domingo, 1 de julho de 2018

Reduz, mas aumenta


Semanas atrás, o governo anunciou uma meta de redução de 10% da intensidade de emissões de carbono do setor de combustíveis para o transporte no Brasil até 2028, o que resultaria, segundo as contas do Ministério de Minas e Energia, numa redução de 600 milhões de toneladas de carbono (CO2) nos próximos dez anos. A meta é parte do projeto RenovaBio, que visa a promover a ampliação do uso de biocombustíveis, em especial o etanol e o biodiesel na matriz de transportes brasileira.
Mas, olhando com mais calma os números que embasam o anúncio do MME, nota-se que, em vez de reduzir, as emissões de CO2 crescem de 289 milhões para 335 milhões de toneladas entre 2018 e 2028. A redução, na verdade, só ocorre se comparada com uma projeção de quanto seria a emissão em 2028 se a intensidade de emissões de carbono permanecesse a mesma de 2018. Como a meta de aumento de eficiência é de cerca de 1% ao ano, mas o aumento do consumo de combustíveis cresce mais de 2% ao ano, o resultado é o aumento do volume total de emissões.
No final do período de 10 anos, a participação dos biocombustíveis na matriz de transportes subiria de 20 para 28%, muito pouco frente ao potencial do Brasil, até porque mais de 74% da frota circulante já são flex, e deve chegar a mais de 90% em 2028, segundo projeção do MME.
A Política Nacional de Biocombustíveis (RenovaBio) foi criada para ser uma grande alavanca ao uso de biocombustíveis e redução das emissões de gases de efeito estufa. Para operacionalizá-lo, um dos instrumentos principais são os Créditos de Descarbonização de Biocombustíveis (CBio).
Quem produz biocombustíveis gera CBios, e as distribuidoras que vendem têm que adquirir uma quantidade predefinida de créditos. A demanda de CBios é dimensionada a partir das metas de intensidade de emissões do setor de combustíveis.
A definição das metas passou por uma queda de braço entre o setor de biocombustíveis, a sociedade civil, que propôs metas mais ousadas de descarbonização, e o setor de petróleo e gás (leia-se Petrobras), que sistematicamente bloqueou as propostas de maior ambição, propondo inclusive metas ainda menores que as aprovadas.
Para atingir a meta proposta, o esforço adicional ao que já é feito é mínimo, as metas seriam atingidas quase que por inércia. Se quisermos realmente baixar as emissões é preciso estabelecer metas mais agressivas de penetração dos biocombustíveis combinadas com eletrificação dos transportes (nossa matriz já é 80% renovável), o desestímulo ao transporte individual motorizado, o estímulo ao transporte público e promoção dos modais ferroviário e aquaviário para o transporte de carga.
Aí sim, podemos falar em real redução das emissões de poluentes do setor de transporte brasileiro.

Publicado em O Globo, em 27.06.2018

quarta-feira, 30 de maio de 2018

E se fosse elétrico




Diante do caos dos últimos dias como consequência da greve dos caminhoneiros fico imaginando como essa história seria contada pela minha filha de nove anos para seus filhos e netos: para mover os veículos era utilizado um combustível líquido. Funcionava assim: das profundezas do mar retiravam um líquido preto chamado Petróleo que seguia para industrias enormes chamadas refinarias onde era transformado em um líquido amarelado que conhecemos como gasolina e diesel. Este líquido era transportado em caminhões por milhares de quilômetros pelas estradas e entregues em postos de venda de combustível. 

Para andar com o veiculo, a gente se dirigia a estes postos e colocava o liquido no motor e com ele conseguia andar cerca de 400km. Quando acabava o combustível você procurava um destes postos de combustível para reabastecer. Dai, o preço deste combustível liquido começou a ficar muito caro e ouve uma greve dos caminhoneiros e não tinha como entregar combustível e virou o caos. 

Cerca de 60% do transporte de cargas no Brasil é feito por caminhões. Uma parte importante poderia ser revertida para outros modais como ferroviário, aéreo ou de navegação, mas ainda assim parte da carga geral destinada a conectar distâncias menores ou pulverizadas precisa do transporte rodoviário.

Prece incrível, mas quase 15% de toda carga transportada no Brasil é o próprio combustível e como é uma carga muito especifica, é quase sempre um frete de retorno vazio. Uma gigantesca ineficiência.

Num sistema de transporte baseado em eletricidade, essa ineficiência desaparece, pois a energia circula pelo sistema integrado de energia elétrica. Postos de recarga podem ser estabelecidos de forma rápida em qualquer lugar e ainda serem carregados com energia solar produzida no local. Embora o investimento inicial seja alto, os preços estão caindo rapidamente e dentro de poucos anos já serão plenamente competitivos com veículos a combustão. Os custos de operação dos veículos elétricos são muito mais baixos além de serem mais confortáveis, ter melhor performance e reduzir drasticamente a poluição local e as emissões de gases do efeito estufa. 

Apesar dos óbvios benefícios, a eletrificação do transporte tem sido solenemente ignorada nas politicas de transporte, mobilidade e desenvolvimento da indústria automobilística no Brasil, como mostra a recente licitação de ônibus urbanos em São Paulo ou o Plano Rota 2030 com incentivos para a indústria automobilística desconectados dessa realidade.

O futuro do transporte passa pela eletrificação. Que a crise atual, pelo menos, sirva  para acelerar a sua implementação. 

Publicado em O Globo em 31.05.2018

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Moratória



As florestas são fundamentais para a manutenção das chuvas e o fluxo e qualidade da agua, a biodiversidade e ciclagem de carbono e nutrientes. A atividade agropecuária por sua vez é fundamental tanto pelo produção de alimentos e materiais quanto pela contribuição para a economia. Não podemos viver sem um ou outro.

Atualmente a agropecuária parasita as florestas e a vegetação nativa no Brasil. Todo ano centenas de milhares de hectares são desmatados no Brasil para dar lugar a atividades agropecuárias. Mas não precisa ser assim.

Quase um terço do território brasileiro já foi desmatada para atividade agropecuária. São quase 270 milhões de hectares que representam a terceira maior área dedicada a esta atividade no mundo. Deste total, 170 milhões de hectares são considerados pastagens ativas (com produção continua) e 75 milhões de ha são dedicados aos cultivos agrícolas (soja, milho, laranja, cana etc). Sobram 25 milhões de hectares de áreas degradadas, sub-aproveitas ou improdutivas.

Por outro lado, um passivo de 15 a 25 milhões de hectares de florestas e vegetação nativa a serem recuperados para sanear os déficits de reserva legal e áreas de preservação permanentes previstas no código florestal.

A agricultura brasileira é a mais produtiva dos trópicos, porém o mesmo não ocorre com a produção pecuária. Hoje são 1,3 animais por hectare em média no país. Temos a tecnologia e as condições para dobrar esta lotação para 2,6 animais por hectares em menos de uma década. Não é ciência de foguetes. Já existem diversas propriedades no Brasil que superam 3 cabeças por hectare sem confinamento. Dobrando a produtividade média nacional é possível atender a demanda futura de produção e ao mesmo tempo liberar 40 milhões de hectares para outras atividades.

Considerando o que esta hoje é subutilizadas e o que pode ser liberado pelos ganhos de produtividade na pecuária é possível atender as demandas de recuperação de passivos ambientais e aumento da produção de alimentos sem precisar desmatar mais nenhum hectare no Brasil, pelo contrário, é possível fazer tudo isso aumentando a base florestal com reflorestamento e revegetação de áreas degradadas prioritárias para conservação.

Já vimos que isso é possível. Em meados da década passada foi aprovada a Lei da Mata Atlântica que praticamente proibiu o desmatamento no Bioma. Entre 2000 e 2016 a área agropecuária do Estado de São Paulo diminuiu quase 1 milhão de hectares enquanto a produção agrícola aumentou 50% e cobertura florestal cresceu mais de 800 mil hectares. A restrição do desmatamento provocou um aumento da eficiência e da produtividade no uso das terras destinadas a agropecuária.

É hora o Brasil declarar uma moratória do desmatamento em todo o país até 2030 e focar nos próximos anos na expressiva melhora da eficiência de uso do solo, aliando aumento de produção agropecuária e florestal com manutenção e recuperação da vegetação nativa e a reabilitação de áreas degradadas. É o jogo de ganha-ganha para sociedade, o planeta e a economia.

Publicado em O Globo em 25/04/2018

quinta-feira, 29 de março de 2018

Programa Capital Natural: Especial MapBiomas

O Programa Capital Natural de 24.03.2018 na BAND TV apresentou um especial sobre o Projeto MapBiomas. Fui entrevistado junto com Marcia Hirota da SOS Mata Atlântica.





quarta-feira, 28 de março de 2018

Etanol & Elétrons



A história recente do etanol do Brasil é um caso único de sucesso de implementação em larga escala de uma alternativa ao uso de combustíveis fósseis. A combinação da tecnologia de produção de etanol em grandes quantidades associada ao desenvolvimento dos motores flex (ou bicombustíveis) foi chave para este sucesso. Hoje, quase 75% da frota circulante de veículos leves no Brasil são flex; portanto, podem rodar com qualquer mistura de gasolina e etanol.

A substituição da gasolina pelo etanol traz vários benefícios, entre eles a redução das emissões de carbono. Ao crescer, a cana capta carbono da atmosfera através da fotossíntese e, ao queimar o combustível, o carbono que havia sido capturado volta para atmosfera. Com o fim progressivo da prática da queima da cana antes da colheita, há ainda um acumulo de carbono no solo. Assim, o sistema pode até ser positivo, capturando mais carbono do que emite.

Mas esta conta só fecha se os plantios de cana não envolverem novos desmatamentos (que emitem milhões de toneladas de carbono). Estudos conduzidos por instituições públicas e privadas, nos últimos anos, apontam que o crescimento dos novos plantios de cana desde o ano 2000 se deu sobre áreas já desmatadas há muito tempo, especialmente de pastos. Em São Paulo, o maior estado produtor, menos de 1% dos novos plantios está associado a áreas com desmatamento pós-2000. O veto vigente à expansão da cana na Amazônia, defendido pela própria indústria sucroalcooleira e por ambientalistas, certamente tem ajudado a manter tal condição.

Apesar de quase 75% da frota de veículos leves serem flex, a escolha de abastecer com etanol representa menos de 25% do consumo total de combustível destes veículos. Ou seja, o potencial de redução de emissões de gases de efeito estufa pelo programa de etanol no Brasil ainda é pouco explorado. Se todos os veículos flex se abastecessem apenas com etanol, haveria uma redução adicional das emissões em quase 35 milhões de toneladas de CO2e por ano — o que equivale às emissões somadas de ônibus e aeronaves do país em 2016.

O futuro do transporte está na eletrificação. O motor a combustão está com os dias contados. No Brasil, isso faz ainda mais sentido, considerando que 80% de nossa matriz elétrica são renováveis. Mas a troca de toda a frota circulante demorará décadas, e o Brasil tem uma condição única para fazer esta transição: reduzir as emissões da frota já existente a partir de políticas e estímulos ao uso dos biocombustíveis.

Ao mesmo tempo, será necessário a indústria sucroalcooleira do Brasil se adaptar para se transformar numa indústria bioquímica e bioenergética, substituindo a petroquímica e a geração termoelétrica com combustíveis fósseis. Isso é a cara da nova economia.

Publicado em O Globo - 28.03.2018

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Dados Primários



Há cerca de quinze anos, um grupo de pesquisadores do Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia) preparava um estudo sobre indicadores de sustentabilidade da cidade de Belém e precisavam saber quantos metros quadrados de praças e área verdes havia em cada bairro da região metropolitana. Durante três meses os pesquisadores buscaram o dado junto a órgãos públicos. Protocolo para cá, ofício para lá, o máximo que conseguiram foi uma estimativa de existiam "umas cem praças". O Beto Veríssimo, líder do estudo, reuniu a equipe e propôs: vamos medir nós mesmos. Armados de GPS, trena e suor, em dois meses eles mapearam quase duas mil praças e áreas verdes na capital paraense.

Lembrei-me deste episódio ao participar do debate recente sobre os dados de cobertura e uso da terra no Brasil.

Em um artigo recente no Valor Econômico, o autor conclui, após, segundo ele, cruzar várias fontes de dados, que entre 1990 e 2016 a área ocupada pela atividade agropecuária no Brasil teria sido reduzida em 4,2 milhões de hectares, a despeito de 38 milhões de hectares terem sido desmatados no mesmo período. Afirma que a regeneração de mata nativa teria alcançado 50 milhões de hectares no período e que, portanto, para cada hectare desmatado, 1,3 hectare era recuperado. A expansão da produção agropecuária teria se dado, então, exclusivamente pelos extraordinários ganhos de produtividade.

O incauto ao ler tal informação poderia concluir que a área das matas brasileiras teria aumentado nas ultimas décadas e a agropecuária reduziu a área ocupada. Portanto, a expansão da agropecuária não teria causado desmatamento e degradação. Ou seja, tudo ótimo, nada a mudar, basta seguirmos no rumo que estamos.

Nestas horas é importante voltar as fontes de dados primários sólidas e abrangentes no tempo e espaço.

Existem atualmente três iniciativas de mapeamento da cobertura e uso da terra em escala nacional no Brasil. São elas: o Programa de Monitoramento do Uso da Terra do IBGE; o Inventário Nacional de Emissões de Gases de Efeito Estufa, do Ministério da Ciência e Tecnologia; e o Projeto muti-institucional MapBiomas.

Ainda que todos possam ser melhorados e embora tenham diferenças de abordagem metodológica, legenda e resolução, os dados gerados pelos três projetos indicam de forma inequívoca: (i) O Brasil perdeu cobertura florestal e vegetação nativa em todos os períodos analisados; (ii) A área ocupada pela atividade agropecuária (cultivos e pastagens) cresceu em todos os períodos; (iii) Houve regeneração em larga escala no Brasil, mas ela ainda representa menos de um terço das áreas desmatadas; (iv) mais de 90% das áreas desmatadas se convertem em agropecuária.

Esta é a realidade nua e crua dos dados primários. Eles decerto estão sujeitos a muitas análises e interpretações. Estas só não podem ir de encontro aos fatos.

Publica em O Globo em 28.02.2018

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Vento tem dono?


Seria cômico se não fosse trágico. O Congresso se prepara para votar uma PEC que torna os ventos bens da união e permite a cobrança de royalties pelo aproveitamento energético eólico. Obra de um deputado do Piauí, relatada por outro de Pernambuco, os ilustres representantes do povo estão de olho em um naco das receitas do setor de energia eólica, a fonte que mais cresceu em nossa matriz energética nos últimos anos.

Os argumentos do projeto de emenda constitucional são patéticos, indicando que a medida seria necessária para compensar os municípios, estado e união pelas perdas do potencial turístico e outras atividades econômicas (sem apresentar uma única evidência para tal afirmação).

O que viria depois? Cobrar dos pescadores e velejadores por usar a energia do vento para mover as embarcações? Cobrar das companhias aéreas, paraquedistas ou até quem sabe dos meninos que empinam pipa por se apoiar no vento para voar? Se congresso legisla que vento tem dono então poderia fazer o mesmo com a energia do sol. Dai o próximo passo seria cobrar dos agricultores por usar o sol para produzir alimentos, fibras e energia ou taxar cada residência que tenha aquecimento solar de água ou células fotovoltaicas.

O movimento é ainda mais absurdo quando se considera que o governo propôs - e o congresso aprovou no apagar das luzes de 2017 - um generoso pacote de centenas de bilhões de reais de renuncia fiscal para o setor petróleo e gás. Agora parece querer compensar a perda de arrecadação cobrando pelo vento.

Quando mais precisamos lutar para reduzir emissões de gases de efeito estufa o Brasil resolve ampliar o desserviço a nossa economia e a saúde do planeta ao incentivar energia fóssil e poluente e desincentivar a energia limpa e renovável.

Para nordeste quanto pior. As usinas eólicas já são a principal fonte geradora de energia da região, provendo mais da metade da demanda de eletricidade. Trás emprego, renda, investimento e segurança energética. Se ela se tornar menos competitiva podem perder espaço nos leilões de geração para termoelétrica e outros projetos em outras regiões do país. O tiro vai sair pela culatra. Vão matar a galinha dos ovos de outro.

Se é preciso aumentar a arrecadação sobre o setor de energia que o façam com uma taxa extra sobre os combustíveis fósseis (por exemplo alterando a CIDE) o que seria justificável e alinhado com o compromisso brasileiro para redução de emissões de gases de efeito estufa. Se ainda assim querem ser mais abrangentes poderia incluir um premio extra no valor da energia (de qualquer fonte) evitando reduzir a competitividade das fontes renováveis.

Se o Brasil decidir tomar posse do vento e cobrar royalties pelo seu uso seria o único país do mundo a fazê-lo. Desta jabuticaba nós definitivamente não precisamos.

Publicado em O Globo em 31.01.2018