quinta-feira, 30 de abril de 2015

Em 35 anos

Em 1980, a maioria da América Latina vivia em regime militar, a Rússia ocupava o Afeganistão, John Lennon era assassinado, o walkman com fitas cassete era o lançamento do ano, Bill Gates ainda trabalhava na criação do primeiro sistema operacional MS-DOS, o time de Martin Cooper na Motorola desenvolvia o primeiro celular para uso comercial na forma de um tijolo de mais de um quilo e a internet não existia para o público.

Os mesmos 35 anos que nos separam de 1980 nos levarão a 2050. Este olhar para o mundo em 1980 nos permite ver o quão longe podemos ambicionar de transformações nos próximos 35 anos.

Este ano, o mundo negocia o novo acordo global sobre mudanças climáticas que possam limitar o aumento da temperatura média global em dois graus. Para termos mais de dois terços de chances de atingir este objetivo, precisamos promover uma descarbonização profunda da economia, chegando a próximo de zero de emissões líquidas (emissões menos as remoções) em meados do século.

Num mundo que emite mais 50 bilhões de tCO2e (toneladas de dióxido de carbono equivalente) por ano e em que a produção e o consumo de combustíveis fósseis são amplamente predominantes e o desmatamento ainda avança sobre 13 milhões de hectares de floresta a cada ano, parece uma meta inalcançável ou muito ambiciosa, mas não é.

Se em 1980 nos dissessem que em 30 anos seríamos capazes de nos conectar com qualquer pessoa no mundo ou milhões delas de forma instantânea e quase de graça por meio de um aparelho que carregaríamos no bolso, pareceria altamente improvável. A adoção de inovações tecnológicas e sociais se acelera em cada década, o tempo entre a descoberta e a sua adoção em escala tem caído de décadas para anos e em alguns casos meses.

Nos últimos 15 anos, as geradoras de energia solar e a eólica saíram de quase zero para mais de 300 GW de capacidade instalada do planeta (mais de duas vezes a capacidade total instalada de geração elétrica no Brasil). O desmatamento na Amazônia caiu de 27 mil para cinco mil quilômetros quadrados por ano em uma década. É perfeitamente possível atingirmos metas extremamente ambiciosas e necessárias até 2050, como 100% de energias renováveis, eletrificação do transporte, zerar o desmatamento e tornar as emissões agrícolas neutras.



Esta noção das possibilidades no tempo e espaço das próximas décadas deve ser a base de conforto para que os tomadores de decisão no setor público e privado assumam o compromisso de descarbonizar a economia nas próximas três décadas, ao mesmo tempo que eliminemos a pobreza e multipliquemos o progresso social.

terça-feira, 28 de abril de 2015

Declaração da Terra

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O ano de 2015 é uma oportunidade única para um futuro sustentável no planeta e para aproveitá-la é necessário que os tomadores de decisão promovam compromissos e ações concretas para com alto nível de ambição para limitar o aquecimento global.
Esta é a mensagem central da Declaração da Terra lançada na véspera do Dia da Terra (22 de abril) por um grupo de 17 cientistas de renome internacional na área climática que se mobilizou para fazer este alerta.
O documento alinha 8 pontos essenciais (na imagem acima estão os símbolos que os representam) para que o novo acordo climático global e as associações associadas garantam a efetiva mitigação e adaptação às mudanças climáticas:
1.    Os governos devem colocar em prática seu compromisso de limitar o aquecimento global abaixo de 2°C (atualmente, caminhamos para um aumento de 4°C);
2.    O orçamento global do carbono restante – o limite do que ainda podemos emitir no futuro – deve ser bem abaixo de 1mil Gt de CO2 para termos uma chance razoável de manter os 2°C  (no ritmo atual, este limite será alcançado em menos de 25 anos);
3.    Precisamos transformar fundamentalmente a economia e adotar uma meta global para eliminar, de forma progressiva, os gases de efeito estufa (GEE) completamente, até meados deste século;
4.    A equidade é imprescindível para um acordo global de sucesso em Paris, em dezembro. Cada país deve formular uma trajetória de emissões consistente com vistas à descarbonização profunda;
5.    Temos de desencadear uma onda de inovação para o bem global e permitir o acesso universal às soluções que já temos;
6.    Precisamos de uma estratégia global para reduzir a vulnerabilidade, aumentar aresiliência e lidar com perdas e danos das comunidades impactadas pelas mudanças climáticas;
7.    Temos de salvaguardar os sumidouros de carbono e dos ecossistemas vitais, o que é tão importante para a proteção do clima como para a redução das emissões;
8.    Precisamos urgentemente ampliar a escala e as fontes de financiamento climático para os países em desenvolvimento para permitir nossa transição rápida para sociedades descarbonizadas e resilientes.
O documento alerta para o fato de que, com a atual trajetória de emissões, temos uma chance em dez (10%) de chegarmos ao final do século com aumento de 6oC natemperatura média global, o que seria um desastre. Por comparação se a chance de um avião cair fosse a mesma teríamos 10 mil quedas de avião por dia!
Os autores do documento (ver imagem no final deste post)– que incluem o brasileiroCarlos Nobre e o mexicano Mario Molina (Nobel de Química) – fazem parte da Liga da Terra, rede de organizações que trabalha para responder aos desafios dos temas de maior pressão sobre a humanidade e o planeta (saiba mais aqui).
A Declaração da Terra já recebeu o apoio de Mary Robison, comissária da ONU para Mudanças Climáticas, Peter Bakker, presidente do World Business Council for Sustainable Development (WBCSD), Winnie Byanyuma, diretora executiva da OXFAM,Eduardo Paes, prefeito do Rio de Janeiro e presidente do C40 (coalizão global de cidades pelo clima) e Desmond Tutu, bispo sul-africano e Prêmio Nobel da Paz de 1984, entre outros.
Para conhecer o documento completo, apoiar e assinar a Declaração da Terra acesse osite da iniciativa.
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Publicado em Planeta Sustentável em 28.04.2015 

sábado, 18 de abril de 2015

Os caminhos da Índia

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Estive na Índia na última semana para explorar a oportunidade de implantar, por lá, o Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG) que já funciona no Brasil e no Peru provendo informações históricas e atualizadas sobre as emissões de todos os setores e gases.
O último inventário oficial de emissões da Índia é de 2005 (publicado em 2010) e existe uma atualização do mesmo com dados de 2007 publicada em 2012.  As emissões daquele país se concentram em energia com 57,8% dos 1.727 MtCO2e emitidos em 2007 (era 47% em 1994).
As estimativas mais recentes produzidas pelo EDGAR e pelo WRI indicam que as emissões na Índia estavam entre 2.500 e 2.800 MtCO2e em 2010. Com a segunda maior população do planeta (1,2 bilhões de pessoas), as emissões per capita ainda estão entre as mais baixas do mundo (2 tCO2e/pessoa/ano contra a média global de 7 e no Brasil de 7,5).
A Índia tem o segundo maior rebanho bovino do mundo (o Brasil ultrapassou a Índia em 2013, segundo dados a FAO), com a diferença de que lá não se come carne, e matar gado é crime. A média de idade dos animais é a mais alta, assim como as emissões de metano. No caso da mudança de uso do solo, a Índia deixou de perder cobertura florestal no final dos anos 90 (depois de chegar a 20% de seu total).
Os dados do levantamento nacional de florestas de 2013 mostram que, hoje, a Índia tem 21,5% de cobertura florestal tendo ganho mais de 5 mil km2 entre 2011 e 2013. Apesar deste aumento, o processo de degradação florestal continua, tendo reduzido a área de florestas densas e aumentado a área de florestas esparsas. Ainda assim, os sinais são de que, na última década, as mudanças de uso da terra se tornaram fator de remoção de carbono em vez de emissões.
O setor industrial de cimento e aço cresceu muito nas últimas décadas e, em 2007, já representavam mais de 15% das emissões do país (no Brasil é 7%, segundo dados do SEEG/OC).
Mas energia é mesmo o grande desafio indiano. A Índia e o 4o. maior consumidor de energia do mundo depois de China, EUA e Rússia, mas seu consumo per capita é 1/3 da média global. A IEA (Agencia Internacional de Energia) estima que mais de 3oo milhões de pessoas na Índia ainda não têm acesso à energia elétrica.
Além de conectar o equivalente a 1,5 vezes da população brasileira à energia elétrica, o país tem que superar sua forte dependência dos combustíveis fósseis. Mais de 70% dos 3,7 milhões de barris de petróleo e derivados consumidos diariamente foram importados em 2013. No caso do carvão, que ainda supre mais de 40% da demanda energética do país, cerca de 20% é importado e esta proporção está crescendo.
Desde o inicio desta década o governo indiano tem sinalizado a meta de se tornar independente do ponto de vista energético, até 2030, e o aumento da produção de combustíveis fósseis dentro do país (e fora, por aquisições) faz parte deste plano. Por outro lado, os altos índices de poluição nos grandes centros urbanos, como Deli e Calcutá, tem provocado enorme debate sobre a necessidade de se rever a direção dofuturo energético do país e os primeiros sinais começaram a surgir nos últimos anos.
O investimento em energias renováveis e mobilidade urbana sustentável é uma questão-chave para o desenvolvimento indiano, muito além do problema das emissões. É um problema de soberania e saúde.
Neste contexto, a Índia anunciou a meta mais ambiciosa de expansão de energia solar no mundo: alcançar 100 mil MW de capacidade instalada até 2022 (para efeito de comparação, toda capacidade de geração elétrica de todas as fontes no Brasil é atualmente de 135 GW). Se somados outros compromissos com geração por biomassa,eólica e hidrelétrica, as fontes renováveis podem acrescentar 250 GW ao sistema indiano, em 10 anos (a capacidade atual do sistema indiano e de 260 GW).
De outro lado, o cerco às emissões de poluentes no transporte urbano avança. Atualmente, é motivo de intenso debate, com direito a manchetes de primeira pagina, a decisão do Tribunal Nacional Ambiental (National Green Tribunal – NGT) de banir a circulação de veículos movidos à diesel da capital Deli e a pressão de governos de alguns estados para banir a circulação nos centros urbanos de qualquer veículo movido a combustíveis fósseis com mais de 15 anos.
A Índia ainda não apresentou ou sinalizou qual será seu compromisso de mitigação de emissões para o novo acordo climático a ser finalizado em Paris, no final de 2015. Como país com maior potencial para aumentar suas emissões nos próximos anos, a posição e a ambição da Índia podem mudar o curso natural da história e promover um salto de inclusão energética diretamente para fontes sustentáveis, com forte influência na viabilidade de uma nova trajetória de emissões em países em desenvolvimento.

Meio cheio, meio vazio

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Até o final de março, 34 países apresentaram suas metas de redução de emissões de gases de efeito estufa (GEE) pós-2020 como parte de sua contribuição (veja INDC no site do UNFCC) para o novo acordo climático global. Pouco mais de 15% dos países devem enviar suas contribuições até 1º de outubro, o que representa pouco menos de 30% das emissões globais atuais por incluir 28 países da comunidade europeia (com meta única em conjunto), além da Rússia, dos Estados Unidos e do México.
A meta da União Europeia é reduzir 40% das emissões até 2030 comparado com as emissões de 1990 e depois reduzir, pelo menos, 80% até 2050. No caso dos EUA, a meta é reduzir 26% a 28% até 2025, quando comparado com 2005 e, depois, ampliar para, pelo menos, 80% de redução até 2050. A Rússia se propõe a reduzir 25% a 30% até 2030 em relação a 1990 e não apresenta meta para 2050.
Como os anos base para o cálculo são diferentes (1990 ou 2050) e o ano de chegada também (2025/2030), pode ser difícil compreender o impacto dos anúncios. O gráfico abaixo mostra a trajetória linear das emissões projetadas de acordo com as metas para EUA, EU e Rússia entre 2010 e 2050.
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Como as emissões atuais da Rússia são muito inferiores as de 1990, em vez de reduzir suas emissões até 2030, o país as aumentaria em 65%. As emissões per capita aumentariam de 11tCO2e para quase 20tCO2e por habitante (a média global é 7tCO2e). Por outro lado, a Rússia tem grande estoque de florestas em crescimento que podem compensar suas emissões entre 20% a 30%, mas, ainda assim, as emissões estariam crescendo até 2030. E mais: presumindo que a Rússia assumisse a meta de 80% de redução até 2050 em relação a 1990, esse esforço resultaria numa emissão de 5,3tCO2e por habitante em 2050, ou seja, ainda muito alta.
No caso dos EUA, a meta implica trajetória compatível com uma expressiva redução entre 2010 e 2050, mas, mesmo assim, o país chegaria com uma emissão equivalente as emissões atuais do Brasil e a uma emissão per capita de 3,5tCO2e por habitante, em 2050. Considerando as dificuldades de aprovação de qualquer legislação e do acordo sobre mudanças climáticas no congresso americano – além do fato de ser um país de rápida transformação quando a proa aponta para um novo rumo –, pode-se afirmar que esta é uma meta ambiciosa.
Mas, a meta da comunidade europeia é ainda mais ambiciosa e indica que, em 2050, no agregado dos países, a emissão per capita seria de 2,4tCO2e por habitante, o que se aproxima mais da necessidade de reduzir a emissão per capita global drasticamente até 2050 (dos atuais 7 tCO2e para algo em torno de 1,5 tCO2e).
Quando observado no agregado, a situação fica mais complicada. Rússia, EUA e EU representam cerca de 14% da população global, mas perfazem cerca de 26% das emissões globais de GEE.
Considerando os níveis mais ambiciosos de suas emissões, de forma agregada, entre 2010 e 2040 eles terão emitido cerca de 30% de tudo que, segundo o IPCC, pode ser emitido entre 2012 e 2100 para termos 66% de chance de limitar o aumento da temperatura média global em 2oC.
O resumo é o seguinte: levando em conta as limitações políticas de cada país, as metas podem parecer ambiciosas, mas do ponto de vista global e climático elas são insuficientes e, de certa forma, pouco justas. Em 2050, estes países terão um bilhão de habitantes e terão consumido 30% do orçamento de carbono e, a menos que as emissões dos outros oito bilhões de habitantes do Planeta se limitem aos outros 70%, vamos estourar o orçamento proposto pelo IPCC.
Até a COP21, em Paris, quando será fechado o novo acordo global de clima, para mantermos chances razoáveis de limitar o aquecimento global em 2ºC, será necessário ampliar o grau de ambição, seja neste primeiro ciclo (2020-2030) ou com sinalizações claras para os ciclos seguintes (2030-2040).

Publicado em Planeta Sustentável - Blog do Clima 07.04.2015

quarta-feira, 25 de março de 2015

Desinvestir

As emissões de carbono para geração de energia, que representam quase dois terços das emissões globais, deram sinais de parar de crescer e, quem sabe, até ter decrescido em 2014, segundo dados preliminares divulgados pela Agência Nacional de Energia. Se confirmado, seria a primeira queda não relacionada a uma grave crise econômica (por exemplo, 2008).
O mais significativo, entretanto, é o fato de que a reversão da trajetória de crescimento se deu justamente no ano em que o preço do petróleo caiu quase 50%. Contrariando a tendência histórica, a queda do valor do petróleo foi acompanhada de forte crescimento dos investimentos em energia renovável, que bateu a casa dos US$ 300 bilhões em 2014.
Na última década, os pesados investimentos na indústria do petróleo foram lastreados em três premissas: a alta demanda dos mercados emergentes, mantendo os preços acima de US$ 100 o barril; estoque de reservas viáveis em contínua expansão; e manutenção de subsídios anuais na casa das centenas de bilhões de dólares.
Estas premissas estão sendo corroídas e muitos se perguntam se não estaríamos vivendo uma bolha de petróleo.
Considerando apenas o petróleo, se todas as reservas registradas fossem utilizadas (queimadas), gerariam quase três vezes mais que o limite de emissões que assegurem chances pelo menos razoáveis de restringir o aumento da temperatura global em dois graus.
Os fortes investimentos na energia renovável na última década (em parte impulsionados pelo alto preço do petróleo por um período relativamente longo) provocaram o barateamento das fontes solar e eólica, aumentando de forma exponencial sua penetração e gerando novos investimentos para resolver limitações de grid, armazenamento e outros.
No mesmo compasso, os veículos elétricos se tornaram uma realidade viável. A Tesla, a maior fabricante de carros elétricos, produz 40 mil veículos por ano e já vale na bolsa o mesmo que gigantes como a Renault, que produz quase três milhões de carros por ano.
Gestores de fundos de investimento começam a juntar as peças e, por pressão dos investidores, aversão a risco ou senso de oportunidade, ensaiam um movimento de desinvestimento na indústria do petróleo
Os recentes episódios de pressão dos estudantes contra os gestores do fundo fiduciário de US$ 37 bilhões da Universidade de Harvard e de uma coalização de ONGs sobre a Fundação Bill & Melinda Gates (a maior do mundo) para retirar investimentos na indústria do petróleo e carvão são as primeiras gotas de um grande dreno que pode se precipitar a qualquer momento.

Será o ponto de inflexão?



Agência Internacional de Energia informou dados preliminares que indicam estabilidade ou até leve redução das emissões de CO2 no setor de energia, a principal e mais resiliente fonte de emissões de gases de efeito estufa do planeta.
Se confirmada, a emissão de 32,3 GtCO2 em 2014 seria a primeira queda dissociada de forte recessão econômica (como em 2008, por exemplo). Em 2014 a economia global cresceu 3%. Houve queda das emissões na Europa, Estados Unidos e China, os três principais emissores mundiais.
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Mas seria este um ponto de inflexão? Teríamos chegado ao tão esperado pico das emissões de gases de efeito estufa e o inicio de uma nova era com emissões declinantes nos próximos anos?
Ainda é cedo para estas conclusões por se tratar de números preliminares e limitados à energia, mas alguns elementos coincidentes – como esta redução de emissões – mostram que este ponto de inflexão, se já não está acontecendo, deverá acontecer muito em breve.
O preço do petróleo caiu pela metade ao longo de 2014, o que em outros tempos significaria redução de investimentos em energias renováveis. Mas,desta vez foi acompanhado por um expressivo crescimento nos investimentos em renováveis, que ultrapassou US$ 300 bilhões em 2014.
Nos Estados Unidos, além do óleo, o gás de xisto compete com carvão mineral e petróleo com menos emissões relativas. A capacidade instalada de geração de energia elétrica em novos empreendimentos de energia elétrica de fonte renovável suplantou as novas instalações de termoelétricas.
A nova regulação do EPA para termoelétricas está provocando o descomissionamento de milhares de MW de geração, ao mesmo tempo que os incentivos a energias renováveis estão suplantando, com folga, as termoelétricas que saem do sistema. Em 2015, o fenômeno deve se repetir pelas projeções da EPA.
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Na China, houve crescimento do PIB próximo a 7% mas, com inédita queda de emissões em 1%. A capacidade instalada de energias renováveis cresceu fortemente e houve redução do consumo de carvão mineral, motivada principalmente pelas recentes iniciativas de regulação para redução de emissão de poluentes locais nas grandes cidades do país.
Na União Europeia, o consumo de carvão mineral – que vinha num período de crescimento entre 2009 e 2012 – voltou a cair em 2013 e 2014, empurrado pelo processo de eliminação gradual dos subsídios para combustíveis fósseis com vistas a zerar subsídios em 2020.
Em 2014, durante a Cúpula de Clima, em setembro em NY, fundos de investimento e fundos de pensão, juntamente com o setor industrial e seguradoras, firmaram compromissos de redução de investimentos relacionados a combustíveis e aumentaram, significativamente, os investimentos em indústrias de baixo carbono.
Os desinvestimentos em companhias reféns de combustíveis fósseis começaram a ganhar escala. As desistências de construção de novas termoelétricas já supera o numero de termoelétricas que estão sendo construídas sendo o relatório Coalswam 2015.
Com estes sinais, não será surpresa se, em 2015, as emissões não crescerem, mas recuarem. Uma surpresa boa para todos, pois aumenta as chances de conseguirmos limitar as emissões ao orçamento de 1 mil GtCO2 de 2012 a 2099.

segunda-feira, 16 de março de 2015

Metas nacionais para novo acordo climático começam a ser registradas

Um dos pontos fundamentais para o novo acordo global de clima a ser fechado até dezembro na Conferencia das Partes da Convenção Clima em Paris (COP21) são as contribuições nacionais - INDC – intended nationally determined contributions -  que somadas darão o tom de ambição de novo acordo.
Funciona assim:
1. Cada país que faz parte da convenção de clima deve submeter até 1 de outubro deste ano – e, preferencialmente no primeiro semestre -, o seu compromisso nacional para contribuir para redução global das emissões de gases de efeito estufa compatível com o objetivo de limitar até 2ºC ou médio da temperatura global.  Idealmente, as contribuições devem conter metas quantificáveis com relação as emissões e com parâmetros que permitam tornar comparáveis as diferentes contribuições (ex. período de referência, unidade de medida etc);
2. A partir do conjunto das contribuições o secretariado da UNFCCC vai produzir, até novembro, análise do agregado das contribuições, o que permitirá entender o impacto agregado dos compromissos (ex. quando seria a emissão global no ano x de se todas as contribuições forem efetivadas).
A decisão da COP20, realizada em Lima em 2014, estimulou os países na condição de fazê-lo a apresentarem suas contribuições até o final do primeiro trimestre (março 2015) e, assim, na última semana, as duas primeiras INDCs foram submetidas ao UNFCCC: Suíça e União Europeia.
INDC da Suíça inclui uma meta de dois elementos:
- (i) reduzir em 50% as emissões em 2030 quando comparadas as emissões de 1990 (53 mi tCO2e) e
- (ii) reduzir em 35% a emissão média anual no período 2021-2030, em comparação com os níveis de 1990.
Para cumprir sua meta, a Suíça pretende utilizar créditos compensatórios de carbono de outros países que também estejam no regime de metas, ou seja, países que superem seus compromissos de redução e possam ter créditos de carbono decorrentes na forma de CDM ou outro mecanismo que venha a existir no novo acordo.
A Suíça indica, também, em seu INDC a visão de longo prazo para reduzir as emissões per capita do país para 1 a 1,5 tCOe por habitante/ano  (a média mundial hoje é de 7t hab/ano).
INDC da União Europeia (28 países) é bastante importante pois o conjunto representa cerca de 8% das emissões globais (4,2 GtCO2e em 2012), ficando atrás apenas de Estados Unidos e China entre os maiores emissores.
A INDC da EU aponta meta de redução de 40% da emissões em 2030 quando comparada com 1990 e indica emissão per capta caindo das atuais 9 tCO2e/hab/ano para 6 tCO2e, em 2030. A INDC apresenta a visão de longo prazo da EU de reduzir as emissões entre 80 e 95%, em 2050, o que significa emissão per capta de 0,6 a 2,5 tCO2e/hab/ano.
Se a trajetória de redução for linear, a UA emitiria entre 2012 e 2050 cerca de 100 a 110 GtCO2e ou 10% do orçamento global de 1 mil GtCO2e entre 2012 e 2100, que o IPCC indica como necessários para termos acima de 60% de chance de limitar o aumento de temperatura em 2ºC.
Considerando que a EU possui cerca de 7% da população global e, em 2050, terá menos de 5%, o esforço de redução ainda é insuficiente e precisará ser acelerado.
As duas INDCs, até o momento apresentadas, apontam na direção correta, mas com nível de ambição ainda aquém do necessário para uma trajetória segura rumo à meta de até 2ºC.
Nos próximos meses, à medida que as INDCs forem submetidas ao UNFCC, estas contas e análises serão feitas e refeitas para se entender o grau de ambição das metas apresentadas.
Neste contexto será crucial a definição do mecanismo de revisão de metas em ciclos de 5 ou 10 anos que aparece como um dos elementos fortes do documento do novo acordo, atualmente em negociação. São estes ciclos que permitiram ajudar e ampliar o nível de ambição das contribuições dos diferentes países ao longo dos anos de forma a convergir o planeta para uma trajetória compatível com o objetivo de 2ºC.