quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Parou de Pé


Era madrugada do dia 21 de dezembro de 2015 quando a contagem regressiva anunciava na Flórida a partida eminente do foguete Falcon 9 da empresa SpaceX para mais uma missão: lançar 11 satélites na órbita terrestre.

O feito por si só já era digno de registro: uma jovem empresa privada realizar uma missão para lançamento de tantos satélites. Seria apenas mais um lançamento de satélites se não fosse o que se passou 9 minutos e 45 segundos após a partida: enquanto o foguete impulsionado pelo estágio 2 lançava os satélites, o estágio 1 (a maior parte do foguete) pousava na vertical no Cabo Canaveral na Flórida bem no alvo desenhado na forma de x no chão.

Menos de 30 dias antes o foguete New Shepard de outra empresa - a Blue Origen - também havia feito um pouso vertical, mas esse era muito menor e não fazia uma missão, apenas um teste tendo subindo a 100km e depois retornado à Terra. Ainda sim, um feito inédito e fantástico.

As duas empresas, SpaceX e Blue Origen,  têm em comum a juventude – menos de uma década de vida – e o fato de serem fundadas por empreendedores do Vale do Silício sem nenhuma experiência anterior em indústria espacial: Elon Musk, sul-africano que ficou milionário com a criação do PayPall, o primeiro sistema global de pagamentos pela internet, e que investiu na criação da SpaceX; e Jeff Bezzos, fundador da Amazon e que criou a Blue Origin.

Interessados em realmente ampliar os horizontes da exploração espacial chegando, quem sabe, até Marte, Elon e Jeff por caminhos distintos concluíram que era necessário reinventar o modo tradicional de se lançar ao espaço, no qual o veículo é utilizado apenas uma vez. Viabilizando a reutilização dos foguetes, os custos da viagem espacial cairão a centésimos dos custos atuais. Isso permite, por exemplo, que grandes constelações de satélites com rápida atualização (ou upgrade) passem a ser viáveis.

Mas a ideia de pousar um foguete na vertical parecia absurda e utópica. O astronauta Neil Armstrong, primeiro homem a pisar na lua, afirmou poucos anos atrás, em testemunho no Congresso Americano, não ser possível tal manobra. Realmente com o olhar da tecnologia reinante do século passado, pousar um foguete com controles manuais seria muito pouco provável. O pouso do Falcon 9 e do New Shepard foram realizados integralmente de forma autônoma ou, se preferir, usando o piloto automático.

A aterrisagem dos foguetes na vertical é o feito mais importante da indústria espacial das últimas 4 décadas. Ela mostra como as novas tecnologias estão transformando com profundidade não só a indústria e os produtos, mas a própria forma de organização. A SpaceX não é uma montadora de foguetes, de fato, fabrica praticamente todos os componentes para ampla aplicação em modelagem e em impressão 3D. Os engenheiros desenham, modelam, fabricam os foguetes no mesmo local, num processo de aprendizagem contínua de ciclos muito rápidos.

A exploração espacial é um dos campos que mais gera inovações em larga escala. Por envolver enormes riscos e custos elevadíssimos, esse tipo de atividade estava restrito aos governos e era de longuíssimo prazo de maturação. Mas, esse modelo está mudando rapidamente.

Se antes uma missão à Marte podia parecer um objetivo para daqui a 30 ou 40 anos, já se vislumbra que uma missão tripulada possa acontecer na próxima década. A nova era da exploração espacial parou de pé.

Publicado em Época Negócios em Fev2016

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

O Petróleo Virou Mico

Embalado pelo crescente preço do petróleo, a aclamada autossuficiência e a promessa de milhões de barris de produção diária para exportação, o Brasil sonhou com um fundo soberano e o financiamento da educação bancados pelo ouro negro. Inventamos um modelo único de regime de partilha, colocamos a Petrobrás em todos os empreendimentos e a endividamos além do limite razoável. Mas não havia problema: a riqueza prometida era tanta que valia a aposta. Dezenas de cidades e vários estados se tornaram petróleo-dependentes.

Para os chatos e estraga prazeres que alertavam para os riscos de colocar todos os ovos em uma única cesta, esfregavam na cara os diversos estudos que apontavam o petróleo acima de US$ 80 por décadas contra um custo de US$ 40 a 50 no Pré-Sal.

A festa durou pouco. Nos últimos 18 meses o petróleo mergulhou de pouco mais de US$ 100 por barril para cerca de US$ 30 na ultima semana. Há excesso de produção e os preços ainda podem cair mais com o retorno do Irã ao comércio internacional. 
A Petrobrás, assolada também pela corrupção, é agora a empresa mais endividada do mundo e terá que se reinventar apenas para sobreviver a ponto de mais dia menos dia ter de ser capitalizada, ou seja, receber mais capital para conseguir arcar com seus compromissos. Em outras palavras, em vez de geradora de renda passará a consumidora de recursos uma vez que, como estatal, a capitalização será paga pelos nossos impostos.

Ao contrário de outros momentos da história, a queda do preço do petróleo não está se traduzindo em aumento da demanda ou provocando queda dos investimentos em energias renováveis. De fato, muitos investidores começam a abandonar a indústria petroleira para investir em energias renováveis modernas, que no contexto de mudanças climáticas tendem a avançar de forma cada vez mais acelerada.

O Petróleo foi a principal fonte de energia do século XX, ainda é muito importante, mas tende a se tornar marginal até meados do século. Contaremos então para nossas crianças que décadas atrás extraíamos um líquido negro das profundezas da terra, transportávamos em navios para ser refinado em gigantescas fábricas e depois distribuído na forma de um líquido amarelo até chegar aos locais de abastecimento dos motores e então gerar energia. Tão histórico como contar hoje sobre os moinhos e fábricas movidos a cavalo.


O Petróleo está mais para mico do que para o propalado passaporte para o futuro. O Brasil precisa virar logo esta página e focar nas energias renováveis, este sim seu grande potencial de presente e futuro.

Publicado em O Globo em 27.01.2016

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

De consumidor a gerador de energia em 1 dia

Em outubro passado me tornei gerador de energia solar. Em apenas 1 dia o sistema foi instalado e de consumidor passei a gerador a energia.

O filminho abaixo mostra o processo. Rápido, limpo, seguro e super gratificante.

Impossible não imaginar que instalações como esta sejam algo trivial e padrão nos próximos anos.


quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Começou a Mudança

2015 foi o ano mais quente já registrado no planeta, com a temperatura media ultrapassando 1oC acima da media do período pré-industrial, coincidindo com o aumento da concentração de carbono na atmosfera ultrapassando pela primeira vez os 400 ppm (partes por milhão) e um forte fenômeno El Nino.

Sob esta forte pressão foi aprovado em Paris o novo Acordo Climático global com instrumentos suficientes para, nos próximos anos, colocar o mundo numa rota de desenvolvimento que permita limitarmos o aquecimento global – e as tragédias derivadas dele – bem abaixo de 2oC e se possível 1,5oC. Para que isso seja possível teremos promover um completo phase-out dos combustíveis fósseis até meados do século, além de outras ações como zerar o desmatamento.

Os compromissos voluntários assumidos pelos países durante a preparação do novo acordo são completamente insuficientes para atingir este objetivo, mas o sistema de revisão quinquenal das metas começando em 2020 abre a oportunidade de ampliar os compromissos na intensidade necessária.

Sem tempo para esperar, o mundo real se movimenta mais rápido. O preço do petróleo atingiu seu valor mais baixo em dez anos, o preço do barril caiu de mais de US$ 100 em meados de 2014 para para os atuais US$ 36 e ao invés de atrair investimentos e reduzir a atratividade de energias renováveis, aconteceu o inverso. Começou um processo de desinvestimento no setor. Vários fundos de investimento anunciaram em 2105 políticas de eliminação programada da industria de combustíveis fósseis.

O investimento em energia renováveis modernas (ex. solar, eólica) deve superar US$ 300 bi, quase o dobro de 5 anos atrás. O aumento de capacidade instalada de solar e eólica deve superar a marca de 100 GW instalados em um ano, ou quase a capacidade instalada de geração hidroelétrica no Brasil.  A energia solar deve superar em um ano todas as outras fontes em ampliação da capacidade instalada para geração de energia elétrica.

Baterias romperam a barreira dos US$ 300 por kWh, metade do valor de cinco anos atrás. A viabilidade dos veículos elétricos já é real em vários segmentos (na Inglaterra os carros elétricos representaram quase 5% da venda de veículos novos em 2015) e especialistas apontam que ao chegar em US$ 150 por kWh as baterias ficam competitivas para utilização em larga escala, não só para automóveis e ônibus, mas também para utilização em prédios e residências.

Lembraremos de 2015 como o ano em que a mudança começou a transbordar de vez.

Publicado em O GLOBO - 30.12.2015

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

O Acordo de Paris passou pelo WhatsApp

Eram quatro horas da tarde de sábado em Paris, horário marcado para começar a plenária que sacramentaria o Acordo de Paris, o mais significativo passo para sustentabilidade no planeta desde as convenções da Rio92. Com todos os ministros e chefes de delegação de mais de 180 países já no plenário o presidente da COP ainda não estava presente e o inicio sessão começa a atrasar.  Como todas as plenárias nas ultimas duas semanas haviam começado na hora marcada o atraso chamou a atenção.

Imediatamente todos em nosso entorno começam a operar seus celulares e mobilizam seus grupos no WhatApp e em menos de dois minutos estava formado o consenso, os EUA haviam encontrado um problema com o uso da expressão "shall" no lugar de "should" numa determinada passagem do texto e pedia a correção mas a Nicaragua não concordava com a correção. Mais alguns minutos e o texto onde havia o problema é circulado pelo aplicativo entre as diferentes delegações e para representantes de ONGs e empresas para medir a temperatura. Em pouco mais de cinco minutos de consultas o Presidente da COP entra no Plenário e da inicio a sessão e o Acordo de Paris é aprovado por aclamação.

Este episódio da bem a dimensão da importância que as mídias sociais tomaram em nossa sociedade com destaque mais recente para  o whatsApp. Se na COP15 em Copenhagen víamos surgir o Twitter como ferramenta que permitia o publico em geral se informar sobre o que acontecia nas negociações na COP21 vimos um aplicativo permitir que milhares de pessoas participassem ativamente da construção do novo acordo interagindo com negociadores, especialistas, imprensa e os diferentes grupos de interesse.

Aplicativos como o WhatsApp vão muito além da mera troca despretensiosa de mensagens e fotos entre amigos, eles são instrumentos importantes de trabalho e interação para milhões de pessoas. Por isso é tão difícil de entender como uma decisão monocrática de um juiz pode penalizar milhões de pessoas que usam o aplicativo por conta do interesse de uma parte em um processo. Se pretende penalizar a empresa que mantém o aplicativo que o faça com multa ou outra medida de impacto específico na empresa, e não em toda massa de usuários. Se esta medida tivesse sido tomada na semana passada teria colocado em risco o acordo em Paris dada a importância que os brasileiros tiveram na formatação do acordo.

Mas que algumas horas sem o pin do aplicativo é bom... ah.. isso é :)

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Momento decisivo na agenda de cooperação global

Há momentos críticos na história que apenas o esforço concentrado de toda comunidade global torna possível suplantar os desafios. No enfrentamento da gripe espanhola ou da peste negra, no controle de armas nucleares ou na reconstrução pós 2.a Guerra Mundial, foi preciso que do caos surgisse um esforço concentrado para tornar consenso um objetivo comum e superar o momento.

O que vimos em Paris ontem foi o mo- mento decisivo de construção de uma nova era na cooperação global. A partir dos compromissos voluntários de mais de 180 países em reduzir as emissões de gases de efeito estufa, alinhou-se um acordo para garantir que o aumento da temperatura global seja refreado abaixo de 2°C e se possível abaixo de 1,5°C.

Reconhecendo que os compromissos apresentados são amplamente insufi- cientes para garantir esse limite, os países se comprometeram a revisar a cada 5 anos os compromissos para torná-los mais ambiciosos. Todos tiveram de superar o interesse nacional para se unir num objetivo global. Esse era mais que objetivo no texto, era sentido em cada canto da sala, na voz embargada da tradutora, nos olhos marejados dos seguranças, na mão trêmula do presidente da Conferência.

Único também o alinhamento de governos, representantes do setor priva- do, da sociedade civil e de comunidades indígenas para apontar um novo caminhos para o desenvolvimento. A mensagem se unificou: o risco é de todos, o esforço deve ser de todos, os benefícios serão para todos.

Passamos os últimos anos tentando tirar leite de pedra com acordos incompletos, limitados e desalinhados, como o Protocolo de Kyoto. Agora temos na mesa quase uma vaca leiteira, e das boas. Mas é bom lembrar que o queijo não será produzido se não trabalharmos para isso.

Amanhã vamos começar a trabalhar para colocar o acordo em três dimensões. Agora é momento de celebrar. 

Publicado em O Estado de São Paulo em 13.12.2015