segunda-feira, 14 de março de 2016

O Hyperloop vem aí

O quinto modal de transporte será mais rápido, barato, seguro e sustentável do que os modais atuais.


Que tal ir de São Paulo ao Rio de Janeiro em metade do tempo e um terço do preço da ponte aérea? E se além disso a viagem fosse neutra em emissões de carbono e a infraestrutura pudesse ser montada em alguns meses?

Avião, barco, trem ou ônibus, nenhum dos atuais modais de transporte é capaz desta proeza, mas um novo tipo de transporte batizado de Hyperloop é o principal candidato a promover esta revolução. O loop refere-se ao modo de conexão, sempre em voltas e o hyper refere-se a possibilidade de andar a velocidades hipersônicas.

O conceito é aparentemente simples: capsulas de transporte de passageiros são aceleradas magneticamente até 1200 km/h num tubo despressurizado (quase vácuo).  A ideia foi concebida originalmente por Elon Musk e um time de engenheiros da SpaceX e Tesla que publicaram em 2013 um documento de 70 páginas explicando como o hyperloop poderia funcionar. Ao anunciar o conceito, declararam o projeto aberto para quem quisesse desenvolver.

A motivação era propor uma alternativa ao projeto do trem bala que se pretendia instalar entre São Francisco e Los Angeles (620km) a um custo de US$ 60 bilhões, com quase uma década para construção e que faria a viagem mais lenta que um avião. Quando anunciou a idéia, Elon Musk disse que era possível implementar na metade do tempo e a um décimo do custo um meio de transporte pelo menos duas vezes mais rápido e ainda fazê-lo utilizando apenas energia renovável.

Logo após o lançamento da ideia diversos grupos começaram a se organizar experimentar os conceitos e viabilizar os primeiros protótipos. Duas startups concorrem para ver quem coloca o conceito em prática mais rápido – Hyperloop TransportationTecnhnologies (HTT) uma iniciativa colaborativa envolvendo centenas de pesquisadores e engenheiros especialmente dos EUA e  Hyperloop Tech (HTech) com sede e fábrica em Los Angeles. A HTT já constrói uma pista (ou seria tubo) de teste em Quay Valley na Califórnia e a HTech faz o mesmo no deserto de Nevada, ambas devem estar em funcionamento este ano.

Uma competição promovida pela SpaceX para produzir alternativas de capsulas (ou pods como são chamadas) lançada em meados de 2015 atraiu mais de 700 propostas de diferentes universidades e 20 delas foram selecionadas para testá-las no campo de teste da HTT ainda em 2016.

No ritmo atual, não será surpresa se as primeiras aplicações comerciais do Hyperloop entrem em operação antes de 2020.

Mas o transporte de passageiros é só uma das aplicações. Talvez a maior revolução seja a aplicação desta tecnologia para o transporte de carga. Um container poderia ser enviado da China para os EUA no mesmo dia por tubos submarinos com custos substancialmente menores que o transporte marítimo. Como é um tubo fechado não sobre com intemperes ou mau tempo.


Para avançarmos no objetivo de zerar as emissões de gases de efeito estufa em meados do século é fundamental nos livrarmos da dependência de combustíveis fósseis no transporte de carga e passageiros. A eletrificação do transporte rodoviário de passageiros é uma realidade em implementação, mas o transporte aéreo e o transporte de carga que representam mais de 5% das emissões globais permanecem como um enorme desafio a ser vencido. O Hyperloop pode ser a chave para alavancar a revolução necessária no setor de transportes.

Publicado em Época Negócios na edição de março/2016

terça-feira, 1 de março de 2016

Serviço Florestal Brasileiro completa 10 anos

Em 2 de março de 2006 foi promulgada a Lei de Gestão de Florestas Públicas e com ela nascia o Serviço Florestal Brasileiro. Parece que foi ontem que ocupamos uma pequena salinha nos fundos do sexto andar do prédio do MMA na esplanada para começar a colocar em três dimensões os vários instrumentos inovadores da política florestal criados pela nova lei como o Cadastro Nacional de Florestas Publicas, as concessões florestais, o Fundo Nacional de Desenvolvimento Florestal, o Inventário Florestal Nacional e muito mais.

Hora de celebrar! mas só um pouquinho...  ainda são inúmeros os desafios pela frente!


A primeira foto com toda equipe do Serviço Florestal, incluindo LPF e CENAFLOR (2008) 



quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Inspiração para Inovar



Tradicionalmente, grande parte da inovação nos últimos séculos se deu por quatro forças: segurança e guerras, enfrentamento de grandes pestes e doenças, produção de alimentos e ganhar dinheiro. A corrida especial e o desenvolvimento das comunicações (satélites, celular e internet), por exemplo, surgiram de projetos militares, assim como os conservantes foram gerados pela necessidade de dar vida mais longa a alimentos. As vacinas o mapeamento do genoma são produtos da necessidade de enfrentamento de surtos de doenças e outros problemas de saúde.

Mas, nos últimos anos, uma nova fonte de inspiração tem direcionado as mais significativas inovações de nosso tempo: sustentabilidade e inclusão. Esta tendência é particularmente forte no mundo das startups.

Se nos anos 90 o grande motor de inovação nestas empresas era escalar uma ideia para ganhar muito dinheiro, hoje vemos centenas de iniciativas voltadas para resolver problemas reais e concretos para o planeta e para o bem-estar das pessoas em escala global.

Elon Musk, talvez o maior inovador de nosso tempo, tem como visão a necessidade de enfrentarmos a questão climática acabando com a era dos combustíveis fosseis. Para tanto, investe em viabilizar os automóveis elétricos e a geração de energia solar com as duas principais empresas do setor. Considera que temos que contar com uma alternativa planetária caso algum cataclismo impeça a vida na Terra e, para tanto, está promovendo uma revolução na indústria espacial a fim de viabilizar a colonização de marte.

Milhares de empreendedores estão trabalhando para gerar soluções para a gestão de resíduos sólidos, promover reflorestamento de áreas degradadas e a geração de energia distribuída para acesso às regiões mais remotas do planeta, entre outras centenas de iniciativas.

Este processo é acelerado por uma das grandes inovações da última década, que são as iniciativas de financiamento e produção coletiva (crowdsourcing e crowdfunding). Elas se inspiram justamente no interesse da sociedade em viabilizar inovações com propósito e, assim, criam um ambiente de retroalimentação virtuoso.

Outra inovação da última década são as maratonas de soluções de problemas em que grupos de diferentes origens se reúnem para criar recursos e aplicativos para resolver questões concretas do dia a dia das cidades, ou de um grupo de interesse especifico.

Em algumas décadas, ao olharmos para trás, perceberemos uma fase iluminada de nosso desenvolvimento, quando nos inspiramos no desejo de mudar o mundo para o bem de todos.


Publicado em O Globo – 24.02.2016

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Parou de Pé


Era madrugada do dia 21 de dezembro de 2015 quando a contagem regressiva anunciava na Flórida a partida eminente do foguete Falcon 9 da empresa SpaceX para mais uma missão: lançar 11 satélites na órbita terrestre.

O feito por si só já era digno de registro: uma jovem empresa privada realizar uma missão para lançamento de tantos satélites. Seria apenas mais um lançamento de satélites se não fosse o que se passou 9 minutos e 45 segundos após a partida: enquanto o foguete impulsionado pelo estágio 2 lançava os satélites, o estágio 1 (a maior parte do foguete) pousava na vertical no Cabo Canaveral na Flórida bem no alvo desenhado na forma de x no chão.

Menos de 30 dias antes o foguete New Shepard de outra empresa - a Blue Origen - também havia feito um pouso vertical, mas esse era muito menor e não fazia uma missão, apenas um teste tendo subindo a 100km e depois retornado à Terra. Ainda sim, um feito inédito e fantástico.

As duas empresas, SpaceX e Blue Origen,  têm em comum a juventude – menos de uma década de vida – e o fato de serem fundadas por empreendedores do Vale do Silício sem nenhuma experiência anterior em indústria espacial: Elon Musk, sul-africano que ficou milionário com a criação do PayPall, o primeiro sistema global de pagamentos pela internet, e que investiu na criação da SpaceX; e Jeff Bezzos, fundador da Amazon e que criou a Blue Origin.

Interessados em realmente ampliar os horizontes da exploração espacial chegando, quem sabe, até Marte, Elon e Jeff por caminhos distintos concluíram que era necessário reinventar o modo tradicional de se lançar ao espaço, no qual o veículo é utilizado apenas uma vez. Viabilizando a reutilização dos foguetes, os custos da viagem espacial cairão a centésimos dos custos atuais. Isso permite, por exemplo, que grandes constelações de satélites com rápida atualização (ou upgrade) passem a ser viáveis.

Mas a ideia de pousar um foguete na vertical parecia absurda e utópica. O astronauta Neil Armstrong, primeiro homem a pisar na lua, afirmou poucos anos atrás, em testemunho no Congresso Americano, não ser possível tal manobra. Realmente com o olhar da tecnologia reinante do século passado, pousar um foguete com controles manuais seria muito pouco provável. O pouso do Falcon 9 e do New Shepard foram realizados integralmente de forma autônoma ou, se preferir, usando o piloto automático.

A aterrisagem dos foguetes na vertical é o feito mais importante da indústria espacial das últimas 4 décadas. Ela mostra como as novas tecnologias estão transformando com profundidade não só a indústria e os produtos, mas a própria forma de organização. A SpaceX não é uma montadora de foguetes, de fato, fabrica praticamente todos os componentes para ampla aplicação em modelagem e em impressão 3D. Os engenheiros desenham, modelam, fabricam os foguetes no mesmo local, num processo de aprendizagem contínua de ciclos muito rápidos.

A exploração espacial é um dos campos que mais gera inovações em larga escala. Por envolver enormes riscos e custos elevadíssimos, esse tipo de atividade estava restrito aos governos e era de longuíssimo prazo de maturação. Mas, esse modelo está mudando rapidamente.

Se antes uma missão à Marte podia parecer um objetivo para daqui a 30 ou 40 anos, já se vislumbra que uma missão tripulada possa acontecer na próxima década. A nova era da exploração espacial parou de pé.

Publicado em Época Negócios em Fev2016