quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Sem exagero



Qual destas afirmações é falsa? O Brasil é o pais com a maior proporção de energias renováveis na matriz elétrica e é o país com mais florestas no mundo. As duas são falsas. Há pelo menos 20 países que têm mais eletricidade renovável que o nosso (incluindo Noruega, Islândia e Colômbia), e a Rússia possui quase o dobro da área de florestas.

O que leva à propagação destas afirmações repetidas, inclusive por autoridades e doutores, é, via de regra, um misto de desatualização, mistura de conceitos e retirada de contexto. No caso das afirmações sobre a sustentabilidade do agronegócio brasileiro propalada pelo ministro da Agricultura, há uma mistura oportunista destes vícios.

O ministro diz que o Brasil é uma das maiores potências agrícolas do planeta, ocupando apenas 7,6% do território, enquanto a média do mundo é 30% e da Europa, 45%. A agropecuária brasileira seria, assim, um ponto fora da curva de produtividade e não deveria ser demonizada pelo desmatamento; afinal, o Brasil tem 66% do território com vegetação nativa.

O agronegócio brasileiro é, sem sombra de dúvida, uma potência, o quarto maior produtor de alimentos do planeta e o maior entre os países tropicais. Para isso, o país ocupa 33% do território com atividade agropecuária, e não 7,6%, que correspondem apenas à área de cultivos agrícolas, sem contar a pecuária. Nos estados de ocupação consolidada, o percentual é ainda mais alto: São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro e Paraná, por exemplo, têm mais de 65% do território com uso agropecuário. Mesmo Mato Grosso, ainda na fronteira agrícola, já alcança 37% de ocupação.

No Brasil, temos mais de 280 milhões de hectares dedicados ao setor agropecuário. Somente a China e os EUA (o primeiro e o terceiro maiores produtores de alimento) possuem áreas maiores de agropecuária (mas também têm território maior que o do Brasil). Mais interessante é o caso da Índia, com uma população seis vezes maior e metade do território do Brasil — o segundo maior produtor mundial de alimentos —, que ocupa apenas 170 milhões de hectares com atividade agropecuária, ou seja, é muito mais produtiva do que nós.

Mesmo depois de reduzir as taxas históricas de desmatamento, o Brasil ainda é o país que mais desmata vegetação nativa no mundo, e mais de 80% deste desmatamento são causados pela expansão agropecuária. A atividade acaba, assim, por responder por mais de 70% das emissões de gases de efeito estufa do Brasil — que é o sexto maior emissor do planeta.

Como também já disse o ministro da Agricultura, não precisamos desmatar mais um hectare para aumentar nossa produção agropecuária. Nosso desafio é melhorar a eficiência no uso das terras já dedicadas à atividade, em especial as áreas de pecuária de baixa produtividade. Com isso, poderíamos zerar o desmatamento, aumentar a renda do produtor rural e tornar o Brasil uma bomba de remoção de carbono na atmosfera.

Seria interessante o ministro assumir o compromisso e garantir junto ao setor o desmatamento zero da vegetação nativa remanescente no Brasil. Este seria, sim, o maior ato de promoção do agronegócio brasileiro. Sem nenhum exagero.

Publicado em O Globo 27.12.2017