quarta-feira, 18 de outubro de 2017
Entrevista Show na Noticia da CBN 23.09.2017
quarta-feira, 27 de setembro de 2017
Propósito
Margarete havia trabalhado por duas décadas como secretaria-executiva
da diretoria de uma grande indústria de bebidas quando se tornou a primeira
funcionária de uma
ONG que eu ajudara a fundar, em Piracicaba, para promover a sustentabilidade da
produção florestal e agrícola. Seu profissionalismo e seriedade no trato das
tarefas eram realçados pelo jeitão meio mandão, mas sempre simpático e alegre.
Um dia lhe perguntei que diferença fazia trabalhar numa grande
empresa e no instituto, e ela me explicou:
— O trabalho aqui é bem parecido com o que eu fazia na
empresa, só que trabalhamos em dobro e recebemos menos.
Antes que eu reagisse, ela completou: — Mas aqui sou muito mais feliz
porque tenho um senso de propósito, sei que estamos contribuindo para um mundo
melhor.
Várias pesquisas têm mostrado que o senso de propósito,
visto como a percepção de estar contribuindo para um bem maior do que a
si próprio, é o
principal motivador para pessoas, equipes e instituições se moverem, se
inspirarem e se encorajarem a superar obstáculos, inovar e romper barreiras.
Ainda assim, milhões de trabalhadores, empreendedores, empresas e
governantes vagam sem rumo e sem significado pelo seu dia a dia, como que
entorpecidos pela rotina e a sobrevivência diárias. Acabam sendo absorvidos pelo tédio de
mais um relatório inútil, as distrações da telinha do celular ou a gestão da
ansiedade da espera pelo próximo
e-mail ou mensagem no WhatsApp.
Pois bem, tá sem propósito? Conheça os Objetivos do
Desenvolvimento Sustentável (ODS). Acordados há cinco anos entre todas as
nações do mundo, formam uma agenda universal para as pessoas e o planeta. São 17 objetivos, que incluem os
cuidados com a biodiversidade, os oceanos, as florestas, a água, o solo e o
clima, o fim da fome, da pobreza, da corrupção e do preconceito, a garantia de
saúde, segurança energética e alimentar e colocar ao alcance de todos a
paz, a justiça e a
igualdade de oportunidades.
Cada objetivo vem acompanhado de um
conjunto de metas bem estruturadas, muitas bem objetivas como, por exemplo, até 2030, erradicar a pobreza
extrema para todos em todos os lugares — atualmente tendo como referência
pessoas vivendo com menos de US$1,25 por dia.
Os ODS representam um cardápio de opções para inspirar
cidadãos, empresas e governos a encontrar o seu propósito e sua razão de ser,
estar e fazer. Quando mais forças se alinharem por propósito mais rápido, mais
consistentemente caminharemos para um mundo mais próspero, justo e sustentável.
Publicado
em O Globo em 27.09.2017
quarta-feira, 30 de agosto de 2017
Operação Casada
Fosse um ato isolado, a extinção da Reserva Mineral de Cobre e Associados (Renca) — uma gigantesca área em uma das regiões mais preservadas da Amazônia — teria pouco impacto. Afinal, depois de sua criação, em 1984, boa parte da área foi demarcada com terras indígenas e convertida em unidades de conservação, o que lhes conferiu um nível maior de proteção.
Porém, este não é um caso isolado. Ele observa um padrão desta administração: operações casadas, sem consulta ou participação da sociedade e com absoluto desprezo pelo patrimônio socioambiental do Brasil.
Com o objetivo de atender aos interesses econômicos próprios e de seus aliados, a cúpula do governo e suas lideranças no Congresso estão desmontando o sistema de salvaguardas socioambientais construído ao longo das ultimas três décadas. A demarcação de terras indígenas e territórios quilombolas foi paralisada completamente. Várias propostas de redução de unidades de conservação estão em curso e podem ceifar mais de um milhão de hectares, sob a justificativa de permitir a regularização de ocupações antigas de pequenos produtores.
O caso da Floresta Nacional do Jamanxim, no Pará mostra que, na verdade, quem vai se beneficiar são ocupações ilegais recentes (grilagem mesmo), com média acima de 2.000 hectares cada (20 milhões de metros quadrados!). Em paralelo, o governo propôs, e o Congresso aprovou, o que ficou conhecido como a MP da Grilagem, que aumentou a área passível de regularização de 1.500 para 2.500 hectares — que coincidência não? — e reduziu o valor a ser pago pela terra pública para 10% a 50% do valor de referência do Incra. Assim, na região do Jamanxim, cada dez mil metros quadrados pode sair por menos de R$ 100 — ou seja, um centavo por metro quadrado.
Em outra frente, o governo trabalha para aprovar uma lei que abre as terras indígenas para mineração, ao mesmo tempo em que publicou um parecer da AGU que autoriza a exploração de “riquezas de cunho estratégico” independentemente de consulta às comunidades indígenas envolvidas ou à Funai.
Para completar, lideranças governistas trabalham com diversos lobbies da indústria para aprovar goela abaixo uma reforma do sistema de licenciamento ambiental que, entre outras barbáries, exime do licenciamento de atividades rurais e cria decurso de prazo para aprovação de licenças.
A extinção da Renca não é um caso isolado; é parte de uma operação casada, meticulosamente orquestrada para maximizar os benefícios econômicos de aliados políticos a partir da apropriação privada do patrimônio publico e em detrimento das populações tradicionais, da conservação da biodiversidade e do bem-estar de toda a população.
Publicado em O Globo em 30.08.2017
https://oglobo.globo.com/opiniao/operacao-casada-21761592#ixzz4rEWkb1qz
Porém, este não é um caso isolado. Ele observa um padrão desta administração: operações casadas, sem consulta ou participação da sociedade e com absoluto desprezo pelo patrimônio socioambiental do Brasil.
Com o objetivo de atender aos interesses econômicos próprios e de seus aliados, a cúpula do governo e suas lideranças no Congresso estão desmontando o sistema de salvaguardas socioambientais construído ao longo das ultimas três décadas. A demarcação de terras indígenas e territórios quilombolas foi paralisada completamente. Várias propostas de redução de unidades de conservação estão em curso e podem ceifar mais de um milhão de hectares, sob a justificativa de permitir a regularização de ocupações antigas de pequenos produtores.
O caso da Floresta Nacional do Jamanxim, no Pará mostra que, na verdade, quem vai se beneficiar são ocupações ilegais recentes (grilagem mesmo), com média acima de 2.000 hectares cada (20 milhões de metros quadrados!). Em paralelo, o governo propôs, e o Congresso aprovou, o que ficou conhecido como a MP da Grilagem, que aumentou a área passível de regularização de 1.500 para 2.500 hectares — que coincidência não? — e reduziu o valor a ser pago pela terra pública para 10% a 50% do valor de referência do Incra. Assim, na região do Jamanxim, cada dez mil metros quadrados pode sair por menos de R$ 100 — ou seja, um centavo por metro quadrado.
Em outra frente, o governo trabalha para aprovar uma lei que abre as terras indígenas para mineração, ao mesmo tempo em que publicou um parecer da AGU que autoriza a exploração de “riquezas de cunho estratégico” independentemente de consulta às comunidades indígenas envolvidas ou à Funai.
Para completar, lideranças governistas trabalham com diversos lobbies da indústria para aprovar goela abaixo uma reforma do sistema de licenciamento ambiental que, entre outras barbáries, exime do licenciamento de atividades rurais e cria decurso de prazo para aprovação de licenças.
A extinção da Renca não é um caso isolado; é parte de uma operação casada, meticulosamente orquestrada para maximizar os benefícios econômicos de aliados políticos a partir da apropriação privada do patrimônio publico e em detrimento das populações tradicionais, da conservação da biodiversidade e do bem-estar de toda a população.
Publicado em O Globo em 30.08.2017
https://oglobo.globo.com/opiniao/operacao-casada-21761592#ixzz4rEWkb1qz
Marcadores:
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quarta-feira, 26 de julho de 2017
Expropriação
Durante
a 2a Guerra Mundial o horror do holocausto não apenas ceifou milhões
de vidas como tirou de milhões de judeus, ciganos e outros grupos discriminados
o direito as suas propriedades e posses. Na Polônia, o governo pós-guerra
apropriou-se de milhares de imóveis e propriedades e vendeu ou destinou a
burocracia ao longo de quase 40 anos. Apenas em 1989 com a aprovação da Lei da
Restituição de Propriedade se iniciou o longo e penoso processo de restituir as
propriedades expropriadas durante e após a guerra. O direito de restituição é
perpétuo. Se demostrado a qualquer tempo que a propriedade foi tomada contraria
à vontade ou compensação do dono ela deve retornar a ele ou seus descendentes.
Agora
imagine que a lei Polonesa dissesse que apenas haveria restituição da propriedade
se o reclamante (ex. uma família judia perseguida na guerra) estivesse morando
no local quando houve a expropriação ou quando as leis restituição tivesse sido
aprovada? Não faria o menor sentido certo?
Esta
história ajuda a explicar o absurdo do parecer vinculante da Advocacia Geral da
União aprovado e publicado pelo Presidente Temer que estabelece novas regras a
serem aplicadas para as áreas indígenas do Brasil. Entre elas esta que a partir
de agora só serão reconhecidas e demarcadas terras indígenas onde ficar provado
que as populações estavam efetivamente vivendo na área em 1988 quando foi
promulgada a constituição. Depois de séculos sendo expulsos e pressionados em
seus territórios, muitos povos indígenas só puderam retornar aos seus
territórios após o acolhimento de seus diretos na constituição cidadã.
Vale
lembrar que os povos indígenas no Brasil mão tem titulo sobre seus territórios,
as terras são publicas e para usufruto exclusivo destes povos.
Pois
o parecer também estraçalha do direito indígena afirmando que o usufruto dos índios
não se sobrepõe a expansão da malha viária, a exploração de alternativas
energéticas e o resguardo das riquezas de cunho estratégico, que a critério dos
órgãos competentes, serão implementados e ou explorados independentemente de
consulta às comunidades indígenas envolvidas ou à FUNAI. Esta dado o sinal
para o completo desrespeito aos diretos dos índios sobre seus territórios. Quer
fazer uma estrada? Não precisa nem perguntar, passa por cima.
A
demarcação das Tis já havia sido fortemente reduzida no Governo Dilma e com
Temer parou de vez, desde que assumiu não houve um único reconhecimento ou
demarcação e agora vem este parecer e pelo pior motivo possível: comprar apoio
político no congresso para escapar da abertura de processo por corrupção no
Supremo Tribunal Federal. Não merecemos isso.
Publicado em O GLOBO em 26.07.2017
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