quarta-feira, 22 de junho de 2016

100% Renovável



As boas novas são animadoras! A pequena ilha espanhola de El Hierro, que serviu de parada para Cristovão Colombo no caminho  da América, parece continuar a indicar o caminho para o novo mundo: toda sua energia elétrica outrora originada de termoelétrica a diesel, agora provém de fontes renováveis. Turbinas eólicas trabalham por dia associadas e uma hidroelétrica em sistema fechado.  Quando há sobra de energia dos ventos, a água é bombeada de um reservatório na parte baixa da ilha para outro na parte alta e quando falta vento, a água desce gerando energia necessária para manter os dez mil habitantes da ilha.

No início de maio, Portugal passou quatro dias seguidos sendo abastecido exclusivamente por energias renováveis – solar, hidroétrica, biomassa e eólica. É a primeira vez que um país europeu consegue se abastecer por mais de um dia exclusivamente com energias renováveis. Com a chegada do verão no hemisfério norte, época em que a energia solar bate recordes de produção ano após ano, este recorde deverá ser pulverizado.

Mas estas notícias estão fadadas a se tornar em coisa do passado ou simples lugar comum nos próximos anos.

A poucos anos atrás, a grande novidade era que no pico do verão Portugal tinha atingido por alguns minutos, próximo ao meio dia, 100% de geração renovável, o que era um marco, mas visto com desconfiança, pois o desafio seria conseguir manter este perfil de geração por um período que incluísse a noite, sem a necessidade de recorrer a termoelétricas fósseis ou nucleares.

Portugal é um país pequeno, com pouco mais de 10 milhões de habitantes, mas representa um sinal de uma tendência mais ampla que se alastra pela Europa. Ainda em maio, a Alemanha, maior economia da região, atingiu pela primeira vez na história 100% de eletricidade de fontes renováveis por alguns minutos. Como suas usinas nucleares e termoelétricas a carvão não podem ser desligadas e religadas, está sobrando energia no país que em certos momentos tem preço de energia negativo.

Ainda em maio, a Inglaterra viveu seus primeiros momentos em 100% de geração elétrica sem usinas a carvão, foram alguns minutos, mas prevê-se que durante o verão poderá a chegar a horas e quem sabe dias. Na Dinamarca, a geração eólica – iniciada nos anos 70 - cresceu tanto na última década, que alguns dias em 2015 as eólicas chegaram a gerar 140% da demanda de eletricidade do país que já exporta o excedente para países como Suécia, Noruega e Alemanha. Como boa parte da produção acontece off-shore (ou seja, no oceano) o potencial de geração pode ser ampliado muitas vezes. As trocas de energia com a Noruega são particularmente interessantes pois o país tem grandes hidroelétrica e devolve energia para Dinamarca nos momentos de menos ventos.

O próximo grande desafio expansão das energias renováveis é a formação de um smart-grid continental e depois intercontinental. Então vamos a ele!

Publicado na Coluna Bússola de Época Negócios Edição de Julho 2016

Foto: Ilha El Hierro, Canárias

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Pai da Clara


Como em toda apresentação ou palestra eu estava um pouco apreensivo, claro. Mas ao entrar na sala vi que esta não seria apenas mais uma aula. Uma cadeira, sem mesa ou qualquer artefato de anteparo e a frente, em formato de u, a audiência atenta e olho no olho. Mal deu para dar boa tarde e lá veio a primeira tacada: - Pai da Clara, quando a árvore para de crescer?

Enquanto eu ainda elaborava a resposta da primeira pergunta, explicando que a maioria das árvores cresce até morrer, já veio a segunda: mas então porque a árvore morre? Como a árvore cresce? Como a árvore bebe água? Ao explicar como a árvore cresce transformando ar, luz do sol, nutrientes do solo e água em raiz, tronco, galhos e folhas fui interrompido assertivamente: Então, Pai da Clara, no deserto não tem árvore porque não chove ou não chove porque não tem árvores?

Parece trivial né? Mas tente responder sem gaguejar. Era como se me dissessem: - Cheque!  Tudo assim, sem cerimônia, nada de rodada de apresentação ou... - Só temos uma hora e muitas perguntas!

Semanas antes, a professora me ligara dizendo que estavam num projeto de aprender medidas para o qual escolheram árvores como objeto de estudo. Depois de testar vários métodos para medir a altura das árvores da praça, a Clara sugeriu:
 -Meu pai é engenheiro florestal e entende de árvores, ele podia vir ensinar a gente.

Então lá estava eu explicando grandezas sobre as árvores. Até preparei uns slides com fotos das árvores mais altas, mais velhas, mais largas, com a maior folha e por ai vai. Mas para aquelas crianças isto era só aperitivo, uma escada para entender a fundo a natureza das coisas.

Crianças de 6 a 7 anos têm hoje um nível de cognição impensável há 30 anos atrás. As sinapses que fazem são desconcertantes. Eu participo de TED talks, aulas em universidades e palestras nos mais diversos tipos de eventos com centenas de pessoas e poderia contar nos dedos os momentos em que a atenção tenha sido tão concentrada e a interação tão assertiva e direta.

Isso é muito poderoso quando converge para os temas da natureza e sustentabilidade e seu rico universo de mistérios a serem desvendados, vividos e contemplados.

Esta geração vai viver num mundo mais complexo e complicado e é nosso dever deixar-lhes como legado as bases para que possam impulsionar um mundo mais justo e sustentável.

Onde eu estiver continuarei feliz em ser apenas o pai da Clara, aquela que com sua geração deixou para os filhos um mundo melhor.

Publicado em O GLOBO, em 25.05.2016

segunda-feira, 23 de maio de 2016

A vez das biorefinarias



Chefes de estado de todo o mundo estiveram em Nova Iorque em abril para assinar o Acordo de Paris, que tem como objetivo limitar o aumento da temperatura média global abaixo de 2oC. Para cumprir esse compromisso será necessário zerar as emissões de gases de efeito estufa neste século -  algo inviável sem uma drástica redução do uso de carvão mineral e petróleo.

O desafio de superar essa dependência do petróleo vai muito além de encontrar alternativas para o uso de combustíveis fósseis como querosene, gasolina e diesel. Existem milhares de produtos baseados em derivados do óleo, como fertilizantes nitrogenados, tecidos sintéticos, plásticos, tintas, medicamentos, detergentes, ceras, entre outros. A profusão de setores dependentes desses derivados é tamanha que alguns especialistas sugerem que se hoje houvesse falta imediata de petróleo, a agricultura e a indústria farmacêutica poderiam entrar em colapso.

A busca por alternativas para substituí-los avançaram significativamente nas últimas duas décadas. Já produzimos álcool combustível e plásticos a partir da cana de açúcar, fizemos biodiesel a partir de biomassa, desenvolvemos ceras e tintas com base em resinas e pigmentos naturais e mais uma enormidade de tecnologias e produtos.

Apesar de promissora, a abordagem da substituição produto a produto não consegue gerar a escala hoje existente nas refinarias e polos petroquímicos. Por outro lado, mesmo que todos os produtos encontrassem substitutos, criando rotas alternativas de produção, restaria o desafio de amortizar o enorme capital empregado nas refinarias.

Porém, uma outra abordagem começou a ganhar força na última década:  a criação de biorrefinarias. Em essência, trata-se de refinar biomassa para que gere os derivados hoje produzidos com petróleo. Isso é possível porque o petróleo e seus derivados são hidrocarbonetos, ou seja, em essência são combinações diferentes de átomos de carbono e hidrogênio. Assim, a partir de biomassa, especialmente a lenhosa, seria possível gerar os mesmos derivados.

As primeiras experiências nesse sentido foram feitas com o tratamento dos gases oriundos da produção de carvão vegetal e com o licor negro proveniente da fabricação de celulose. Num segundo momento, foram testadas as biorrefinarias especializadas em fracionar a biomassa para obter os subprodutos. Em síntese, entra madeira ou outra fonte de biomassa de um lado e do outro saem os diversos produtos refinados.

Mas existem abordagens mais arrojadas como a que é conduzida pela empresa americana Ensyn em parceria com a brasileira Fibria. Através de uma tecnologia batizada de RTP (Rapid Thermal Processing) a madeira é liquefeita e transformada em um óleo cru com as mesmas propriedades do petróleo. A similaridade é tanta que foi possível refinar o óleo em refinarias feitas para operar com petróleo. Esta abordagem permitiria utilizar a própria infraestrutura de refinarias atuais para produzir os derivados, aproveitando o capital já investido e tornando mais fácil a aposentadoria do petróleo.


A produção florestal do planeta precisaria dobrar para dar conta de substituir o petróleo na fabricação dos derivados não combustíveis. Uma base florestal maior aumenta a captura de carbono, tornando o efeito benéfico para o clima. Ai está o caminho para transformar a indústria petroquímica na nova indústria bioquímica.

Publicado em Época Negócios na edição de Maio/2016

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Saída para frente

Em meio a uma das mais profundas crises política e econômica por que o Brasil já passou, as propostas para superá-la são baseadas em soluções do passado e pouco mobilizadoras.  

Seja governo ou oposição e mesmo boa parte dos analistas do "mercado", batem nas mesmas teclas com maior ou menor intensidade: reforma/ choque fiscal, previdenciária e política, revisão do pacto federativo, ampliação do crédito e consumo, recuperação da indústria e retomada dos investimentos (leia-se: obras).

São todos temas importantes, mas eles parecem almejam retomar as conquistas passadas.

As reformas e a revisão do pacto federativo são fonte de grande tensão e antagonismos que, dificilmente, terão solução sem que uma visão compartilhada e inspiradora de futuro coloque em perspectiva as perdas e ganhos de cada grupo de interesse.

O combate à inflação e a busca da estabilidade econômica foi a fonte de inspiração para as reformas dos anos 90, incluindo - talvez como um dos principais símbolos - a Lei de Responsabilidade Fiscal.  Na década passada, o combate à pobreza e à desigualdade foi o compromisso integrador que impulsionou a criação de um amplo conjunto de políticas de proteção e acensão social.  Ambos os períodos foram vitoriosos em mobilizar diversas forças da sociedade para dar amplo apoio às ações necessárias para evoluir rumo à visão de futuro maior.

O Brasil precisa sim recuperar as conquistas passadas, mas precisa ir além.  Afinal, estamos muito distantes do grau de desenvolvimento e qualidade de vida que desejamos e merecemos. Precisamos de uma visão compartilhada de futuro que converse com os desafios contemporâneos do mundo: a ampliação da democracia, o combate às mudanças climáticas e o desenvolvimento sustentável.

A Coalizão Brasil Clima Floresta e Agricultura é um bom exemplo de como a visão integradora pode facilitar avanços nas agendas mais espinhosas.  A Coalizão, criada no inicio de 2015, reúne mais de cem instituições entre entidades ruralistas, ambientalistas, industriais e organizações de consumidores que raramente se sentavam à mesa se não fosse para travar batalhas como a que configurou a aprovação do novo Código Florestal, a regulamentação de transgênicos ou o combate ao desmatamento.  Ainda que as organizações tenham pontos de vista muito diferentes sobre muitos temas, conseguiram articular uma visão comum de futuro: "a agricultura, pecuária e economia florestal impulsionando o Brasil para liderança global da economia sustentável e de baixo carbono, gerando prosperidade para todos."  Com base nesta visão, trabalham em uma intensa agenda propositiva para apoiar o fim do desmatamento, implementar o Código Florestal, promover metas ambiciosas para a agenda de mudanças climáticas e, ao mesmo tempo, promover a competitividade da agropecuária e indústria florestal brasileira.

É disso que precisamos agora.  Uma visão compartilhada de futuro que inspire o Brasil a dar um novo salto.

Publicado em O Globo em 27.04.2016

sábado, 23 de abril de 2016

Entrevista sobre assinatura do Acordo de Paris

No dia 22.04.2016 por ocasião do evento de assinatura do Acordo de Paris nas Nações Unidas dei um entrevista para Heródoto Barbeiro no Jornal da Record News.



Access aqui entrevista na integra.



terça-feira, 12 de abril de 2016

Elétrico, Autônomo, Conectado e Compartilhado


Fabrica de automóveis não parece combinar muito com o Vale do Silício, mas é lá que o futuro da indústria automobilística e de nosso modo de ir e vir esta sendo moldado. Em resumo o transporte especialmente no meio urbano terá quarto características marcantes: elétrico, autônomo, conectado e compartilhado.

Os primeiros veículos automotores fabricados ainda no século XIX eram elétricos, mas logo foram substituídos pelos motores a combustão. Embora nunca tenha desaparecido completamente, os veículos elétricos voltaram a ser desenvolvidos a partir dos anos 80 mas carregavam a pecha de serem pesados, lentos, com baixa autonomia, lentos para carregar e além de tudo com design sofrível.

Mas o desenvolvimento destes veículos nos últimos anos transformou os patinhos feios em verdadeiros cisnes negros. Quando lançou o seu primeiro veículo com produção em série, a TESLA, jovem empresa sediada em Palo Alto, a poucos quilómetros dos gigantes da tecnologia e internet, transformou o conceito que se tinha sobre o carro elétrico: um sedam 100% elétrico, que acelera de 0-100 km/h em em menos de 4s, autonomia de 400 km, uma rede de carregadores rápidos capaz de gerar uma autonomia de 80km em 5 minutos, um design super arrojado, espaço interno 50% maior que qualquer carro da mesma categoria além de ser o primeiro veiculo a atingir nota máxima em todos os testes de segurança. Em resumo, foi chamado por publicações especializadas como o melhor carros já produzido em todos os tempos.

Em 2012, ano de lançamento do Modelo S, primeiro a ser primeiro modelo da Tesla em escala, foram vendidos no mundo pouco menos de 200 mil veículos elétricos ou híbridos (somando todas as marcas). Em 2015 foram vendidos 540 mil e a projeção para 2016 é alcançar quase 1 milhão de veículos vendidos, o que equivale a pouco mais de 1% das vendas anuais. Na China já existem mais de 100 fábricas de carros elétricos e até 2020 estima-se que a China poderá alcançar 5% da frota rodando em carros elétricos.

Todos os carros da Tesla são conectados permanente na internet. Recebem atualizações de software e sistema operacional (que já esta na sua 7 versão) e diagnósticos remotos para manutenção. Com isso a empresa tem completo domínio sobre o comportamento dos carros o que ajuda a identificar os pontos críticos a serem aprimorados ou reinventados. Foi assim que descobriram que mais de 99% das viagens do veículos da TESLA são realizadas com cargas de bateria realizadas a noite em casa, ou seja, a demanda por infraestrutura de carregamento é muito mais especifica e estratégica como nas estradas.

O desenvolvimento de direção autônoma (conduz o carro sem a necessidade de um motorista ou com muito pouca interferência deste) esta atingindo o ponto de produto comercial em 2016. De fato, a ultima atualização de software da Tesla já disponibilizou vários atributos de direção autônoma para os veículos da empresa. Em menos de 10 anos a os veículos  direção autônoma será tão comum como hoje é o chamado “piloto automático” que limita-se a manter o carro em uma velocidade pré-determinada.

Num futuro não muito distante, você poderá escolher um veículo para utilizar num final de semana e ele virá sozinho se apresentar para te atender no período solicitado. Quando terminar de utilizar (dirigindo ou não) bastará deixa-lo em qualquer ponto que ele cuidara de retornar a sua base ou dirigir-se para outro “compromisso”. São veículos compartilhados.

Os veículos de passageiros são apenas o começo, o mesmo processo deverá acontecer com o transporte coletivo e com o transporte de cargas leves e encomendas.

Pode parecer ficção científica, mas já esta acontecendo agora. E isso é bom para o planeta e para todos nós. Antes do Iphone 10 ainda veremos a explosão dos veículos elétricos, conectados, autônomos e compartilhado.

Publicado na Revista Epoca Negócios, Abril 2016   

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Porque o governo não publica os dados do inventário de emissões de carbono

Daqui até o meio do ano, o país precisa publicar seu terceiro inventário de emissões de gases de efeito estufa, que dará a cifra oficial de nossas emissões até o ano de 2010 e também o número revisado de emissões do Brasil em 2005, ano do último levantamento do tipo disponível. Isso mesmo: a nossa conta oficial de emissões de carbono mais recente se refere a dez anos atrás.

O terceiro inventário foi finalizado ainda em 2014 e passou por consulta pública em janeiro de 2015. O documento aguarda publicação desde pelo menos agosto do ano passado.

Quem teve acesso à versão final conta que ele vai mostrar que as emissões em 2005 foram bem maiores do que sugeria o segundo inventário: saltaram de 2,2 bilhões para 2,7 bilhões de toneladas de gás carbônico equivalente (CO2e). Isso colocaria o Brasil na terceira posição entre os maiores emissores globais em 2005, atrás apenas da China e dos EUA.

A diferença, apesar de enorme, pode ser explicada por evolução na metodologia de medição das emissões e remoções de gases de efeito estufa, especialmente no que se refere a desmatamento e captura de carbono pelas florestas remanescentes.

Apesar de já contar com os dados não publicados, o governo anunciou em setembro a proposta de compromissos para o Acordo de Paris com base nos dados antigos. A meta de reduzir as emissões em 37% até 2025 e em 43% até 2030 com relação a 2005 foi calculada com base nos dados ultrapassados do segundo inventário, o que daria uma emissão de 1,2 bilhão de toneladas de CO2 em 2030.

Considerando os novos números, o governo fica com duas opções: ou revisa a meta em termos absolutos, que passaria a 1,5 bilhão de toneladas em 2030 -- ou seja, nenhuma redução em relação às emissões atuais --, ou revisa a meta proporcional, que passaria a ser de 55% de corte até 2030 em relação a 2005 em vez de 43%. E este parece ser um dos motivos pelos quais a publicação do inventário, que deveria ser um produto eminentemente técnico, virou refém de uma decisão política.

Comunicar emissões de forma ágil, atualizada e com a melhor informação científica disponível traria diversos ganhos para o Brasil. O mais imediato seria a aplicação de políticas de controle de poluição: hoje nossos inventários são olhares no retrovisor, descolados do ritmo da economia. Saber como elas evoluem ano a ano é importante para aplicar regulações e incentivos, proteger a população e gerar emprego e renda.

Outro ganho diz respeito aos nossos compromissos internacionais. Hoje o Brasil está desobrigado de revelar ao mundo quanto emite anualmente. Com a entrada em vigor do Acordo de Paris, que exigirá um mecanismo global de transparência, isso deverá mudar. Todas as nações serão obrigadas a reportar emissões e, quanto mais cedo estiverem prontas para isso, melhor.

Um terceiro ganho diz respeito ao próprio acesso a mercados de carbono e ao cumprimento das metas nacionais de corte de emissões. Hoje, por exemplo, o país não reporta quanto emite todos os anos por degradação de solos em pastagens. Cálculos feitos pelo Imaflora a partir dos dados do SEEG, o Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa do Observatório do Clima, sugerem que as emissões do setor agrícola seriam 25% maiores caso esses dados fossem computados. No entanto, esse mesmo setor tem potencial de emissões negativas – ou seja, de sequestro de carbono – caso as metas propostas de recuperação de pastagens sejam cumpridas. Por não contabilizar o quanto emite, o país não pode receber os benefícios de reduções de emissões.

Além disso, monitorar o que acontece no seu quintal é uma tradição no Brasil. Na década de 1980, fomos os pioneiros em estimar o desmatamento em florestas tropicais usando satélites. Nos anos 2000, o sistema Deter, do Inpe, permitiu que esse monitoramento ocorresse em tempo real. Na mesma década, surgiu o SAD, sistema do Imazon que ampliou a transparência do monitoramento – e foi fundamental para defender a credibilidade do sistema do Inpe contra ataques em 2008. A expressiva queda do desmatamento na Amazônia na ultima década deve muito aos sistemas de monitoramento.

Os dados do terceiro inventário são fundamentais para atualizar e balizar os esforços de monitoramento de emissões no Brasil. Sem eles praticamente todas as políticas públicas para redução de emissões perdem eficácia.

Ajustar as contas do clima é crucial para ajustar as contas com o clima. Além de evitar situações embaraçosas para o país no futuro.
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Tasso Azevedo é engenheiro florestal e coordenador do SEEG (Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa) do Observatório do Clima

Marina Piatto é agrônoma e coordenadora da Iniciativa de Clima e Agrupecuária do Imaflora

Publicado em Blog do Planeta em Epoca.com.br (06.04.2016)