quarta-feira, 29 de julho de 2015

Micro quer ser grande



Desde abril de 2012, quando a Aneel publicou a norma para microgeração distribuída de energia elétrica, apenas 670 microcentrais geradoras foram instaladas no Brasil, sendo 631 de painéis solares fotovoltaicos (quase todas painéis solares em telhados). A lenta adesão levou a agência a abrir consulta pública para revisar as regras, com objetivo de atingir 500 mil a 700 mil unidades de microcentrais geradoras instaladas em dez anos.

Parece muito, mas não é. Só na Alemanha, nos últimos dez anos, foram instalados mais de 1,4 milhão de unidades de microgeração solar, com potencial instalado de 38 mil MW (mais de duas vezes o potencial da Hidrelétrica de Itaipu). Isso num país que no melhor local para geração de energia solar tem potencial abaixo de Santa Catarina, nossa região de menor potencial.

Entre as principais propostas para superar os entraves para rápida adoção da microgeração identificados nas audiências públicas promovidas pela ANEEL estão a isenção do ICMS na autogeração, a autorização de transferência e/ou comercialização dos excedentes de geração, a possibilidade de condomínio ou associação de produtores e a redução drástica do tempo para conectar a microgeração na rede (a instalação demora poucos dias, mas a conexão na rede em algumas distribuidoras supera um ano).

A adoção da microgeração em escala é uma tremenda oportunidade para o Brasil num momento de forte crise econômica, energética e política. A instalação dos painéis solares é muito rápida e não exige licenciamento e obras civis (e tão pouco empreiteiras). Entre a contratação e entrega são semanas, e não anos.

É uma enorme oportunidade de geração de trabalho e renda. Nos Estados Unidos, que instalaram 200 mil unidades em 2014, foram gerados 174 mil empregos diretos e quase 700 mil indiretos. Além disso, a formação de mão de obra é simples e rápida. Com um curso de dois dias, um eletricista é capaz de montar uma equipe de três pessoas para realizar instalações residenciais. Dependendo do sistemas de financiamento e incentivos, o retorno sobre investimento pode cair dos atuais sete para três anos.

O estimulo à implantação da microgeração deve se dar especialmente para a população mais pobre e que mais sofre com a recente alta na conta de luz. A simples inclusão das unidades microgeradoras como equipamento básico nos projetos do Minha Casa Minha Vida já traria um beneficio imediato como mostra o bem-sucedido piloto realizado em um condomínio do programa em Juazeiro (BA), onde a geração fotovoltaica, instalada com mão de obra dos moradores, cobre todas as despesas de condomínio.

Que venha logo na nova regulamentação da Aneel. É hora da microgeração se agigantar.


Publicado em O Globo em 29.07.2015

terça-feira, 30 de junho de 2015

Na direção correta, mas frustrante

Frustrante. Não tem outra forma de ler os compromissos do Brasil contidos na declaração sobre clima apresentada durante visita aos EUA.

São basicamente três compromissos apresentados: (i) buscar zerar o desmatamento ilegal em 2030 (a data não esta no documento mas foi expressa pela presidente da entrevista coletiva); (ii) reflorestar ou recuperar 12 milhões de hectares de florestas; e (iii) alcançar em 2030 entre 25 e 33% de participação de fontes renováveis (exceto hidroelétricas) na matrix energética brasileira.

Nada sobre metas de redução de emissões. Talvez porque, ao fazer as contas, o governo concluiu que estas metas não garantem redução de emissões em 2030.

De fato, zerar o desmatamento ilegal é o mesmo que dizer só nos comprometemos a garantir o cumprimento da lei em 2030. Além disso, uma parte do desmatamento é legal, em especial no Cerrado, onde temos atualmente a maior área anual de desmatamento.

No caso do reflorestamento ou recuperação de florestas, o compromisso é menor do que a própria estimativa do governo quanto ao que precisa ser recuperado para cumprimento do código florestal (números variam de 19 a 24 milhões de hectares).

A soma dos dois compromissos fica muito abaixo da meta de zerar a perda de cobertura florestal até 2015 prevista no Plano Nacional de Mudanças Climáticas de 2008.

No caso de energia, a impressão é de que tem algum erro no texto. Historicamente, a participação de energias renováveis que não hidroelétrica sempre estivaram acima da faixa proposta para 2030 como pode ser ver no gráfico abaixo com dados de produção de energia primária do Brasil publicadas no Balanço Energético Nacional. De fato só ficou abaixo de 33% justamente no atual governo. Ou seja, a meta a ser atingida em 2030 seria abaixo da performance histórica.



Nas atividades de cooperação tem algumas coisas interessantes como desenvolver silvicultura de espécies nativas entre outros tópicos. Mas são ações que perdem relevância quando avaliadas no contexto das metas apresentadas.

Enfim, agora é torcer para que este tenha sido apenas um ensaio do que poderá e deverá será  INDC brasileira. E quem sabe até a sua publicação nível de ambição aumente bastante.

O Observatório do Clima na semana passada apresentou uma proposta completa e viável de INDC brasileira com um nível de ambição muito mais alto e poderia servir de inspiração para o governo brasileiro.


quinta-feira, 25 de junho de 2015

Coalizão improvável

O que têm em comum o Greenpeace e a Sociedade Rural Brasileira ou a SOS Mata Atlântica e a Associação Brasileira do Agronegócio?

Esta semana foi lançada a Coalizão Brasil Clima, Floresta e Agricultura que nasceu de uma improvável encontro às vésperas do Natal de 2014 que reuniu em um hotel em São Paulo representantes de entidades empresariais nos setores agrícola e florestal, produtores rurais, ambientalistas, ONGs e lideranças brasileiras do terceiro setor com o propósito de buscar uma agenda comum para promover a sustentabilidade no setor rural com saldo positivo para o mitigação e adaptação as mudanças do clima.

O setor rural é,  por um  lado, o maior contribuinte para as emissões brasileiras de gases de efeito estufa, respondendo por quase dois terços das emissões do país por conta do desmatamento, pecuária e uso excessivo de fertilizantes de fontes fósseis. Por outro lado é o setor com as maiores oportunidades de reduzir emissões e gerar massivas quantidades de captura de CO2 a partir da redução do desmatamento, manejo integrado das pastagens e reflorestamento tanto de áreas de preservação permanente como de produção.

Estudos recentes do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas mostram que a agropecuária brasileira pode sofrer tremendo impacto com aumentos da temperatura global acima de 2oC especialmente pelas alterações nos padrões de chuva. As pesquisas também apontam que as florestas são essenciais para manter o regime hídrico e conter estas mudanças do clima ou pelo menos nos ajudar a adaptar a elas.

A economia do setor rural – agricultura, pecuária e produção florestal – é única que tem  conseguido avançar nos tempos difíceis que vivemos. O seu crescimento saudável e sustentável é do mais alto interesse para o Brasil e o mundo, dada a importância do país para produção global de alimentos, biocombustíveis e fibras.

Depois de seis longos meses de intensas negociações e dezenas de reuniões, o grupo estabeleceu uma visão comum orientada para promover uma economia rural forte,  competitiva e sustentável. As mais de 100 instituições signatárias se comprometem em lutar pelo desmatamento zero, a completa implementação do código florestal, a restauração das áreas degradadas e a implementação e valorização das práticas da agricultura de baixo carbono com vistas a possibilitar o Brasil zerar suas emissões líquidas de gases de efeito estufa o mais cedo possível neste século.

Um conjunto de dezessete propostas concretas foram colocadas na mesa e servirão de base para o trabalho da Coalizão nos próximos meses e anos. 


Que tenha vida longa esta coalização tão improvável.

Publicado em O GLOBO em 24.06.2015

quarta-feira, 27 de maio de 2015

O maior subsídio do mundo

O número é indecente: US$ 5,3 trilhões, isso mesmo, trilhões, de subsídios diretos e indiretos aos combustíveis fósseis no planeta por ano. Isso equivale a mais de 6% do PIB global e a mais do que todos os gastos de saúde em todo o planeta.
O cálculo não é de uma ONG radical, ou de um grupo de militantes antifósseis; longe disso, os dados são de um estudo publicado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e se baseiam na diferença entre os valores pagos pelos consumidores e os custos reais (true cost) dos combustíveis fósseis. Para chegar aos custos reais, os técnicos avaliaram os custos de suprimento e os danos que o consumo da energia causa às pessoas e ao meio ambiente.
Os subsídios diretos (valor do combustível abaixo do mercado internacional) somaram US$ 333 bilhões; os impactos das emissões de gases de efeito estufa e consequente efeito sobre aquecimento global, outros U$ 1,3 trilhão; e a poluição local nas cidades, a maior contribuição, US$ 2,7 trilhões.

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Somente os subsídios diretos superam todo o investimento recorde em energias renováveis em 2015, que foi de US$ 315 bilhões, segundo dados da Agencia Internacional de Energia.
Os EUA e a China representam mais da metade dos subsídios, seguidos da Rússia, União Europeia, Índia e do Japão.
Segundo estudo, os subsídios também são ineficientes e injustos, uma vez que os diretos em geral são capturados pelos mais ricos e os impactos recaem em especial sobre os mais pobres.
Na primeira vez em que o estudo foi realizado em 2011, a estimativa era de US$ 2 trilhões de subsídios. Uma avaliação mais acurada dos impactos econômicos da queima de combustíveis fósseis sobre a saúde humana foi o principal fator de mudança. Por exemplo, a Organização Mundial de Saúde estima que, anualmente, apenas na China, um milhão de pessoas tem morte prematura em consequência da poluição gerada pela queima de carvão e derivados de petróleo para geração de energia elétrica e transporte.
A precificação da emissão de gases poluentes e de efeito estufa, conjugada com a retirada dos subsídios diretos aos combustíveis fósseis, permite direcionar recursos preciosos para garantir acesso à energia aos mais pobres e promover as fontes renováveis de energia. Segundo o FMI, o impacto de aplicar os custos reais aos combustíveis pode chegar a 3,5% de saldo positivo para o PIB Global. E que melhor momento para fazê-lo do que o momento em que os preços do petróleo e carvão despencam no mercado internacional?
Não temos tempo a perder. O momento para eliminar esta pesada conta para a humanidade é agora. Estaremos salvando não só a pele, como o bolso.

Publicado em O Globo em 27.05.2015

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Governo recua de compromisso sobre limite de emissões de gases de efeito estufa




Na semana passada, saudamos o anúncio do Brasil, contido na declaração conjunta com a China sobre mudanças climáticas, que revelava sua “intenção de estabelecer um limite superior para suas emissões de gases de efeito estufa (GEE) em 2030”.
Este sinal sobre o grau de ambição da contribuição brasileira (INDC) era importante para o esforço global de redução de emissões a ser estabelecido no novo acordo global sobre mudanças do clima, em gestação para aprovação no final do ano, na COP21. em Paris.
Qual não foi a surpresa de todos quando, horas depois da publicação da declaração conjunta, o documento se apresentava alterado e, sem nenhuma explicação. A declaração anterior foi substituída por outra na página do Itamaraty, sem referência ao compromisso brasileiro.
Segundo fontes que participaram das negociações, a retirada foi resultado da interferência pessoal da Presidente Dilma, o que torna o fato ainda mais preocupante. Se nem um compromisso vago – com limite superior de emissões em 2030 – é aceito, o que devemos esperar da INDC brasileira? A repetição de um desvio de curva de tendência de emissões? Seria deslocar o Brasil da liderança em uma economia de baixo carbono.
O que o episódio mostra é que tem gente dentro do governo com o olhar sintonizado com as necessidades globais e que busca um maior grau protagonismo e ambição do Brasil na agenda climática, mas não parece ser os que mais recebem atenção e consideração da Presidente.
Uma pena!

terça-feira, 5 de maio de 2015

Efeito Elon Musk

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A ideia é muito simples:  uma bateria plug & play com capacidade de prover energia para uma casa ou escritório por um dia e, assim, permitir que energia solar e eólica possam estar presentes 24h por dia.
Um sistema de bateria que cumpra esta função não é novidade, mas um que seja integrado à rede elétrica, plug & play, discreto, de longa duração (garantia de 10 anos), compacto e com preço competitivo é o que faz do anúncio da Powerwall ser um marco para impulsionar os sistemas de armazenamento de energia.
Um módulo simples para uso residencial terá de 7 a 10 KWh de capacidade, o que permite manter uma casa média com todos os utensílios domésticos e equipamentos (TV, computador etc) em funcionamento normal, por quase um dia inteiro. O custo deverá ser de U$ 3 mil a US$ 3500 e, como tem garantia de 10 anos, significa menos de US$ 1 por dia. E este preço só tende a cair conforme a produção ganhe escala.
Com base na mesma tecnologia, a Tesla produzirá também módulos de 100 Kwh que se assemelham ao tamanho de um refrigerador pequeno. Eles também podem ser combinados em série multiplicando-se de forma quase ilimitada. Com dois mil módulos, que ocupariam uma área de dois mil m2 (ou uma fração de um quarteirão), seria possível armazenar energia solar para manter uma cidade de 150 mil habitantes.
Os módulos de armazenamento serão produzidos numa gigantesca fábrica no estado de Nevada que será a maior fábrica de baterias do mundo e será toda abastecida com energia solar e eólica.
O Powerwall está para a energia solar como o Iphone esteve, em 2006, para o setor de telefonia e internet móvel. Abrirá uma avenida de possibilidades.
Já é possível identificar algo que poderíamos chamar de efeito Elon Musk. Este empreendedor sul-africano de 43 anos tem se aventurado com extremo sucesso em áreas tradicionalmente muito conservadoras como transporte espacial (SpaceX), energia (SolarCity) e automóveis (Tesla), a partir de uma visão extremamente arrojada e ambiciosa de como um mundo melhor pode e deve ser construído.
O início da apresentação do PowerWall, na semana passada, foi bastante marcante: a imagem de uma termoelétrica com muita poluição mostrou a situação atual. Eis a justificativa para criar um sistema de baterias é tornar viável a utilização de energia solar e eólica 24hs por dia e viabilizar o fim da era dos combustíveis fósseis.
Elon mostrou que a ambição de escala é viável – “com dois bilhões de módulos de 100 Kw somos capazes de manter a energia solar constante para todo o consumo do planeta. Parece muito? Temos dois bilhões de veículos automotores rodando no planeta e renovamos a frota a cada 20 anos, porque não podemos produzir 2 bilhões de baterias com este propósito?”.
A gigafábrica da Tesla, em construção em Nevada, pode produzir algumas centenas de milhares de módulos de 100 Kw/ano, ou seja, seria necessário algumas dezenas de fábricas como esta para um desafio deste tamanho. E, por isso, Elon indicou que a gigafábrica também se transformará em um produto de forma que possa ser reproduzida em outros cantos do planeta. Para completar, reafirmou o compromisso de manter todas as patentes da Tesla abertas para que possam ser utilizadas, inclusive por concorrentes.
Nos próximos anos, veremos pipocar dezenas de inciativas que vão acelerar as inovações no setor de armazenamento de energia e no preço destes equipamentos, da mesma forma que haverá uma corrida na indústria de equipamentos para produzir equipamentos muito mais eficientes.
Há dez anos, quando foi lançado, o Iphone parecia um produto destinado à elite. Hoje, os smartphones são onipresentes e massificaram o acesso à internet móvel. Em dez anos, é bem possível que ter um sistema de armazenamento de energia nas casas, empresas e cidades, será tão comum quanto é hoje um smartphone.
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Fotos: Divulgação