terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Cartas na mesa do clima

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No dia 13 de fevereiro, representantes de mais de 180 países do Grupo de Trabalho para implementação da Plataforma de Durban (ADP) encerraram a Conferência de Clima de Genebra ao aprovar o documento que servirá de base para a negociação donovo acordo climático global. Este acordo deverá ser finalizado e aprovado naConferência das Partes da Convenção de Mudanças Climáticas (COP 21), em Paris, em dezembro próximo.
De fato, o trabalho deveria ter sido terminado na COP20, que aconteceu em dezembro último em Lima, Peru. Mas, na falta de um bom acordo, foi preciso marcar nova reunião.
O documento-base – que já começou a reunião em Genebra com quase 40 páginas – recebeu centenas de emendas e, em vez de ser enxugado, foi inflado com todas as propostas colocadas na mesa, chegando a 86 páginas. Para efeito de comparação, aConvenção sobre Mudanças Climáticas tem 25 páginas e o Protocolo de Kyoto,22 páginas.
Em praticamente todos os temas em debate existe, no mínimo, três opções de texto com abordagens às vezes bem distintas e distantes como, por exemplo, o objetivo do novo acordo. Algumas alternativas indicam, como objetivo, zerar emissões antrópicasneste século para assegurar maior chance de manter o crescimento da temperatura média global no limite de 2ºC. Outras propõem a busca – dentro das possibilidades de cada país – de uma economia de baixo carbono ao longo do século.
Até o final do ano, serão realizadas, pelo menos, mais duas sessões de negociaçãoantes de Paris, para limpar o texto, reduzir as opções e buscar consensos.
Apesar de toda complexidade e “gordura” do texto, é possível começar a visualizar uma estrutura e uma narrativa deste documento.
Começa com um longo preâmbulo que procura desenhar o contexto, avanços e retrocessos do processo da convenção de clima e sua implementação e ancorar o novo acordo como um novo mecanismo de implementação. Segue para os objetivos do novo acordo, no qual o grau de ambição varia enormemente entre as diferentes opções de texto. Depois, no final, desenvolve o caminho para o objetivo ser alcançado a partir de ações de cinco áreas: mitigação, adaptação, financiamento, assistência técnica e mecanismo de perdas e danos. Nestas cinco áreas, disputa-se no texto como serão feitos compromissos legalmente vinculantes para os países (ou parte deles) e como eles seriam definidos, implementados e monitorados.
Em outros posts, trataremos dos dilemas nas diferentes partes do texto e o significado das escolhas ao penderem para um lado ou outro.
Publicado em Planeta Sustentável - Blog do Clima em 24.02.2015

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Calculadora Global

A tarefa não é fácil, encontrar caminhos para o desenvolvimento e o bem-estar da humanidade e, ao mesmo tempo, reduzir drasticamente as emissões de gases de efeito estufa (GEE) de forma a garantir que o aumento da temperatura média do planeta não supere 2ºC.
Os diferentes caminhos envolvem decisões sobre transporte, geração de energia, agricultura, desmatamento, modos de produção industrial, padrões de consumo e hipóteses sobre o crescimento populacionaleficiência energética e outros. A resultante deles, além de mostrar o nível de emissões de GEE, tem impactoseconômicos, sociais e ambientais mais amplos a ser levado em conta.
A cada relatório do IPCC são traçados centenas destes caminhos (pathways) ou cenários que, depois, são agrupados para identificar os pontos em comum entre os caminhos que conseguem limitar as emissões nos níveis necessários para a meta de 2ºC. Mas, olhando de longe, estes cenários parecem excessivamente complexos e difíceis de entender e, mesmo, de interferir.
Agora, equipe de pesquisadores de uma aliança de instituições que inclui WRILondon School of Economics (LSE), Imperial College e International Energy Agency (IEA), desenvolveu ferramenta pública e de código aberto que possibilita, a qualquer interessado, desenhar seus próprios caminhos e cenários para ajudar a limitar o aquecimento do planeta em 2ºC: a Calculadora Global (The Global Calculator). O lançamento aconteceu em 28 de janeiro, na sede da Royal Society, em Londres.
No formato web, a ferramenta apresenta mais de 40 variáveis que podem ser ajustadas pelo usuário como, por exemplo:
- população global (qual seria a população global em 2050?),
- penetração de tecnologias automotivas (ex. x% de veículos elétricos em 2050),
- uso da terra e
- proporção de energias renováveis, só para citar alguns interesses.
A partir dessa combinação de variáveis são calculadas as emissões de GEE, o PIB global, a distribuição do uso da terra, custos de implementação entre outros resultados, de saída.
É muito simples de utilizar e traz resultados intrigantes, mesmo com as limitadas opções de cada variável (4 níveis). Toda a base de cálculo é feita em Excell e as planilhas bem como a documentação da metodologia e fontes de dados estão disponíveis no site da iniciativa para download.
Uma série de cenários já rodados por organizações como Amigos da Terra, IEA e Chatan House está disponível na Calculadora Global para que usuários possam comparar os diferentes caminhos trilhados.
E, para mostrar que é mesmo global, a calculadora pode ser acessada em várias línguas como inglês, francês, chinês, russo, árabe, bahasa, espanhol e, até, português!
Algumas características comuns dos cenários compatíveis com 2ºC estão resumidas no estudo “Prosperidade ao Redor do Mundo em 2050” preparado pelo grupo que implementou a ferramenta:
• A intensidade de carbono na energia elétrica em 2050 deve tender a quase zero;
• O consumo médio de combustível por km rodado deve cair pelo menos pela metade;
• 2/3 das emissões de carbono da indústria do cimento deve ser capturada e armazenada;
• Aumentar em 40 a 60% a produção agropecuária e diminuir em 10% a área ocupada.
Uma excelente iniciativa para tornar mais simples, próximo e usual o tamanho do esforço necessário para garantir o limite de 2ºC com desenvolvimento sustentável.
A seguir, assista ao vídeo do lançamento da calculadora, em Londres:

Foto: Reprodução/The Global Calculator
Publicado em  Blog do Clima / Planeta Sustentável em 20.02.2015 

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Zero em 2050


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Coube a uma iniciativa empresarial ‘colocar o elefante na sala’ em ‘alto e bom som’. Apenas 2/3  de chance de limitar o aumento da temperatura em 2ºC é muito arriscado, por isso, devemos trabalhar para zerar as emissões líquidas de carbono até 2050.
B-Team*, grupo liderado por grandes empreendedores globais como Richard Branson (Grupo Virgin), Ratan Tata (Tata Group), Guilherme Leal (Natura) e Paul Polman (Unilever) partiu do orçamento de 1 mil GtCO2e que o IPCC (sigla em inglês do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU) prevê como limite de emissões liquidas neste século (2012 a 2100) para que tenhamos 2/3 de chances de a temperatura global não subir mais de 2ºC, limite com o qual se comprometeram todas as partes da convenção do clima.
Quase todos os cenários que indicam ser possível ficarmos dentro deste limite também apontam que é necessário zerar as emissões na segunda metade deste século e que, quanto mais tarde isso acontecer, a necessidade de ter emissões negativas se antecipará. Em 2012, as emissões globais superaram as 50 GtCO2e. Isto significa que, se as emissões caírem de forma linear até zero, em 2050, o mundo terá emitido 1 mil GtCO2e.
Os líderes do B-Team consideram que as aspirações de redução das emissões em 80%, até 2050, ainda representam um risco muito alto e são pouco inspiradoras e vão direto ao ponto, sem rodeios: temos que zerar as emissões de carbono até aquele ano.
O B-Team - criado para desenvolver um Plano B (de Better Business) que sirva de alternativa para o business as usual (Plano A) -, acredita que, se o novo acordo global sobre mudanças climáticas, a ser aprovado em Paris este ano, incorporar uma meta inspiradora e clara como esta, permitirá que governos e empresas busquem inovações, processos e investimentos necessários para atingir a meta global.
Para viabilizar esta meta, o B-Team propõe, ainda, três medidas bem objetivas:
•    Acabar com os subsídios para combustíveis fósseis e realocar estes recursos para multiplicar as soluções de energia renovável;
•    Adoção da precificação de carbono por governos e empresas;
•    Governos e empresas devem garantir que os benefícios da resposta às mudanças climáticas sejam canalizados para as comunidades mais pobres e vulneráveis que sofrem, de forma desproporcional, com os efeitos das mudanças climáticas e são as menos equipadas ou preparadas para lidar com seus impactos.
Guilherme Leal, co-fundador da Natura e um dos membros do grupo fundador do B-Team, me explicou em conversa recente que o objetivo é puxar a barra de ambição ao nível mais alto possível e seguir a máxima “pensar grande, começar pequeno e mover-se depressa”. Ele afirmou que, se não estiver claro o quão longe queremos ir, não moveremos os trilhões de dólares de investimentos de infraestrutura, energia, mobilidade e produção para uma economia limpa de emissões.
O sinal do B-Team veio em boa hora, uma vez que negociadores se encontram esta semana em Genebra em mais uma derradeira sessão de trabalho para tentar definir os elementos do novo acordo global do clima que permitam, até o final de maio, a publicação da primeira versão da proposta do acordo a ser negociada até dezembro, em Paris.
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*Na imagem abaixo, as assinaturas de alguns dos líderes fundadores do B-Team: Ariana Huffington (Huffington Post), François-Henri Pinault (Kering), Jochen Zeitz (Kering, ex-Puma), Dr. Mo Ibrahim (Celtel), Paul Polman (Unilever), Dr. Ngozi Okonjo-Iweala (política e economista nigeriana, ex-Banco Mundial), Sir Richard Branson (Grupo Virgin), Guilherme Leal (Natura), Ratan Tata (Tata Motors), Strive Masilyiwa (Econet Wireless) e Muhammad Yunus (Grameen Bank).
Ainda fazem parte dessa lista: Blake Mycoskie (Toms Shoes) e Zhang Yue, além de Mary Robinson e Gro Harlem Brundtland como líderes honorárias.
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Publicado em Planeta Sustentável em 11.02.2015

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Não tem chuva, vamos de sol! – 2ª tentativa


Nas últimas semanas, o fantasma do apagão voltou a assombrar os brasileiros quando, em um pico de demanda numa tarde quente de verão, a geração teve que ser cortada para não sobrecarregar o sistema. Em outras palavras, a geração de energia no Brasil não está dando conta da demanda. Com um detalhe: o crescimento da demanda está acanhado devido a estagnação econômica.
É como uma tempestade perfeita, mas sem chuva, em pleno sol: a longa estiagem e a falta de água nas bacias do sudeste e nordeste se somam aos atrasos nas obras de geração e de transmissão de energia (segundo o TCU, devido especialmente a problemas de planejamento), também à fragilidade financeira atual dos agentes do sistema elétrico e à relutância dos órgãos reguladores em promover o racionamento e a economia de consumo.
Nos dias que se seguiram ao corte preventivo de energia, o Brasil teve de importar entre 500 e 1 mil MWh de energia da Argentina para atender os picos de demanda.
Há um ano, propus em artigo publicado em 12 de fevereiro neste blog, que o Brasil entrasse de cabeça na energia solar instalando 1 mil MWh de capacidade de geração solar distribuída para atender os períodos de pico de demanda que se deslocaram para as tardes quentes de verão.
No verão, quando mais calor se propaga, maior a demanda de refrigeração e, portanto, de energia e é ai que a energia solar entra, pois é justamente nestas condições que os painéis solares atingem o pico de sua capacidade. Ao gerarem de forma distribuída (exemplo: telhados), os painéis reduzem a necessidade de transmissão de grandes quantidades de energia para atender os picos. É como se formassem um colchão de amortecimento.
Na Alemanha e na Espanha, a energia solar chega a representar metade da geração nos momentos de pico do verão. Embora represente menos de 5% do consumo geral durante todo o ano, cumpre papel fundamental de segurança para o sistema elétrico.
A energia solar avança de forma fulminante no planeta. Entre os anos 2000 e 2014, a capacidade instalada subiu de 1 GW para pelo menos 180 GW (mais do que todo o potencial de geração elétrica do Brasil com todas as fontes juntas). Em termos de energia produzida, em 2014 e pela primeira vez, a energia solar superou 1% do total de energia elétrica gerada no mundo. Na Itália, superou 8% de toda energia produzida. No final de 2014, mais de 20 países já tinham instalado mais de 1 GW de potencial de geração solar.
No Brasil, continuamos desperdiçando esta imensa oportunidade e realizando leilões de novas termoelétricas, inclusive de carvão que, além de chegarem à maturidade depois de muitos anos e não resolverem os problemas emergentes, são fontes geradoras de grandes emissões de CO2.
O modelo regulatório para geração solar distribuída é desestimulante e trava a sua expansão (exemplo: não permite ao gerador vender sua energia para rede). Com uma revisão objetiva e cirúrgica da regulação, o Brasil poderia implantar, em 2015, pelo menos 1 GW de energia solar distribuída que nos permitira enfrentar os picos de energia que tendem a se repetir cada vez mais no verão devido ao aumento da temperatura.
A China instala, por mês, quase 2 GW e a Índia 1 GW. Não tem porque não podermos produzir 1 GW por ano!
Com a mudança de comando no Ministério de Minas e Energia e um novo governo em formação, renova-se a esperança de o Brasil acordar para a energia solar. Os primeiros sinais, contudo, não são muito alvissareiros. Em vez de estimular a geração solar o ministro anunciou que pretende estimular as empresas a ligarem seus geradores termoelétricos próprios para injetar energia na rede. Caros, sujos e concentrados. Somos mais criativos que isso.
Um exemplo das grandes oportunidades para refletir: o Greenpeace lançou campanha para colocar painéis solares em duas escolas públicas. Trata-se de um projeto piloto, mas que pode ser escalado facilmente. Com pouco menos de 200 m2 de painéis, é possível gerar cerca de 1200 KW mensais, o que pode representar até 50% do consumo de energia da escola. Existem cerca de 190 mil escolas de ensino básico no Brasil, 150 mil delas públicas (80% municipais). Se 50% das escolas públicas fossem dotadas de projeto semelhante, daria para gerar mais de 1 milhão de MW por ano. Considerando que as térmicas começaram o ano custando R$ 1 mil por MW, teríamos uma economia de, pelo menos, R$ 1 bilhão de reais, além de milhões de toneladas de CO2 que deixariam de ser emitidas.
Esse mesmo modelo pode ser incentivado em granjas (áreas enormes em geral já voltadas para a face norte), armazéns, fábricas e toda sorte de infraestrutura com grandes áreas de cobertura.
O governo que criou programas de larga escala e altamente distribuídos como Minha Casa, Minha Vida, Bolsa Família, Pronatec, entre outros, precisa abraçar esta oportunidade.
Esta e minha segunda tentativa! Torço para que não precisemos de uma terceira no próximo ano.

Publicado no Blog do Clima em Planeta Sustentável - 03.02.2015

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Leitura Obrigatória

Um esforço de quatro anos envolvendo 360 pesquisadores de universidades e centros de pesquisa brasileiros produziu o primeiro Relatório Nacional de Avaliação do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (RAN 1/PBMC). O relatório se parece muito em formato, conteúdo e método com o relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e traça um quadro das mudanças climáticas em curso no Brasil e seus impactos. E indica nossas vulnerabilidades e as necessidades de adaptação e aponta caminhos para o Brasil contribuir para a mitigação através do crescimento de baixo carbono.

O RAN — ou pelo menos o seu sumário executivo — deveria ser leitura obrigatória nas faculdades e universidades, nos escritórios de engenharia, arquitetura, construção e agronomia, nos consultórios médicos e hospitais, nos ministérios e secretarias de Energia, Planejamento, Economia, Agricultura e Meio Ambiente e por todo interessado em politicas públicas de longo prazo para o bem-estar e a sustentabilidade do país.

As mudanças climáticas afetam todas as regiões do país com implicações econômicas, sociais, ambientais, política e culturais marcantes e com consequências para a evolução de praticamente todas as profissões.

Os extremos climáticos estão desafiando séries históricas de várias décadas tanto em temperatura do ar como precipitação, ventos, períodos de seca, umidade do ar e outras dezenas de aspectos. Perguntas como onde, quando e que variedade plantar de café ou milho ou qual o nível sustentável de captação de água de um reservatório estão cada vez mais difíceis de responder com base nestas séries históricas estacionárias. Os cenários apresentados pelo RAN 1 e o IPCC mostram que precisamos considerar séries não estacionárias mesmo considerando todas as suas incertezas.

Os engenheiros, economistas, biólogos e toda sorte de profissionais têm que passar a considerar de forma sistemática os cenários de mudanças climáticas no processo de planejamento, implementação, manutenção e restauro de infraestrutura, serviços e sistemas produtivos no Brasil.

A leitura atenta destes relatórios e o aprofundamento do conhecimento das várias áreas apontadas pelos pesquisadores — como impacto das mudanças do regime de chuvas sobre produção de energia e oferta de água para agricultura e para o consumo humano — são condição fundamental para reduzir a vulnerabilidade e ampliar a resiliência do Brasil frente às mudanças do clima.

Publicado em O Globo em 28.01.2015

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

O que estamos fazendo com o clima?

2014 foi o ano mais quente desde que os registros sistemáticos começaram a ser feitos no século XIX. Os últimos anos foram de chuvas escassas na região sudeste e nordeste. O calor e a estiagem continuam e a ameaça de apagão elétrico e colapso do sistema de abastecimento de água em grandes centros urbanos, como São Paulo, é mais real do que nunca.
Neste verão de calor quase insuportável, o volume de chuvas tem sido menor do que o esperado, mas quando vem é na forma de tempestades que danificam casas e edifícios, interrompem sistemas elétricos e de comunicação e paralisam o transporte.
Frente ao estado geral de indignação, a reposta geral – seja municipal, estadual ou federal -, é muito parecida: a culpa é do clima. É a maior estiagem em décadas, são as ilhas de calor, são as chuvas de ventania fora do normal e por aí vai. Parece que todos buscam conforto numa espécie de catarse na qual seremos vítimas dos caprichos do clima.
Mas por trás dos eventos extremos do clima e da baixa resiliência das cidades e do campo para lidar com estas mudanças, estão os reflexos das nossas próprias ações. O clima está se alterando em nível global e local como resultado de nossas interferências. As emissões de gases de efeito estufa aumentam a energia armazenada na atmosfera e provocam aumento da temperatura média do planeta, mudanças nas correntes marítimas, alterações no ciclo de água e degelo e padrões das chuvas.
Nas grandes cidades, a remoção de áreas verdes e a impermeabilização do solopor concreto, asfalto e vidros espelhados provocam ilhas de calor e reduzem a permeabilidade urbana para absorver a água das chuvas, causando enchentes cada vez mais frequentes, seguidas de perdas monumentais de água que não se infiltram no solo.
desmatamento e a degradação de florestas no entorno de nascentes e cursos d´água reduz a infiltração das chuvas no solo até os lençóis freáticos e a recarga das bacias hidrográficas.
Ou seja, por traz de quase todos e cada um dos eventos climáticos sob os quais recai a culpa da falta d´água, enchentes e cortes de energia estão nossas próprias ações. Alguma dúvida de que o homem está alterando o clima? Somos ao mesmo tempo, vítimas e algozes.
As medidas paliativas urgentes são claras: economizar, ao extremo, energia e água e investir pesada e imediatamente na redução drástica de perdas de água e energia na rede entre outras.
Mas, ao mesmo tempo, é preciso investir em medidas estruturantes e urgentes como:
- reversão da impermeabilização urbana (ex. implantação maciça de tetos e áreas verdes, sistemas de captação e armazenamento de água da chuva),
- redução das emissões de gases de efeito estufa,
- aumento da segurança energética local (ex. enterramento da fiação e promoção da geração solar distribuida); e
- restauração florestal nos mananciais que abastecem os principais centros urbanos.
Tem trabalho para todo mundo e este deveria ser prioridade imediata para os setores públicos e privados e para toda a sociedade civil.

Publicado no Blog do Clima - Planeta Sustentável em 22.01.2015

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Agenda do Clima 2015


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Este é o ano-chave para a agenda do clima nas próximas décadas. Até dezembro, em Paris uma série de eventos será realizada para construir o novo acordo climático global pós-2020 que pretende nos colocar no trilho para a redução de emissões de modo a limitar o aumento médio de temperatura em 2ºC, além de reduzir avulnerabilidade e aumentar a resiliência para nos adaptarmos às alterações climáticas extremas.
Para explicar a agenda do clima de 2015 a um amigo, desenhei o esquema abaixo que, agora, compartilho com os leitores do Planeta Sustentável. Ela ilustra bem este post no qual detalho tudo que deve acontecer este ano para que cheguemos ao novo acordo na COP21, em Paris. Clique na imagem para ver melhor e vamos em frente!
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Já no início de fevereiro (de 8 a 13), o Grupo de Trabalho de Implementação daPlataforma de Durban (ADP) se reúne em Genebra, Suíça, para mais uma rodada de trabalho com vistas a fechar os elementos do primeiro rascunho da proposta do novo acordo a ser publicado e colocado para consulta até 1º. de maio.
Durante o primeiro semestre (preferencialmente até o final de março), os países devem enviar as suas propostas de INDCs (Intended Nationally Determined Contributions ou contribuições nacionalmente determinadas) para o período pós-2020. O conjunto destas contribuições é peça-chave para a construção do novo acordo e sua eficácia. A soma dos esforções dos países deveria ser suficiente para atingir os propósitos demitigação e adaptação listados acima (2ºC + adaptação).
Na Conferência das Mudanças Climáticas (Climate Change Conference – CCC), que será realizada em Bonn, na Alemanha (de 1 a 11 de junho), começam as negociações do acordo já com o texto-base na mesa. Estima-se que serão necessárias pelo menos mais uma ou duas rodadas de negociação antes da COP21 para que seja possível aprovar o novo acordo em Paris (a COP21 acontecerá entre 30/11 e 11/12).
Até 1º. de novembro, o secretariado da convenção deve publicar relatório-síntese com todas as INDCs apresentadas e, possivelmente, com algum nível de análise do efeito agregado do conjunto de propostas tanto em mitigação, como financiamento e adaptação.
No Brasil, o processo de consulta sobre as INDCs deve ser reaberto segundo indicou a Ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, durante a COP 20 em Lima e reforçou em recente entrevista ao jornalista André Trigueiro. A proposta brasileira de INDC deve ser finalizada ainda no primeiro semestre. No segundo, os esforços vão se concentrar na definição da posição brasileira para a negociação do novo acordo na COP de Paris.
Dois outros momentos marcantes do ano devem ser:
- a publicação do 3º Inventário Nacional de Emissões de Gases de Efeito Estufa(que encerrou recentemente o período de consulta pública), ainda no primeiro trimestre; e
- até outubro, o início da aprovação de projetos e desembolsos do Fundo Verde do Clima (Green Climate Fund), que conseguiu captar pouco mais de US$ 10 bilhões em 2014 (leia Fundo Verde do Clima, da ONU, ultrapassa meta na COP20).
Durante todo este ano, a sociedade civil deve se manter mobilizada e pronta para contribuir, influenciar, pressionar e dar suporte para que tanto as INDCs dos países sejam as mais ambiciosas possível, como para que o novo acordo climático global seja realmente um marco definidor da sustentabilidade nas próximas décadas.
Abaixo, um resumo da Agenda do Clima 2015 para facilitar a consulta:
Foto: Meiry Peruch Mezari/Creative Commons/Flickr
Publicado em Blog do Clima - Planeta Sustentável - 12.01.2015