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quarta-feira, 25 de novembro de 2020

País que mais preserva ou destrói?


Dias atrás,  discursando para o G20,  o presidente Bolsonaro afirmou: "Utilizamos 8% de nossas terras para agricultura e 19% para pecuária; por isso, cerca de 66% de nosso território se encontram preservados com vegetação nativa (...) trabalharemos para manter este elevado nível de preservação. Somos responsáveis por menos de 3% das emissões de carbono mesmo sendo uma das dez maiores economias do mundo". E completou assim: "o que apresento aqui são fatos e não narrativas, são dados concretos e não frases demagógicas que rebaixam o debate publico".


Depois de tantas informações erradas propaladas pelo atual chefe do Executivo,  chega a surpreender que os quatro dados apresentados na fala sejam muito próximos do real. Mas as conclusões derivadas deles contidas na fala não condizem com a realidade.


Segundo o MapBiomas, a mais completa base de dados sobre cobertura e uso da terra do país, em 2019 a área de uso agropecuário ocupava cerca de  30% do território. Quando  se consideram as pastagens naturais e os plantios comerciais para produção de madeira,  chega a 35%, o que está alinhado com a média global de ocupação da superfície terrestre para agropecuária. O Brasil não se distingue muito do mundo neste quesito.


Ainda segundo o MapBiomas, o país tem realmente 66% de vegetação nativa. Porém não se pode dizer que preserva este montante. Quase 10% da vegetação nativa brasileira já foram  desmatados pelo menos uma vez, e estima-se que pelo menos outros 20% já foram degradados pelo fogo ou pela exploração ilegal de madeira. Ou seja, a área efetivamente preservada não alcança nem 50%.


Por outro, lado o Brasil é, de longe, o país que mais desmata no mundo. Lá atrás vêm a República Democrática do Congo e a Indonésia. E o desmatamento anda muito rápido. Em 1975 a Amazônia tinha 0,5% de suas florestas desmatada, atualmente se aproxima de 20%. Entre janeiro de 2019 e agosto de 2020 o desmatamento no Brasil alcançou uma área superior à metade do Estado do Rio de Janeiro. Definitivamente, o Brasil não é o país que mais preserva no mundo.


O Brasil é o quinto maior emissor de gases de efeito estufa. Em 2019 fomos responsáveis por cerca de 4% das emissões globais, enquanto nossa participação no PIB global é 2%, ou seja, emitimos mais que a média do mundo para cada dólar  de geração de riqueza. Por outro lado, nossa emissão per capita é de 10 tCO2e/habitante/ano, enquanto a média do mundo é 7t. Novamente, estamos piorando a média do mundo.


Mas o Brasil, que tem alta participação de fontes renováveis na matriz energética, poderia se tornar rapidamente o exemplo para o mundo. Zerando o desmatamento, restaurando ecossistemas em áreas críticas, ampliando as áreas protegidas e a economia da floresta em pé junto com uma pujante agricultura regenerativa, seremos certamente o melhor exemplo para o mundo.


Para isso precisamos de menos demagogia e desvio de atenção do discurso e mais ação no dever de casa.


Publicado em O Globo em 25.11.2020

domingo, 1 de julho de 2018

Reduz, mas aumenta


Semanas atrás, o governo anunciou uma meta de redução de 10% da intensidade de emissões de carbono do setor de combustíveis para o transporte no Brasil até 2028, o que resultaria, segundo as contas do Ministério de Minas e Energia, numa redução de 600 milhões de toneladas de carbono (CO2) nos próximos dez anos. A meta é parte do projeto RenovaBio, que visa a promover a ampliação do uso de biocombustíveis, em especial o etanol e o biodiesel na matriz de transportes brasileira.
Mas, olhando com mais calma os números que embasam o anúncio do MME, nota-se que, em vez de reduzir, as emissões de CO2 crescem de 289 milhões para 335 milhões de toneladas entre 2018 e 2028. A redução, na verdade, só ocorre se comparada com uma projeção de quanto seria a emissão em 2028 se a intensidade de emissões de carbono permanecesse a mesma de 2018. Como a meta de aumento de eficiência é de cerca de 1% ao ano, mas o aumento do consumo de combustíveis cresce mais de 2% ao ano, o resultado é o aumento do volume total de emissões.
No final do período de 10 anos, a participação dos biocombustíveis na matriz de transportes subiria de 20 para 28%, muito pouco frente ao potencial do Brasil, até porque mais de 74% da frota circulante já são flex, e deve chegar a mais de 90% em 2028, segundo projeção do MME.
A Política Nacional de Biocombustíveis (RenovaBio) foi criada para ser uma grande alavanca ao uso de biocombustíveis e redução das emissões de gases de efeito estufa. Para operacionalizá-lo, um dos instrumentos principais são os Créditos de Descarbonização de Biocombustíveis (CBio).
Quem produz biocombustíveis gera CBios, e as distribuidoras que vendem têm que adquirir uma quantidade predefinida de créditos. A demanda de CBios é dimensionada a partir das metas de intensidade de emissões do setor de combustíveis.
A definição das metas passou por uma queda de braço entre o setor de biocombustíveis, a sociedade civil, que propôs metas mais ousadas de descarbonização, e o setor de petróleo e gás (leia-se Petrobras), que sistematicamente bloqueou as propostas de maior ambição, propondo inclusive metas ainda menores que as aprovadas.
Para atingir a meta proposta, o esforço adicional ao que já é feito é mínimo, as metas seriam atingidas quase que por inércia. Se quisermos realmente baixar as emissões é preciso estabelecer metas mais agressivas de penetração dos biocombustíveis combinadas com eletrificação dos transportes (nossa matriz já é 80% renovável), o desestímulo ao transporte individual motorizado, o estímulo ao transporte público e promoção dos modais ferroviário e aquaviário para o transporte de carga.
Aí sim, podemos falar em real redução das emissões de poluentes do setor de transporte brasileiro.

Publicado em O Globo, em 27.06.2018

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Moratória



As florestas são fundamentais para a manutenção das chuvas e o fluxo e qualidade da agua, a biodiversidade e ciclagem de carbono e nutrientes. A atividade agropecuária por sua vez é fundamental tanto pelo produção de alimentos e materiais quanto pela contribuição para a economia. Não podemos viver sem um ou outro.

Atualmente a agropecuária parasita as florestas e a vegetação nativa no Brasil. Todo ano centenas de milhares de hectares são desmatados no Brasil para dar lugar a atividades agropecuárias. Mas não precisa ser assim.

Quase um terço do território brasileiro já foi desmatada para atividade agropecuária. São quase 270 milhões de hectares que representam a terceira maior área dedicada a esta atividade no mundo. Deste total, 170 milhões de hectares são considerados pastagens ativas (com produção continua) e 75 milhões de ha são dedicados aos cultivos agrícolas (soja, milho, laranja, cana etc). Sobram 25 milhões de hectares de áreas degradadas, sub-aproveitas ou improdutivas.

Por outro lado, um passivo de 15 a 25 milhões de hectares de florestas e vegetação nativa a serem recuperados para sanear os déficits de reserva legal e áreas de preservação permanentes previstas no código florestal.

A agricultura brasileira é a mais produtiva dos trópicos, porém o mesmo não ocorre com a produção pecuária. Hoje são 1,3 animais por hectare em média no país. Temos a tecnologia e as condições para dobrar esta lotação para 2,6 animais por hectares em menos de uma década. Não é ciência de foguetes. Já existem diversas propriedades no Brasil que superam 3 cabeças por hectare sem confinamento. Dobrando a produtividade média nacional é possível atender a demanda futura de produção e ao mesmo tempo liberar 40 milhões de hectares para outras atividades.

Considerando o que esta hoje é subutilizadas e o que pode ser liberado pelos ganhos de produtividade na pecuária é possível atender as demandas de recuperação de passivos ambientais e aumento da produção de alimentos sem precisar desmatar mais nenhum hectare no Brasil, pelo contrário, é possível fazer tudo isso aumentando a base florestal com reflorestamento e revegetação de áreas degradadas prioritárias para conservação.

Já vimos que isso é possível. Em meados da década passada foi aprovada a Lei da Mata Atlântica que praticamente proibiu o desmatamento no Bioma. Entre 2000 e 2016 a área agropecuária do Estado de São Paulo diminuiu quase 1 milhão de hectares enquanto a produção agrícola aumentou 50% e cobertura florestal cresceu mais de 800 mil hectares. A restrição do desmatamento provocou um aumento da eficiência e da produtividade no uso das terras destinadas a agropecuária.

É hora o Brasil declarar uma moratória do desmatamento em todo o país até 2030 e focar nos próximos anos na expressiva melhora da eficiência de uso do solo, aliando aumento de produção agropecuária e florestal com manutenção e recuperação da vegetação nativa e a reabilitação de áreas degradadas. É o jogo de ganha-ganha para sociedade, o planeta e a economia.

Publicado em O Globo em 25/04/2018

terça-feira, 12 de abril de 2016

Elétrico, Autônomo, Conectado e Compartilhado


Fabrica de automóveis não parece combinar muito com o Vale do Silício, mas é lá que o futuro da indústria automobilística e de nosso modo de ir e vir esta sendo moldado. Em resumo o transporte especialmente no meio urbano terá quarto características marcantes: elétrico, autônomo, conectado e compartilhado.

Os primeiros veículos automotores fabricados ainda no século XIX eram elétricos, mas logo foram substituídos pelos motores a combustão. Embora nunca tenha desaparecido completamente, os veículos elétricos voltaram a ser desenvolvidos a partir dos anos 80 mas carregavam a pecha de serem pesados, lentos, com baixa autonomia, lentos para carregar e além de tudo com design sofrível.

Mas o desenvolvimento destes veículos nos últimos anos transformou os patinhos feios em verdadeiros cisnes negros. Quando lançou o seu primeiro veículo com produção em série, a TESLA, jovem empresa sediada em Palo Alto, a poucos quilómetros dos gigantes da tecnologia e internet, transformou o conceito que se tinha sobre o carro elétrico: um sedam 100% elétrico, que acelera de 0-100 km/h em em menos de 4s, autonomia de 400 km, uma rede de carregadores rápidos capaz de gerar uma autonomia de 80km em 5 minutos, um design super arrojado, espaço interno 50% maior que qualquer carro da mesma categoria além de ser o primeiro veiculo a atingir nota máxima em todos os testes de segurança. Em resumo, foi chamado por publicações especializadas como o melhor carros já produzido em todos os tempos.

Em 2012, ano de lançamento do Modelo S, primeiro a ser primeiro modelo da Tesla em escala, foram vendidos no mundo pouco menos de 200 mil veículos elétricos ou híbridos (somando todas as marcas). Em 2015 foram vendidos 540 mil e a projeção para 2016 é alcançar quase 1 milhão de veículos vendidos, o que equivale a pouco mais de 1% das vendas anuais. Na China já existem mais de 100 fábricas de carros elétricos e até 2020 estima-se que a China poderá alcançar 5% da frota rodando em carros elétricos.

Todos os carros da Tesla são conectados permanente na internet. Recebem atualizações de software e sistema operacional (que já esta na sua 7 versão) e diagnósticos remotos para manutenção. Com isso a empresa tem completo domínio sobre o comportamento dos carros o que ajuda a identificar os pontos críticos a serem aprimorados ou reinventados. Foi assim que descobriram que mais de 99% das viagens do veículos da TESLA são realizadas com cargas de bateria realizadas a noite em casa, ou seja, a demanda por infraestrutura de carregamento é muito mais especifica e estratégica como nas estradas.

O desenvolvimento de direção autônoma (conduz o carro sem a necessidade de um motorista ou com muito pouca interferência deste) esta atingindo o ponto de produto comercial em 2016. De fato, a ultima atualização de software da Tesla já disponibilizou vários atributos de direção autônoma para os veículos da empresa. Em menos de 10 anos a os veículos  direção autônoma será tão comum como hoje é o chamado “piloto automático” que limita-se a manter o carro em uma velocidade pré-determinada.

Num futuro não muito distante, você poderá escolher um veículo para utilizar num final de semana e ele virá sozinho se apresentar para te atender no período solicitado. Quando terminar de utilizar (dirigindo ou não) bastará deixa-lo em qualquer ponto que ele cuidara de retornar a sua base ou dirigir-se para outro “compromisso”. São veículos compartilhados.

Os veículos de passageiros são apenas o começo, o mesmo processo deverá acontecer com o transporte coletivo e com o transporte de cargas leves e encomendas.

Pode parecer ficção científica, mas já esta acontecendo agora. E isso é bom para o planeta e para todos nós. Antes do Iphone 10 ainda veremos a explosão dos veículos elétricos, conectados, autônomos e compartilhado.

Publicado na Revista Epoca Negócios, Abril 2016