quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Futuro Planejado



Planejamento não é previsão. O futuro a gente faz.

Em 1986, foi instalado na província de Shandog o primeiro projeto piloto de um gerador eólico da China. Ele foi seguido por dezenas de outros pilotos. Isso até que, em 1993, o país asiático estabeleceu o seu primeiro conjunto de políticas de incentivo e desenvolvimento tecnológico para promover esse tipo de energia e alguns anos depois, em 1997, foi definida a primeira meta. Até 2001, a capacidade instalada eólica deveria ser de 1 mil megawatts (MW) – o que representava uma das maiores do planeta para essa fonte (no inicio da década de 90, a capacidade total instalada no mundo era de 5 mil MW).

A ambiciosa marca não foi atingida em 2001. Entre outros motivos, pesou o custo pouco competitivo da tecnologia. No 10º Plano Quinquenal de Desenvolvimento (2001 a 2005) a aposta chinesa foi dobrada, com objetivo de fomentar indústria e reduzir à metade esses custos. Assim, em 2004, a meta de 1 mil MW foi alcançada e, em 2007, já havia 40 fabricantes de turbinas eólicas operando no país. Já em 2010, a China estabeleceu que atingiria 100 mil MW, em 2015, e 150 mil MW, em 2020.

Ocorre que, ao final de 2015, o país já havia batido nos 145 mil MW. Ou seja, em 2016, terá pulverizado a meta de 2020 (para dar uma ideia do que isso representa, basta dizer que a capacidade instalada de todo o parque elétrico brasileiro – incluindo todas as fontes de energia – é de 160 GW). Nessa trajetória, que é muito similar no setor de energia solar e automação industrial, a China tornou-se o maior provedor de equipamentos e tecnologia para geração eólica no planeta.

A China corre contra o tempo. Sabe que precisa ter alternativas viáveis e em grande escala para o suprimento de energias limpas e renováveis que possam substituir o intenso uso do carvão,  fonte que polui de forma assustadora cidades cada vez mais populosas e drena recursos naturais — a água, em particular.

A China, pela magnitude e pelo regime político único, é uma base complicada de comparação. Mas, ali pertinho, a Coreia do Sul é outro exemplo interessante de planejamento para o futuro. O país, que é uma democracia às vezes tão turbulenta quanto a nossa, acaba de lançar seu plano de investimento público-privado em ciência e tecnologia, voltado para o que eles acreditam ser as chaves para o desenvolvimento e o bem-estar nas próximas décadas.

Anote aí. São nove temas que equivalem a uma espécie de guia para o futuro: a inteligência artificial, os veículos elétricos e autônomos, os materiais leves, as cidades inteligentes, a realidade virtual, a gestão de poeira fina (controle de poluição de materiais particulados), os produtos de carbono, a biomedicina e a medicina de precisão.

Apenas como exemplos da estratégia, até 2020 o país quer abrigar pelo menos mil empresas de inteligência artificial, quase dez vezes mais do que tem hoje. Já os veículos autônomos devem estar circulando pelas ruas da Coréia em 2024. Ou seja, tanto a tecnologia quanto a regulamentação serão desenvolvidas e implantadas em menos de uma década. Para os produtos de carbono, a meta também é ambiciosa. A Coréia do Sul pretende liderar o desenvolvimento de sistemas de remoção do carbono da atmosfera, uma fonte do aquecimento global, para transformá-lo em algo útil e economicamente interessante para sociedade.


Esses casos nos ensinam que, mais importante do que tentar prever o futuro, é trabalhar para torná-lo uma realidade. Isso além de transformar essa busca em um processo de desenvolvimento sustentável. Esse é o real motor da inovação social, econômica e tecnológica.

Publicado na revista Época Negócios (Set/2016)

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Ratificação



No dia 12 de setembro será sancionada no Brasil a ratificação do Acordo de Paris, o mais abrangente acordo sobre clima desde que a Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas foi aprovada, em 1992. EUA e China, os dois maiores emissores de gases de efeito estufa, e mais duas dezenas de países anunciaram a intenção de ratificar ou confirmar o acordo ainda em setembro. 

Nesta toada, o Acordo de Paris poderá atingir o limite mínimo de 55 países, representando pelo menos 55% das emissões globais, para entrar em vigor em menos de um ano, após o encontro em dezembro de 2015 em Paris.

Em processos oficiais da diplomacia, é uma velocidade estonteante. Para efeito de comparação, o Protocolo de Kyoto — o primeiro instrumento criado no guarda-chuva da convenção de clima e que gerou a obrigação de redução das emissões para os países desenvolvidos — demorou oito anos para entrar em vigor. Foi aprovado em 1997 e entrou em vigor apenas em 2007, quando a Rússia finalmente ratificou o protocolo, permitindo atingir o mínimo de 55% das emissões.

Mesmo no caso do Brasil, que não tinha obrigações vinculadas ao Protocolo, e sim potenciais benefícios com os créditos do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), a ratificação aconteceu apenas em abril de 2002, cinco anos após a aprovação.

O Acordo de Paris é muito mais ambicioso que os instrumentos anteriores, apontando como meta limitar o aumento de temperatura global bem abaixo de 2 º C, de preferência próximo a 1,5º C. Mesmo assim, ou talvez justamente por isso, no Brasil conta com amplo apoio em universidades, sociedade civil, empresas e movimentos sociais, o que acabou dando o tom da tramitação do projeto de ratificação tanto na Câmara quanto no Senado em tempo recorde em meio ao turbulento processo de impeachment.

Neste contexto, nada mais adequado que a inclusão da agenda de clima e floresta na abertura da Olimpíada no Rio, que alertou para os desafios das mudanças climáticas, aliados à esperança nas ações práticas para enfrentá-los, como reflorestar, usar fontes renováveis de energia e nos livrarmos da dependência do petróleo e carvão.

A hora é de arregaçar as mangas e promover as revoluções necessárias para zerar as emissões líquidas de gases e efeito estufa até meados do século. Nesse sentido, as noticias das últimas semanas são alvissareiras: a FAO anunciou que a perda de florestas desacelerou nos últimos cinco anos; a primeira gigafábrica começou a produzir em Nevada, nos EUA, e vai derrubar em 30% o preço das baterias; a China instalou impressionantes 20.000 MW de capacidade de geração solar apenas no primeiro semestre de 2016 (equivalente a duas usinas de Belo Monte); e as vendas de carros elétricos dispararam, devendo a frota mundial superar dois milhões de veículos este ano.


Que venham mais boas notícias! Temos que nos mover rápido. Muito rápido.


Publicado em O Globo, 31.08.2016

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Semeando chuva e inovação



Provocar chuva não é propriamente uma novidade. Os primeiros registros de experiências modernas para semear nuvens ocorreram no inicio do século XX, foram consolidados na década de cinquenta e atualmente são utilizadas com certa regularidade em mais de vinte países.

Em geral o processo se baseia em pulverizar formações de nuvens com produtos químicos tais como iodeto de prata, iodeto de potássio ou acetona que induzem ou aceleram o processo de aglomeração e condensação provocando a precipitação em um local desejado. É um tema certamente polêmico, tanto pela eficácia (diferentes estudos mostram variação entre 10 e 30%) quando pelo potencial de perda de controle ou mesmo de provocar danos como enchentes ou secas em áreas vizinhas.

No Brasil o que torna este tema particularmente interessante são dois personagens de épocas distintas: Frederico de Marco (1885-1960) e Takeshi Imai (1944-2013).

Frederico de Marco foi um medico, pesquisador e inventor que viveu em Araraquara e chegou a ser indicado ao Prêmio Nobel de Física. Promoveu diversos experimentos e inventos em áreas distintas como transmissão de energia sem fio, novas técnicas cirúrgicas e o conceito do telegrafo sem fio. Mas ficou conhecido mesmo por fazer chover fazer chover. Embora tenha realizado os primeiros experimentos em 1914, foi em 1940 que promoveu a primeira chuva induzida no Brasil pulverizando nuvens com iodeto de prata. A técnica criada por Frederico foi patenteada nos EUA no final da década de 40 e ele nunca se beneficiaria de seu invento. Dizia que suas invenções eram para uso universal.

Takeshi Imai, engenheiro mecânico e inventor formado no ITA ficou conhecido nacionalmente quando no inicio dos anos 70 desenvolveu um método de pulverização para controlar a ferrugem que dizimava cafezais do Brasil. Nos anos 80 desenvolveu uma série de motosserras mais rápidas e potentes do que as existentes até então. Ao ver um jacarandá de 250 anos sendo derrubado pelo seu invento resolveu mudar de rumo. Dedicou os últimos 20 anos de sua vida a tecnologias para beneficio publico. Neste período criou uma forma nova e surpreendente de semear nuvens e provocar chuva a partir da pulverização de água potável, eliminando assim o uso de produtos químicos. A empresa que criou, hoje operada pelos filhos Marjory e Ricardo, opera com regularidade na região metropolitana de São Paulo e em regiões de produção agrícola sensíveis de estados como Mato Grosso e Maranhão.

Em tempos distintos Frederico e Takeshi tinham em comum a curiosidade, a dedicação e o espírito fazedor que os permitiu estar a frente de seu tempo para criar inovações de amplo espectro e uso. Mas ambos também têm em comum o fato de serem considerados como personagens excêntricos e curiosos ao promoverem seus inventos mais ousados ao invés de reconhecidos como grandes empreendedores.

O Brasil tem dezenas de exemplos como estes de inventores e inovadores que em sua fase mais produtiva não são identificados, reconhecidos e estimulados. As vezes eles simplesmente padecem sem que seu potencial tenha frutificado, outras, quando tem oportunidade, buscam outros países para seguir seu caminho.


Precisamos estar atentos para aqueles que pensam, raciocinam e agem de forma pouco usual e ousada. Assim como as nuvens, precisamos semear os estímulos para que estes gênios criativos possam ir mais longe, aglutinando ideias, condensando conceitos e precipitando inovações de impacto para o Brasil e o mundo.

Publicado em Época Negócios em Agosto/2016