segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Entrevista Época Negócios

PARA O ENGENHEIRO FLORESTAL TASSO AZEVEDO, A INDICAÇÃO DE ALDO REBELO (PCDOB) PARA A PASTA PODE REPRESENTAR UM RETROCESSO NOS DEBATES SOBRE O MEIO AMBIENTE

Tasso Azevedo (Foto: O Globo)

O ano de 2015 será crucial para a definição de metas ambientais em todo o mundo — ou, como definem os especialistas, para a agenda global de mudanças climáticas. Ao longo dos próximos meses, serão fixadas, por exemplo, as propostas para um novo acordo sobre o clima, que será discutido em dezembro, em Paris. Também serão definidas as bases para o desenvolvimento sustentável do planeta, que substituirão os Objetivos do Milênio, fixados pela ONU, em 2000. As posições adotadas nesses dois campos terão impacto duradouro. Podem balizar e evolução da política ambiental até 2030 — ou além. “No mínimo, o que for decidido nessas duas frentes de trabalho vai nortear o que faremos durante uma década no setor”, diz o engenheiro florestal Tasso Azevedo, coordenador do Sistema de Estimativas de Emissão de Gases do Efeito Estufa (SEEG), ligado ao Observatório do Clima, uma rede formada por 30 ONGs no Brasil.
As propostas brasileiras para esses arranjos internacionais estão sendo elaboradas no Planalto. Não se sabe, porém, que rumo tomarão sob a batuta do novo ministério de Dilma Rousseff 2. “O que mais preocupa é a escolha do ministro da Ciência e Tecnologia, Aldo Rebelo”, diz Azevedo. “Ele, simplesmente, ainda não acredita na existência do aquecimento global. E isso é trágico”. O ambientalista conhece os meandros e labirintos da burocracia federal. Presidiu o Serviço Florestal do Brasil, nas gestões de Marina Silva e Carlos Minc, no Ministério do Meio Ambiente. Acredita que o país precisa ousar como nunca nesse campo, pois é um dos que acusam com maior intensidade o impacto das mudanças climáticas. A seguir trechos da entrevista concedida por Tasso Azevedo a Época NEGÓCIOS.

A agenda do clima ganha ou perde com o novo ministério da presidente Dilma Rousseff?
Temos de observar esse tema por partes, avaliando cada um dos ministros. Veja o caso da pasta de Minas e Energia. Sob o ponto de vista da agenda da sustentabilidade, o novo ministro, Eduardo Braga [PMDB], representa um avanço. Ele foi governador do Amazonas, conhece o tema e já participou de reuniões internacionais sobre clima. Por outro lado, a escolha do ministro Aldo Rebelo [PCdoB] para a Ciência e Tecnologia, uma área fundamental para questões climáticas, foi um desastre. É um grande problema, a menos que ele diga algo como: “Esqueçam tudo que eu já disse”. Isso porque ele já afirmou que não existem evidências de que as mudanças climáticas estejam ocorrendo e muito menos sobre a influência do homem nesse processo. É um cético, mas sem nenhuma sustentação científica.

Em relação a esse tema, ele pode atrapalhar?
Não digo que vá atrapalhar. Tomara que não. O problema é que ele também tem ojeriza ao terceiro setor. Define as pessoas que compõem esse segmento como “imperialistas”. O ideal seria que não se metesse nesse assunto. A presidente Dilma não tem grande simpatia pelo tema, mas cumpre o seu papel. Acredito que ela seguiria a orientação dos técnicos em decisões no campo ambiental, ainda que fizesse isso sem grande ousadia. Por isso mesmo, é importante observar, agora, o que vai acontecer com os técnicos do Ministério de Ciência e Tecnologia. A atual equipe que trata das questões climáticas é muito boa. Vamos torcer para que seja mantida.

E os demais ministérios? A pasta da Agricultura, por exemplo?
Acho que a mudança não faz grande diferença. A ministra Katia Abreu expõe o seu ponto de vista de forma enfática. Não acho isso ruim. Eu prefiro os que falam o que pensam de forma clara e transparente aos dissimulados. Acredito que, sob o ponto de vista da agenda do clima, a ministra é neutra, embora tenha um inegável viés negativo nesse campo, pois é contra as unidades de conservação e as áreas indígenas. Outro problema é que ela prega o “desmatamento ilegal zero”. Ou seja, tudo o que for legal pode ser feito. Então, qual a estratégia? É tornar as coisas legais, como reduzir a área reservada para a conservação ambiental nas propriedades agrícolas.
 
Como o senhor avalia a permanência da ministra Isabella Teixeira, no Meio Ambiente?
Ela compreende bem a agenda de sustentabilidade. Mas não sei se terá força para agir em um ministério com um peso político tão grande. Nesse contexto, eu a vejo como alguém que tem maior possiblidade de executar os projetos do que inlfuenciar de fato as grandes decisões da agenda.

E as outras peças do ministério?
Existe uma curiosidade. O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, tem sensibilidade para questões relacionadas ao meio ambiente. Ele é um exímio conhecedor de árvores. Conhece mais espécies do que muitos engenheiros florestais — e eu me incluo entre eles. Ele tem interesse pessoal sobre o assunto. Está preparando um livro sobre árvores do Rio de Janeiro. A esposa do Levy, a Denise, também é ecóloga. O atual ministro do Planejamento, o Nelson Barbosa, também conhece bem a agenda do clima. Quando ocupava o posto de secretário executivo da Fazenda [entre 2011 e 2013], era uma pessoa importante para negociarmos questões relacionadas ao meio ambiente. Na verdade, a avaliação final do novo ministério, sob a ótica do clima, pode não ser ruim, mas precisamos de grandes avanços nessa área.

Por quê?
Em 2015, o mundo vai definir as novas metas para o desenvolvimento sustentável e as regras de um novo acordo climático. Os documentos que surgirão dos debates nessas duas frentes vão balizar o que será feito no setor até 2030 ou 2050. O Brasil ainda não definiu as suas propostas. E é importante que elas sejam muito ousadas. Se adotarmos uma posição contundente poderemos influenciar outros países, principalmente entre os emergentes. As empresas, a sociedade civil e a academia têm um papel importante nesse processo para dar suporte ao governo brasileiro na definição dessas propostas ambiciosas como, por exemplo, o compromisso com o desmatamento zero ou mesmo com a produção e veículos menos poluentes.

Será que isso pode ocorrer em 2015, um ano de apertos na área econômica? O cenário não parece favorável a mudanças que resultem em custos.
É preciso que isso aconteça. O Brasil é um dos países mais impactados pelas mudanças climáticas. Veja, por exemplo, a questão da água. Ela é central tanto para a saúde da população, como para a agricultura — um carro-chefe da economia brasileira — ou como fonte de produção de energia. Além do mais, o Brasil — e o mundo — tem muito a evoluir nesse campo. Estamos muito distantes de uma economia de baixo carbono.

O quão distantes estamos?
Uma economia de baixo carbono é aquela que tem níveis pequenos de emissão de gases do efeito estufa. Essa cota tem de ser limitada, em todo o mundo, para que possamos restringir o aumento da temperatura global em no máximo dois graus Celsius até 2100. Nós temos um orçamento de emissões, um limite. Ele é estimado em 3.600 gigatoneladas de dióxido de carbono (CO2) equivalente [uma gigatonelada equivale a um bilhão de toneladas]. Esse valor é para ser gasto desde o início da era industrial até o ano de 2100. O problema é que já gastamos 2.600 gigatoneladas. Então, o nosso saldo é de mil. A agravante é que emitimos 50 gigatoneladas por ano. Gastando dessa forma, vamos atingir o teto em 20 anos. Por isso, tem de haver uma redução muito forte nas emissões nos próximos anos. Elas, na verdade, têm de ser negativas a partir da segunda metade do século.

E a situação parece piorar. É verdade?
Em 2050, a população global pode atingir 9 bilhões de pessoas. Isso significa que, mantidas as condições atuais, a cota per capita de emissões será de uma tonelada ou no máximo 2 toneladas por habitante do planeta por ano. Uma tonelada é muito pouco. É o que emite um carro, em um trajeto de 20 quilômetros. Uma viagem entre São Paulo e Londres, na classe econômica, com a tecnologia atual, também lança uma tonelada de CO2 equivalente na atmosfera. Um boi emite em um ano 50 quilos de metano, o que equivale a uma tonelada de carbono.

Qual a emissão per capita no Brasil?
Hoje, gira em torno de 7,5 a 7,8 toneladas por ano. É mais alta do que a média global, que está 7 toneladas. Ela já chegou a 18 toneladas, em 1994, quando houve um grande avanço do desmatamento na Amazônia.

O senhor participou da divulgação de um relatório, no fim do ano passado, que aponta para um aumento das emissões no Brasil. Qual foi esse crescimento?
A emissão de gases que provocam o efeito estufa aumentou 7,8% em 2013, em comparação com 2012. O levantamento mostrou que houve uma mudança de trajetória nesse indicador. Ele havia registrado, por exemplo, uma queda de 4,7% entre 2011 e 2012.

O que piorou no último ano analisado?
Todos os setores pioraram. Mas, proporcionalmente, o pior resultado ocorreu na área de energia. Ele está ligado ao aumento de consumo de combustível, lastreado na política de vender carro, vender carro e vender carro. Nessa área, também está acontecendo uma mudança que prejudica o total de emissões de CO2. Constatamos no relatório entre 2009 e 2012, que houve uma troca do tipo de consumo de combustível. O uso da gasolina aumentou pouco mais de 30% e o do etanol caiu em proporção semelhante. Observe-se que a nossa meta, em 2009, era aumentar em 10% o consumo do etanol por ano no Brasil.

E as termelétricas?
Elas contribuíram muito para o aumento das emissões no setor de energia. Entre 2009 e 2013, elas mais do que dobraram o volume de gases lançados na atmosfera. Só esse aumento registrado com as termelétricas, e considerando apenas 2013, equivale à emissão de todos os ônibus que circulam no Brasil em um ano.

Considerando o comportamento atual da espécie, em contraste com as necessidades globais, parece não existir a menor possibilidade de o mundo cortar as emissões de CO2 na proporção necessária até 2100. O que acontecerá?
Não é bem assim. Há 20 anos, as empresas de telecomunicações estimavam que o mundo teria hoje cerca de 5 milhões de linhas de celulares. Só no Brasil temos quase 300 milhões. Esse tipo de tecnologia chegou aos rincões da África. Algo que parecia inacreditável. Outro exemplo: em 2000, toda a capacidade instalada de energia solar do mundo somava 1 gigawatt/hora. Terminamos 2014 com pelo menos 150 gigawatts/hora. E esse salto, embora tenha sido expressivo, ainda nem começou. Mais emblemático ainda é o problema do buraco na camada de ozônio. Há cerca de duas décadas, ele parecia irreversível. Mas um grande acordo foi firmado para a solução do problema. O resultado é que o buraco está sendo fechado.

Então, é possível atingir as metas de emissão?
Sim. Para isso, é preciso de um grande acordo global, que crie condições para uma ruptura, como ocorreu nos exemplos que citei. Não podemos usar o olhar do presente para pensar no longo prazo. Se fizermos isso, os problemas parecem realmente insuperáveis. O fato é que não são. Ocorre que só conseguimos dar grandes saltos dessa magnitude quando há confluência de interesses. É isso o que temos de buscar
Publicado em Época Negócios em 12.01.2015

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Floresta e Clima no TED Global

Em novembro participei do TED Global. Fiz uma palestra sobre os desafios da agenda de floresta e clima. Abordei as lições da luta contra o desmatamento que podem ser uteis na batalha da redução das emissões globais de gases de efeito estufa.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

O ano que definirá as próximas décadas

Em 1972 foi realizada, em Estocolmo, na Suécia, a Conferência Global sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a primeira grande reunião a tratar da necessidade de harmonizar a proteção ao ambiente e o desenvolvimento e a alertar sobre a ameaça de mudanças do clima.

Quinze anos depois, em 1987, a Comissão Bruntland publicou o relatório “Nosso Futuro Comum”, que definiu o desenvolvimento sustentável como aquele que “atende as necessidades do presente sem comprometer a habilidade das futuras gerações de atender as suas".

No mesmo ano de 1987 começaram as tratativas que levaram à criação em 1988 do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), que publicou seu primeiro relatório sobre o estado do clima em 1990. Este foi uma das bases fundamentais para a construção da Convenção sobre Mudanças Climáticas aprovada dois anos depois durante a Cúpula da Terra realizada no Rio de Janeiro (Rio-92), onde também foram aprovados os Princípios do Desenvolvimento Sustentável (Princípios do Rio), a Agenda 21 (o plano de ação global que serviu de base para as Metas de Desenvolvimento do Milênio lançadas em 2000) e a Convenção da Biodiversidade.

Vinte anos depois, em 2012 a comunidade internacional decidiu dar novos passos e adotou, durante a Rio+20 e a Conferencia de Clima de Doha (COP18), uma agenda de trabalho que pretende culminar em 2015 com dois grande acordos: as Metas Globais para o Desenvolvimento Sustentável (MDS) e o novo acordo climático global para o período pós-2020.

A agenda de mudanças climáticas é talvez a melhor síntese do desafio da sustentabilidade. Os esforços para redução de emissões, redução das vulnerabilidades e adaptação às mudanças do clima têm profundos laços com a paz, saúde e bem-estar em todo o planeta nesta e nas futuras gerações. Estes esforços afetam e são afetados por questões políticas, econômicas, sociais, ambientais e culturais e só podem ser tratados em um contexto de metas claras para o desenvolvimento sustentável.

As decisões de 2015 vão demarcar o caminho a trilharmos nas próximas décadas. A posição do Brasil — sempre uma referência para o tema — precisa ser a mais ousada, inovadora e ambiciosa que se possa imaginar.

Não tem sido o caso dos últimos anos, mas o início de um novo mandato é bem oportuno para que se reverta o quadro.

Publicado em O Globo em 31.12.2014

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

COP20 em Lima: um passo tímido, mas para frente e na direção correta

cop20-em-lima-um-passo-timido-mas-para-frente-e-na-direcao-correta-clima
Já era madrugada de domingo (14/12) quando a Conferência das Partes da Convenção de Mudanças Climáticas da ONU (COP20), em Lima, programada para terminar dois dias antes, chegou ao final com aprovação do acordo intitulado Lima Call for Clima Action (LCCA).
O documento é positivo, certamente um passo a frente e na direção correta, mas também um passo muito tímido em relação ao nível de ambição necessário para onovo acordo climático global a ser “costurado” até a próxima COP em Paris, em dezembro de 2015.
O QUE SE ESPERAVA DA COP20
Em essência, esperava-se a definição dos elementos centrais do novo acordo climático global que será elaborado, em detalhes, em 2015 e os parâmetros mínimos para a apresentação das contribuições nacionais para mitigação e adaptação, a serem propostas no ano que vem pelas partes e que servirão também de base para o futuro acordo.
Em outras palavras, se fosse um empreendimento imobiliário seria o equivalente a fazer o croqui e as premissas básicas do projeto (área, localização, altura, uso, numero de unidades, serviços e prazos etc) e condições gerais de adesão (valor m2, modelo de financiamento, agentes financeiros etc).
Eis as questões centrais em jogo nestes elementos:
1. Definir o objetivo geral do futuro acordo (ex. reduzir as emissões em X% até 2050 ou convergir a trajetória de emissões para zona compatível que limite o aquecimento global em 2ºC);
2. Definir a inclusão ou não de adaptação e financiamento entre os compromissosdas partes no novo acordo;
3. Definir como serão diferenciados os diferentes grupos de países evoluindo além da diferenciação binária de desenvolvidos e em desenvolvimento; e
4. Ciclos básicos de meta/reporte/revisão para o novo acordo.
Estas definições são importantes como referência para que os países definam suas contribuições nacionais (INDCs) para o novo acordo pós-2020. Por exemplo, o país apresenta meta de redução de emissões para 2025, 2030 ou 2050? Inclui só compromissos de mitigação ou inclui outros temas como financiamento?
O QUE SE ALCANÇOU EM LIMA
O documento que descreveria os elementos do novo acordo global avançou apenas na primeira semana da COP20. Na segunda, ele não saiu do lugar. Com 37 páginas, odocumento está completamente em aberto e apresenta dezenas de várias opções para cada parágrafo. Acabou virando um anexo para informações no acordo de Lima (LCCA).
Na analogia do empreendimento imobiliário, seria o mesmo que anunciar empreendimento com especificações vagas: poderá ter entre 40 e 350 m2 e de 3 a 40 andares, localizado no Brasil, com vista norte, sul, leste ou oeste, e possível valor de R$ 1 mil a 30 mil por m2. Ou seja, pouco ajuda para que um possível investidor faça sua oferta.
O acordo em Lima é basicamente uma decisão para organizar os trabalhos de 2015 de tal forma que possam formar as bases para um acordo em Paris. O documento deixa claro que, com as ações e os compromissos hoje existentes, ainda existe uma lacuna enorme para se chegar a uma trajetória favorável que limite o aumento de temperatura em 2 ou 1,5ºC.
CONTRIBUIÇÕES NACIONAIS (INDCs)
Assim, o Lima Call for Clima Action conclama os países para que apresentem suas contribuições para mitigação e adaptação às mudanças climáticas pós-2020 até meados de 2015 (bem antes da COP em Paris) e sugere uma série de temas e conteúdos que podem constar da proposta, tais como metas, ano base e métrica, prazos de implementação, metodologias para contabilidade das emissões, entre outros aspectos. Define, também, que os compromissos devem necessariamente ampliar a ambição frente ao que já foi colocado na mesa.
Para as pequenas ilhas e os países pobres e menos desenvolvidos é dadotratamento diferenciado e mais flexível, no formato de suas contribuições. Na prática, é o primeiro movimento para diferenciar os países em desenvolvimento, até então tratados como único grupo com regras homogêneas apesar das enormes diferenças – em responsabilidades e capacidades – das grandes economias emergentes como China, Brasil e Índia e dos menos desenvolvidos. É um passo importante para viabilizar o novo acordo em Paris.
O documento ainda determina que o Secretariado da Convenção prepare relatório síntese até novembro de 2015, avaliando o efeito agregado das propostas de contribuições dos países apresentado ao longo do próximo ano (por exemplo, efeito na redução das emissões globais no médio e longo prazo).
FINANCIAMENTO
A inclusão do financiamento como parte dos compromissos obrigatórios dos países, quando se submeterem às INDCs, não foi alcançado e segue como fonte de discórdia, mas os debates sobre financiamento de longo prazo avançaram e, durante a COP20, se alcançou a captação de US$ 10,2 bilhões para o Green Climate Fund (GCF).
Entre os países que anunciaram contribuições para o GCF - além dos países desenvolvidos como Japão, Inglaterra e Alemanha -, estão países em desenvolvimento como Colômbia, Peru, Panamá, Indonésia e México, o que significa um corte na política de “esperar o outro agir para tomar posição”. As contribuições destes países cria constrangimento ético para que os países desenvolvidos e as grandes economias emergentes aportem recursos expressivos no fundo.
O texto de Lima traz referência preambular a questão de perdas e danos (loss and damage) associadas às mudanças climáticas, tema crítico para pequenas ilhas epaíses mais vulneráveis.
EM RESUMO 
resultado da COP de Lima – apesar de aquém do planejado e desejado– representa mais um impulso que mantém nos trilhos e no rumo certo o processo de negociação para possibilitar um novo acordo climático global, mas ainda com inúmeras incertezas e pontos abertos que darão enorme trabalho, ao longo de 2015, para que o acordo seja realmente ambicioso e efetivo.
Voltando, mais uma vez, à analogia do empreendimento imobiliário, não definimos as especificações, mas demos elementos para que os interessados digam, de forma geral, como gostariam de participar, além de prazo para que demostrem este interesse e se comprometam a ter o projeto pronto para ser assinado por todos até o final do próximo ano.
Poderia ter sido melhor, mas à luz do que aconteceu na COP14 (que antecedeu a COP de Copenhague), também poderia ter sido muito pior. A condução da presidência peruana, focada em buscar o resultado de forma aberta e transparente durante todo o curso das negociações, foi crucial para o sucesso em Lima. Serve de exemplo para os franceses que terão a difícil tarefa de liderar o processo em 2015.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Sobre uma grande negociação em Lima

Um amigo meu, que acompanha com interesse importantes negociações sobre um enorme empreendimento em Lima, com grande preocupação, me resumiu a situação e os avanços obtidos:

Estava acordado que o Investidor se comprometeria em se posicionar favoravelmente ao investimento, dentro de algumas premissas que estavam em negociação com o Empreendedor.

No momento, o que havia sido acertado era que o futuro Contrato teria uma redação com premissas básicas, ficando a definição do Empreendimento e as Condições para o investimento e prazos definidas em 2 Anexos. O Anexo 1 apresentaria as especificações e o Anexo 2 as condições de desembolso e prazos.

Meu amigo estava apreensivo e ansioso porque o que estava ate então acordado era que os imóveis que comporiam o empreendimento estavam definidos apenas em termos gerais no Anexo 1, com redação  tipo: "serão construídos segundo as boas práticas", "utilizarão materiais adequados", "respeitarão as exigências legais". Não havia definição de metragem, apenas que "as condições de habitabilidade e salubridade serão boas" e poderá Também dizia que “teria entre 5 e 50 mil m2 e entre 2 e 31 andares” entre outras “especificações”.

Como consequência, o Anexo 2 não precificava os imóveis e nem definia claramente as etapas de execução. Apenas dizia que "os imóveis deverão ser construídos dentro do cronograma" e que "os pagamentos serão feitos em parcelas e segundo os cronogramas definidos para a implantação dos imóveis".

Meu amigo via com expectativa o desenrolar e o avanço destas negociações, que, como ja era tempo do Natal, ficariam para 2.015.

A esperança dele era grande, reforçada pelo espirito do Natal e de renovação dos votos para o Ano Novo.

Torço para que o acordo final saia, assim meu amigo se acalma e o grande empreendimento acontece.

Ah! Devo esclarecer que este texto é uma  ficção e que qualquer semelhança com outras negociações aqui em Lima é uma mera coincidência.

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Baseado no relato de um amigo que encontrei em Lima.


quinta-feira, 27 de novembro de 2014

A última fatia do bolo: desafio do novo acordo global de clima (versão tv cultura)

Chuvas torrenciais, secas sem precedentes. as alterações climáticas estão ficando mais visíveis a cada dia. porque esse assunto se tornou uma das mais importantes discussões de nosso tempo e o que isso tem a ver com o cotidiano de cada um de nós?

A comunidade científica aponta a emissão de gases de efeito estufa como a principal responsável pelo aumento da temperatura na terra. governantes, cientistas e sociedade debatem a responsabilidade de cada país e de cada um de nós nas transformações climáticas do planeta.

A série “mudanças climáticas: rumo a um novo acordo global”,  é uma parceria da cpfl e planeta sustentável, que teve como curador o engenheiro florestal tasso azevedo, que neste programa fala sobre o desafio para o novo acordo global de clima. ele nos remete a questionamentos a respeito da economia que queremos seguir para um desenvolvimento sustentável e, se ainda há tempo de reverter com nossas ações o aquecimento do planeta, de que forma?



http://vimeo.com/113010037

Veiculado na TV Cultura em 27.11.2014 no Programa Invenção do Cotemporâneo

Meta Ameaçada

Depois de oito anos de sucessivas quedas nas emissões de gases de efeito estufa no Brasil, em 2013 as emissões voltaram a subir de forma expressiva (7,8%), principalmente pelo aumento do desmatamento na Amazônia e no Cerrado, acompanhado do aumento do consumo de gasolina e diesel e da expansão da geração de energia elétrica a partir de termelétricas movidas a combustíveis fósseis, sobretudo carvão e gás.

O levantamento das emissões para o período de 1970 a 2013 produzido pelo Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa do Observatório do Clima mostra que o Brasil emitiu 1,57 bilhão de toneladas equivalentes de carbono (Gt CO2e) no ano de 2013, bem abaixo das 2,5 Gt CO2e emitidas em 2005, mas com uma nova composição, em que a energia dobrou sua participação nas emissões, alcançando 30% do total.

De fato, o período efetivo de queda de emissões se deu entre 2005 e 2009; depois disso, as emissões praticamente se estabilizaram ao redor de 1,5 Gt CO2e, mesmo com a queda do desmatamento ainda tendo perdurado, ainda que de forma menos expressiva, entre 2010 e 2012.

Até 2012 o Brasil ainda caminhava claramente para o cumprimento da meta de redução de 36% das suas emissões projetadas para 2020 (o que equivale a 2 Gt CO2e). Porém, a mudança de trajetória em 2013 e a manutenção do crescimento das emissões nas principais áreas de pressão em 2014 tornam isto incerto, com as projeções podendo chegar a 2,2 Gt CO2e em 2020.

Em 2014, o uso das termelétricas foi intensificado em relação a 2013, o consumo de gasolina e diesel cresceu e os sinais dados pelos sistemas de alerta de desmatamento apontam crescimento na Amazônia, no Cerrado e na Mata Atlântica. O único setor que pode mostrar retração de emissões em 2014 é o da indústria, que vem tendo um ano particularmente ruim.

Mais preocupante é constatar que a reversão de tendência ocorre num período de baixíssimo crescimento econômico e, portanto, estamos nos tornando menos eficientes, ou seja, emitimos mais para produzir a mesma quantidade de produtos e serviços.

Não se trata de destino, uma fatalidade, mas de uma situação que pode perfeitamente ser revertida com a retomada do cumprimento das metas do Plano Nacional de Mudanças Climáticas (aumento de 10% do consumo de álcool, aumento da proporção das fontes renováveis na matriz energética — hoje em queda — e redução do desmatamento).


Que sirva de alerta para que, neste novo mandato, o governo federal retome a agenda de desenvolvimento sustentável tão desvalorizada nos últimos anos, e o Brasil possa voltar a liderar pelo exemplo a agenda climática global.

Publicado em O Globo 26.11.2014