países devem submeter suas contribuições voluntárias de forma que se tenha tempo de avaliar a lacuna existente entre a soma das contribuições dos países e a necessidade prevista pelos cenários da ciência, descritos no 5º Relatório do IPCC, que terá sua última parte lançada em outubro próximo. Para que esta análise seja possível, é fundamental que as submissões dos países à UNFCCCsejam consistentes e comparáveis entre si e, portanto, é imprescindível que se acorde um conjunto de parâmetros de conteúdo e formato. Esta conversa começou a avançar nas duas últimas semanas em Bonn e os sinais são alvissareiros para um bom acordo sobre estes parâmetros, durante a COP20.
Outro destaque da semana em Bonn foram os eventos de debate sobre as ações que podem ser feitas pelas cidades e no uso do solo para mitigar as emissões. Neste tema, o Brasil se destacou, sendo o primeiro país a protocolar estudo completo sobre como medir a redução de emissões por desmatamento e degradação florestal.
Próximas paradas:
Cúpula do Clima promovida pelo Secretário Geral da ONU em setembro em NY;
- Lançamento da 4ª. e última parte do relatório do IPCC, em outubro;
- 3ª. reunião do Grupo de Trabalho da Plataforma de Durban (ADP), também em outubro, em Bonn; e
20ª Conferencia das Partes da Convenção Quadro sobre Mudanças Climáticas, a COP 20, em Lima em dezembro~
Foto: Adopt a Negociator/Creative Commons
Publicado em O Blog do Clima - Planeta Sustentável em 16-06-2014

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Por que o Plano de Energia Limpa de Obama é tão importante (e insuficiente)

Quando, em junho de 2013, o presidente dos Estados Unidos Barack Obama lançou o seu Plano de Ação Climática (Presidente’s Climate Action Plan) criou grande expectativa sobre o seu real interesse de fazer acontecer ações ousadas para promover a redução de emissões no país que é o segundo maior emissor global de gases de efeito estufa (GEE) (pouco menos de 20% das emissões globais), atrás apenas da China.
Menos de um ano depois, veio a resposta com a publicação da proposta do Plano de Energia Limpa (Clean Power Plan) pela Agência de Proteção Ambiental dos EUA(EPA na sigla em inglês). No ano passado, essa agência já havia publicado resolução com as regras para aprovação de novas termoelétricas geradoras de eletricidade, limitando as emissões destas novas plantas aos níveis de intensidade de emissões de termoelétricas a gás. Com isso, praticamente inviabilizou os novos investimentos em termoelétrica a carvão mineral. A medida lançada agora trata das termoelétricas já existentes e, portanto, começa a tratar da redução das emissões da infraestrutura já instalada.
O documento de 645 páginas descreve toda a nova regulação para geradoras estacionárias de energia já existentes e tem, como meta geral, reduzir em 30% as emissões de GEE da geração de energia elétrica até 2030, quando comparada aos níveis de emissões de 2005. Em relação aos níveis de 1990, a queda em 2030 seria de cerca de 8%.
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O gráfico acima está na página 22 do Resumo Executivo do Inventário de Emissões de GEE dos EUA.
Como a geração de energia elétrica responde por cerca de 1/3 das emissões de GEE dos Estados Unidos, a redução comprometida (30% no setor de energia) equivale a 10% de redução das emissões totais. Um passo fundamental, sem dúvida, mas ainda insuficiente para promover redução de emissões necessárias para que o aumento de temperatura fique limitado a 2ºC. Esta redução precisaria ficar, pelo menos, entre 25 e 40% em relação a 1990. Mas é um bom início.
A implantação desta medida traz uma série de co-benefícios estudados pelas agências americanas, incluindo (i) economia de 95 bilhões nos serviços de saúde contra um investimento de menos de 10 bilhões para colocar o plano em curso e (ii) redução das emissões de poluentes locais associados a emissão de CO2 de combustíveis fósseis.
A importância deste movimento é o sinal que passa sobre o ambiente de negócios para os empreendedores e investidores que atuam no país. A direção que foi apontada é da redução das emissões e isso deve fazer com que os investimentos fluam para energias renováveis e outras soluções para reduzir emissões e devem gerar um ciclo virtuoso de investimentos e redução de emissões. Se ganhar tração, a redução de emissões em 2030 vai superar facilmente a meta estipulada. Vale lembrar que, entre 2005 e 2012, a queda das emissões já foi de 15% na geração de energia elétrica (2,45 para 2,06 GtCO2e), ou seja, metade da meta é, na verdade, conquista já alcançada.
UTILIZANDO A LEI DO AR LIMPO (CLEAN AIR ACT)
Impedido de aprovar novas leis no congresso americano sobre mudanças climáticas, o governo americano tem optado por agir através do EPA, que está autorizada a regular poluentes desde 1970, quando foi aprovada a Lei do Ar Limpo. Entre 1970 e 2012, a implantação da lei permitiu aos EUA reduzir em 72% as emissões totais dos seis principais poluentes locais (particulados, ozônio, chumbo, monóxido de carbono, dióxido de nitrogênio e dióxido de enxofre). Neste período, a economia americana mais que dobrou, a população aumentou 50% e o número de quilômetros rodados por veículos aumentou 170%.
Em 2007, a Suprema Corte Americana decidiu que os gases de efeito estufa poderiam ser regulados por meio da Lei do Ar Limpo e o então presidente George W. Bush orientou o EPA a iniciar o processo de regulação das emissões de fontes móveis de emissão (ex. veículos). Nos anos seguintes, uma série de regulamentos foi publicada pelo EPA e pelos estados para controlar e incentivar a redução de emissões de veículos (que representam cerca 30% das emissões de GEE nos EUA).
Em setembro de 2013, depois de um debate de dois anos, os novos padrões e limites de emissões para novas plantas geradoras de energia (ex. termoelétricas) foram divulgados. Finalmente, em 2014, os padrões para as plantas já existentes também foram divulgados. Com isso, os EUA já estão regulando 2/3 de suas emissões de gases de efeito estufa, efetivamente.
O vídeo abaixo explica o Plano de Energia Limpa de Obama.