terça-feira, 14 de março de 2017

Para Cima e Para Baixo


Um estudo da Rede Nossa São Paulo realizado em 2016 indica que o paulistano gasta em media 3 horas no trânsito (2 horas para o deslocamento principal – ir para trabalho ou escola e 1 horas para outros deslocamentos). Como pelo menos 8 horas do dia em média são usados para atividades insubstituíveis como dormir, ir ao banheiro ou comer, é possível dizer que quase 20% do tempo útil do dia dos paulistanos é gosto nos deslocamentos pela cidade. São dois meses e meio por ano perdido no transito.

Esta realidade é comum nas principais metrópoles do mundo e afeta deforma desigual ricos e pobres. Quando menos recursos e mais distantes do centro urbano mais tempo se desperdiça nos deslocamentos.

A mobilidade urbana se tornou um dos principais fatores de produtividade e qualidade de vida das cidades. Racionalização de vias, ampliação de corredores e vias exclusivas para transporte publico e bicicletas, automatização da sinalização e controle de fluxo ou medidas de desestimulo aos veículos individuais ajudam, mas não vão resolver o problema. É física pura, conforme as cidades se verticalizam com edifícios que abrigam milhares de pessoas por quadra não há como escoar o transito por vias em plano único nos momentos em que todos se deslocam nas manhas e finais de tarde.

A saída será verticalizar o sistema de transporte para cima e para baixo. Sim, já temos aviões, helicóptero e metrô, mas os modelos atuais ou são caros, ou pouco flexíveis e ou lentos para se expandir.

Algumas iniciativas recentes apontam que estamos prestes a romper paradigmas nesta área. Ainda em 2017 começa a funcionar em Dubai o primeiro sistema de transporte aéreo individual de passageiros utilizando drones elétricos e autônomos da Chinesa Ehang. O passageiro solicita o veiculo por um aplicativo e indicando o destino, o veiculo vem recolhê-lo e deixá-lo no destino final num raio de 20 km ao custo de uma corrida de taxi. Pelo menos dez outras startups estão trabalhando em veículos elétricos voadores para transporte rápido e barato nas cidades, inclusive a UBER (Uber-Elevate). O mais difícil nem é construir veículos viáveis, mas criar as regulamentações necessárias para segurança de vôos destes veículos.

De outro lado no inicio de 2017 Elon Musk, o fundador da Space X e Tesla e criador do conceito do Hyperloop (espécie de trem hiper-rápido que se movimento num tubo com semi-vácuo), anunciou que iria criar a empresa chata (‘The Boring Company’) para reinventar a forma de fazer túneis  Em síntese Elon quer aumentar a velocidade do chamado tatuzão – máquina que faz os túneis para metrô por exemplo – de pouco menos de 100 metros /dia para pelo menos 1 a 2 km/dia. Com isso seria possível construir rapidamente dezenas de níveis de túneis pelas cidades para passagem de metrô, trem, transporte de carga e carros.

Parece uma loucura, mas este é o mesmo maluco que em 2010 inventou de criar um foguete reutilizável e completou a façanha de pousar verticalmente um foguete já em dezembro de 2015.

Nas próximas duas décadas o transporte nos centros urbanos sofrerá uma transformação profunda, para cima e para baixo. Quem sabe assim recuperaremos várias semanas perdidas por ano no trânsito.

Publicado em Época Negócios em Março/2017

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Deixa subir!



Em um domingo ensolarado no inicio de janeiro acordei cedo para levar minha filha a um piquenique numa praça em São Paulo para comemorar o aniversário de sete anos de sua melhor amiga. Na Praça do Jardim das Perdizes, inaugurada meses antes, os pais da aniversariante colocaram uma pequena mesa embaixo de uma arvore com comes e bebes e penduraram alguns balões nos galhos ao redor.

Tudo ia perfeitamente bem até que um veiculo da Guarda Municipal entra na Praça, estaciona ao lado da árvore e dois guardas descem e solicitam o documento de autorização do "evento". Diante da perplexidade dos adultos e a curiosidade das crianças anunciam que a festa deveria ser encerrada imediatamente: - Além do mais senhores, é proibido pendurar qualquer objeto ou subir nas árvores nos parques e praças da cidade! Emendou o guarda.

Apesar de toda cena ser absurda, o que me chamou mais atenção foi a proibição de subir em árvores e aproveitei para entender a razão da arbitrariedade. Logo escutei: - É para segurança dos seus filhos e para preservar as árvores, assim eles aprendem não correr perigo e cuidar da natureza.

Mas será que tem esta proibição mesmo. Pois é, está lá em um decreto municipal de 1989 que é proibido subir ou escrever em arvores e correr no gramado(!!). Deve ser só em SP – cidade mais carrancuda – pensei eu, mas não, em Belo Horizonte, uma  portaria de 2013 veda “subir em árvores ou nelas amarrar redes”.

Em um Jardim Botânico até vale o argumento de proteção dos espécimes muitas vezes únicos, mas em geral que mal pode ter uma criança subir numa árvore? É a criança que sobre em árvore, brinca com formiga, corre atrás de passarinho, coleciona flores e folhas que vai lutar para proteger a fauna e flora quando crescer. Esta ligação motora e emotiva é fundamental para conectar-nos com a natureza.

Famílias que escolhem levar para as praças e parques a confraternização e brincadeira da garotada em vez de se enfurnar num shopping tem que ser aplaudidos e incentivados e não constrangidos.

Uma ótima iniciativa em curso, por enquanto no Rio e São Paulo, é o programa Criança e Natureza do Instituto Alana que disponibiliza uma séria de ferramentas e dicas para incentivar as famílias, escolas e as cidade a proporcionar o convício da criança com a Natureza. Que o programa contamine os gestores municipais e quem sabe logo, logo, tenha uma plaquinha nas árvores dizendo “vem brincar comigo”.

Ah, na festinha do Jardim das Perdizes enquanto os adultos e guardas discutiam as crianças voltaram a brincar correndo curiosos atrás de um punhado de gafanhotos que passou por lá (xi... será que pode?).

Publicado em O Globo em 22.02.2017 

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Água 4.0


Em um livro recente, o engenheiro David Sedlak da Universidade de Berkeley, descreve três revoluções pela qual passou o desenvolvimento de sistemas de água em centros urbanos. O primeiro foi a inovação romana de captar água potável e despejar esgoto fora dos centros mais populosos. Já a segunda revolução foi o tratamento da água para consumo eliminando micro-organismos patógenos e por fim a terceira foi a implantação dos sistemas de tratamento de esgoto.

Sedlak completa indicando a necessidade de uma quarta revolução da água necessária para enfrentar um conjunto de problemas bem atuais: a escassez de água em diversas regiões afetadas pelas mudanças do clima e consumo desproporcional, a capacidade de tratamento e a excessiva - e cada vez mais complex - contaminação química da água. Ainda poderia acrescentar a desigualdade de condições de oferta de água limpa em diferentes regiões do planeta devido aos custos envolvidos.

A coleta e tratamento de esgoto é absolutamente fundamental para a geração de um ambiente saudável no meio urbano. Porém, infelizmente, ainda é uma realidade muito distante do mundo em desenvolvimento. No Brasil, seguindo o Instituto Trata Brasil metade da população não conta com sistema de coleta de esgoto e só 40% do esgoto é tratado. Tratamento de esgoto exige infraestrutura cara de coleta, demanda espaço grande muita energia (cerca de 2 KWh/m3).

Outro desafio grande é a dessalinização da água para viabilizar o abastecimento em regiões de grande déficit hídrico. É um processo caro, em geral realizado por osmose reversa, onde a água empurrada em pressão por vários filtros com enorme consumo de energia (cerca 4 KWh/m3). Apenas como exemplo, em Fernando de Noronha a unidade de dessalinização da água chega a representar 50% do demanda de energia da ilha.

Existem várias inciativas no mundo que buscam soluções para acelerar, baratear e simplificar o tratamento de água e esgoto. Nos EUA uma startup chamada Janicki Bionergy desenvolveu o Omniprocessor, uma usina onde de um lado entra esgoto e do outro saem energia, água potável e cinzas fertilizantes e viralizou quando Bill Gates tomou um copo d’água que saia da usina.

No Brasil, outra startup - MoOmi (água limpa em Iorubá) - desenvolveu um sistema ainda mais inovador que separa a água das demais partículas do esgoto usando ultrassom, sem a utilização de produtos químicos ou decomposição bacteriana. O sistema é continuo e rápido o que reduz em 75% a área ocupada pelo sistema de tratamento. O consumo de energia é apenas 10% do que consome o sistema tradicional e os custos de implementação e operação caem pela metade. A primeira unidade operacional com capacidade de 240 m3/hora já funciona em Ubatuba no litoral paulista. O mesmo sistema pode ser utilizado para dessanilizar água com reduções no consumo de energia superiores a 95%. Por usar área menor e poder ser feita em diferentes escalas pode viabilizar redes de coleta de esgoto menos complexas e mais distribuídas facilitando a  implementação da infraestrutura de saneamento básico.

Mais um bom exemplo de inovações que podem acelerar o alcance das metas globais de desenvolvimento sustentável.

Publicado na Coluna Bússola de Épocao Negócios, Fevereiro de 2017

sábado, 28 de janeiro de 2017

É bem pior



Quando Donald Trump, surpreendentemente, ganhou a eleição americana, os delegados de mais de 190 países reunidos em Marrakesh para a Conferencia das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas pareciam perplexos. Não era para menos. Durante a campanha, enquanto a candidata democrata indicava aprofundamento do compromisso americano com redução das emissões, o republicano questionava a existência das mudanças climáticas e até mesmo propunha a retirada dos Estados Unidos da Convenção ou do Acordo de Paris.

Em poucas horas, porém, os discursos foram se alinhando no entorno da máxima de que em campanha é tudo exagerado, mas na hora de governar seria outra história.

O tom mais ameno de Trump do discurso de vitória ajudou a alimentar esta esperança. Ledo engano.

Já na formação da equipe de transição e da indicação do primeiro escalão do governo Trump deu o tom: um executivo do petróleo foi nomeado para cuidar do Departamento de Estado (equivalente ao Itamaraty no Brasil), e um advogado que tem para si uma meta de acabar com Agencia de Proteção Ambiental (EPA, na sigla em inglês) foi encarregado de dirigi-la.

Alarmados com o que vinha pela frente, cientistas, funcionários públicos e especialistas em processamento de dados organizaram uma série de maratonas de programação para salvar o máximo de informação sobre o Clima existente na EPA e nas diversas agências de governo americanas que estariam ameaçadas pela nova administração.

Um movimento que lembra a proteção da vasta coleção de arte do Museu Hermitage, em São Petersburgo, na Rússia, durante a Segunda Guerra Mundial. Milhares de pessoas, entre funcionários e voluntários, trabalharam incessantemente para salvar mais de um milhão de peças de arte dos bombardeios e dos saques perpetrados pelas tropas de Hitler.

Os temores se confirmaram. Horas depois da posse de Trump, o site da Casa Branca já tinha retirado do ar todas as referencias às mudanças climáticas, e todos os planos de redução de emissões e promoção de energias renováveis estão sendo cancelados, congelados ou minimizados.

O mundo patinou na agenda de clima durante décadas, com a dificuldade de engajamento dos EUA — até bem pouco tempo o maior emissor global de gases de efeito estufa. O Acordo de Paris não teria sido possível sem o nível de compromisso demonstrado pelos EUA nos últimos anos, especialmente na administração Obama.

A esperança é que a aceleração atingida com o Acordo de Paris e pelas iniciativas dos estados e da sociedade americana tenha sido suficientemente grande para resistir ao retrocesso promovido pela nova administração. 

Agora é torcer. Por ora, parece bem pior do que o imaginado.


Publicado em O Globo em 25.01.2017


quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Agiota Regular



Dona Lair tem 69 anos. Nasceu em Joanópolis, no interior de São Paulo, e começou a trabalhar de faxineira aos 12 anos. Aos 15, o pai tentou estuprar a ela e à irmã. Quando teve coragem de contar à mãe, esta ateou fogo no corpo e se suicidou. Fugiu com três irmãs para São Paulo e continuou trabalhando de faxineira até quando o corpo aguentou e enquanto a aceitavam. Teve três filhos, hoje na casa dos 30 anos. Analfabeta, sabe apenas assinar o nome. Nunca teve carteira assinada. Ao se ver sem faxina para fazer, ouviu de um alguém no centro espírita que frequentava que limpar a calçada poderia ser seu destino. Há dez anos, Dona Lair limpa o mato de calçadas.

Aos 67, um morador ajudou Dona Lair a conseguir se aposentar por idade, e ela, finalmente, após uma vida inteira, passou a ter uma renda mensal segura e uma conta em banco. 

Encontrei Dona Lair chorando na semana passada. Parei para conversar — “Doutor no ano passado, quando meu filho perdeu o emprego, e minha filha foi presa com droga, eu precisei de dinheiro e fiz um empréstimo da Crefisa. Agora, toda vez que eu recebo a aposentadoria, eu vou no banco, e quase não tem dinheiro, eles pegam tudo”.

Em junho de 2015, Dona Lair assinou um contrato de empréstimo de R$ 850 para ser pago com débito automático em 12 parcelas de R$ 351, uma taxa de juros de 22% ao mês, ou 1.050% ao ano! Com os débitos automáticos, sua conta ficou negativa várias vezes e foi coberta com crédito rotativo do banco. Quando olhei o extrato bancário de Dona Lair, foi difícil de acreditar. Por causa de um empréstimo de R$ 850, ela havia pago em 16 meses quase R$ 7 mil entre parcelas, juros, mora. Só para a Crefisa foram R$ 3.850, e ainda devia R$ 890 para quitar a divida. Isso mesmo, ela tomou empréstimo de R$ 850, pagou R$ 3.850 e devia R$ 890!

Fui à Crefisa com ela, mostrei que o contrato era nulo, uma vez que Dona Lair não tinha condições de entender o que havia assinado, e os juros eram abusivos. Confrontados, acionaram o departamento jurídico, que aceitou dar o contrato como quitado, sem mais pagamento algum, mas mediante o compromisso de não acioná-los na Justiça. Nas duas horas de negociação e espera para encerrar o contrato, observei o entra e sai da loja. Os atendentes não dão qualquer informação sobre o quanto já foi pago do contrato, pedem que a pessoa leve um extrato bancário para eles “ajudarem a conferir”. Na verdade, o que buscam é saber o saldo em conta da pessoa para emitir um boleto “com desconto” para pagamento imediato. É pura agiotagem e abuso da fragilidade dos que buscam o crédito já em desespero.

O acesso aos serviços financeiros é essencial para a sustentabilidade em qualquer sistema econômico. Mas se o sistema é regulado (ou desregulado) sem a proteção dos mais desfavorecidos, ele vira uma chaga que corrói em vez de construir, que drena em vez de prover. Tem certas coisas que não dá para deixar para o “mercado resolver”. É preciso definir um limite para taxas de juros no Brasil — válido para contratos existentes e futuros para estancar esta sangria concentradora de renda em curso no Brasil.

Não precisa nem ser taxa de países desenvolvidos (5%-10% ao ano), mas nos níveis de outros países latino-americanos (até 50% ao ano) já seria um enorme avanço. Taí uma agenda positiva para o presidente Temer ajudar a resolver.

Coluna de O Globo, 28.12.2016

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Vida aos 200 anos


A expectativa de vida dos humanos deu um salto monumental nos últimos 150 anos passando de 30 para os atuais 68 anos. É um feito extraordinário quando se considera a evolução anterior. Desde que o Homo Sapiens passou a dominar a paisagem a cerca de 10 mil anos até meados do século do século XIX, a media de vida dos humanos variou entre 20 e 30 anos.

O processo pelo qual demos este salto está associado- a fatores bem conhecidos como significante melhoria na nutrição (tanto em quantidade como diversidade), avanços na prevenção e tratamento de doenças e infecções com a descoberta da vacina e a penicilina, a redução drástica das guerras e a evolução da educação e infraestrutura que permitiram a redução de riscos associados a acidentes, imprevistos e desastres naturais.

Hoje as principais causas de morte não acidental em países desenvolvidos estão associadas às doenças típicas do envelhecimento como câncer, Alzheimer e outros,  enquanto nos países menos desenvolvidos, ainda estão associadas a doenças infeciosas ou subnutrição.

Na última década avanço do conhecimento da biologia associado à capacidade de processamento da informação (inteligência artificial) apontam para um futuro onde as principais causas de morte não acidentais poderão ser evitadas ou consertadas.

Em 2012 foi descrito o CRISPR-CS9 uma tecnologia desenvolvida a partir da observação da habilidade das bactérias de resistir ao ataque de vírus, que permite a edição de genes de forma tão simples, precisa e especifica como um editor de texto. Isso permite uma infinidade de aplicações como corrigir defeitos no genoma que afetam o metabolismo que causam patologias ou alterar células cancerígenas para que parem de se multiplicar ou ainda gerar mosquitos que não transmitam dengue, malária ou zika.

Mais recentemente em 2015 uma técnica chamada GeneDrive (algo como gene dirigido) permitiu ir além do CRISPR, permitindo que as alterações do gene se autoperpetuassem. Algo como você corrigir um erro no editor de texto e este erro ser corrigido automaticamente em qualquer documento que você abrisse posteriormente.

A evolução destas tecnologias e outras tecnologias emergente nos próximos 15 anos vai transformar radicalmente nossa perspectiva de saúde e nossa expectativa de vida. Terapias não invasivas estenderão a expectativa de vida em décadas para pessoas com 50 anos, tempo suficiente para que outras terapias possam corrigir novos defeitos e estender a vida por mais 30-50 anos e assim por diante. Ou seja, quem nasceu hoje viverá num mundo em que a idade terá pouca relação com a probabilidade de morrer no próximo ano.

Quando os primeiros humanos completarem o seu 200o aniversário, já terão nascido os primeiros humanos que viverão mil anos.


Esta perspectiva tem várias consequências, uma das mais relevantes é a mudança de perspectivas sobre o cuidado com o planeta em que vivemos. A busca da sustentabilidade deixa de ser um ato de generosidade com as gerações futuras, mas uma necessidade para a geração atual. 

Publicado em Época Negócios, Edição de nov/2016

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Sina de Desmatar


Desde 2004 o Brasil não via o desmatamento crescer na Amazônia por dois anos seguidos. Mas eis que, em 2015, o desmatamento saltou de cinco mil para 6,2 mil quilômetros quadrados, e os números preliminares indicam que em 2016 a taxa chegará a oito mil, um aumento de 60% em dois anos. Foram derrubados 250 metros quadrados por segundo (isso mesmo, por segundo!) ou, pensando em árvores, cerca de 900 delas por minuto.

Tendo como base os dados do Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa do Observatório do Clima, as emissões pelo desmatamento na Amazônia em 2016 poderão superar sozinha as emissões totais de todo o setor de energia, transporte e indústrias do Brasil em 2015.

É certo que houve grande queda do desmatamento desde o pico de 2004, quando bateu em 27,7 mil quilômetros quadrados. Uma série de políticas aplicadas nos anos seguintes derrubou as taxas a 11 mil em 2007. Nesse período, foram implementados o monitoramento mensal dos focos de desmatamento, operações extensivas de combate à exploração ilegal, a forte ampliação das áreas protegidas e da política de gestão de florestas públicas. Em 2008 sinais da reversão da tendência (a taxa chegou a 12,9 mil quilômetros quadrados) provocaram uma nova série de medidas, como o embargo de áreas desmatadas ilegalmente, a criação da lista suja de municípios que mais desmatam, as alterações na política de crédito agrícola, a responsabilização da cadeia produtiva pelo desmatamento e a criação do Cadastro Ambiental Rural (CAR). Seguiram-se quatro anos de queda, e em 2012 a taxa chegou a 4,5 mil quilômetros quadrados, o número mais baixo registrado na série histórica iniciada em 1988. Os anos seguintes foram de crescimento entre cinco e seis mil.

Apesar deste avanço, o Brasil continuou sendo o país que mais desmata no mundo. Em 2009, na preparação para a Conferência de Copenhague, lançou a meta de reduzir até 2020 o desmatamento em 80% da Amazônia e 40% do Cerrado com relação à média do período de 1996 a 2005. Para a Amazônia, isso significa chegar em 2020 com até 3,9 mil quilômetros quadrados de desmatamento. Em 2016 a taxa de desmatamento deve ser mais do que o dobro desta meta. Estamos nos distanciando dela, em vez de 
acelerar e buscar o mais rápido possível o desmatamento zero.

Nos últimos anos, as políticas de combate ao desmatamento e promoção da conservação foram afrouxadas, com a fragilização do Código Florestal, a paralisia na definição de novas áreas protegidas, o corte dos orçamentos da fiscalização e a redução da transparência dos sistemas de alerta do desmatamento. Agora a conta chegou.
É hora de reverter este quadro. 

Os recentes sinais do governo através do Ministério do Meio Ambiente sobre a retomada da criação de áreas protegidas e destinação das terras públicas não destinadas, a implementação das concessões florestais, a volta dos alertas em tempo real do desmatamento (e não só na Amazônia) e a abertura dos dados do CAR e de todo o sistema de dados de licenciamento e transporte de madeira e pecuária são bons sinais. Mas precisam se concretizar, e rápido. Cada hectare de floresta perdido agrava os problemas climáticos e reduz nossa capacidade de adaptação. É urgente e é para agora!

Publicado em O Globo em 30.11.2016