Mostrando postagens com marcador inovação. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador inovação. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Colaboração é o nome do jogo



A receita tradicional de produção ciência, produtos e serviços envolve uma ideia, um plano e definição de responsabilidades amarrada em contratos e acordos sobre o que esta sendo demandado e o que será entregue.  Uma montadora de automóveis desenha um veiculo, planeja sua montagem, contrata fornecedores de peças e componentes e trabalhadores para montar os veículos e outros para comercializá-los e assim por diante.

Esta receita vem sendo transformada radicalmente nas últimas duas décadas conforme mergulhamos no mundo da colaboração em massa como motor da inovação com ganhos de escala, rapidez e eficiência para atacar os mais complexos problemas.

A Wikipédia, criada em 2001, é o exemplo mais conhecido de produção colaborativa. A maior enciclopédia da história – um dos cinco sites mais acessados do planeta – foi e continua sendo construído e financiado integralmente por colaborações voluntárias de milhões de pessoas. A Wikipédia disseminou a tecnologia Wiki criada por Ward Cunninghan em 1995 para facilitar a troca de idéias entre programadores onde todos podem editar e não tem um controle central de conteúdo e edição. Hoje são milhares de sites que utilizam esta tecnologia em grupos fechados ou abertos.

Mas a colaboração em massa já saiu do mundo virtual para os campos de pesquisa, produção e serviços. O Hyperloop, conceito de transporte de altíssima velocidade (acima de 1000 km/h) em tubos de semi-vácuo que promete ser o transporte do futuro para longa distância começou com um projeto conceitual publicado em 2012 pela Tesla, sob liderança de Elon Musk, com a explicita intensão de que fosse construído de forma aberta. Desde então dois consórcios independentes iniciaram processos para desenvolver o Hyperloop, um deles envolve milhares de colaboradores em rede. Universidades em todo o mundo participam de competições para desenvolver os ‘Pod’ que andarão pelo tubo ou outras partes do sistema e em 2020 já teremos as primeiras linhas do transporte futurista operacionais.

Em 2015 no Brasil foi criado o MapBiomas, uma iniciativa com quinze instituições para produzir em três anos os mapas anuais de cobertura e uso do solo de todo o país para as ultimas três décadas. Usando o método tradicional levariam décadas para produzir os mapas, mas a combinação do uso do conhecimento de diversos especialistas em sensoriamento remoto, uso da terra e ciência da computação com processamento distribuído e processo colaborativo de criação de algoritmos e classificadores automáticos permitiu gerar em 18 meses os mapas para 17 anos (2000-2016) além de um conjunto amplo de ferramentas para multiplicar a iniciativa para outros países.

A possiblidade de armazenar e explorar uma quantidade gigante de dados (BigData), a computação em nuvem, as ferramentas de comunicação rápida e global e a vasta disponibilidade de ferramentas abertas (open source) cria o caldo de cultura que permite potencializar a colaboração de pessoas com as mais diversas habilidades. Mas o que parece realmente ser o motor de ignição destas iniciativas de sucesso é definição de um problema comum a ser resolvido (ou objetivo a ser alcançado) que seja mobilizador e inspirador ao mesmo tempo que pareça impossível de ser resolvido por uma iniciativa individual. São tantos os desafios desta natureza que a colaboração veio mesmo para ficar.

Publicado em Época Negócios, edição de Maio/2017

terça-feira, 14 de março de 2017

Para Cima e Para Baixo


Um estudo da Rede Nossa São Paulo realizado em 2016 indica que o paulistano gasta em media 3 horas no trânsito (2 horas para o deslocamento principal – ir para trabalho ou escola e 1 horas para outros deslocamentos). Como pelo menos 8 horas do dia em média são usados para atividades insubstituíveis como dormir, ir ao banheiro ou comer, é possível dizer que quase 20% do tempo útil do dia dos paulistanos é gosto nos deslocamentos pela cidade. São dois meses e meio por ano perdido no transito.

Esta realidade é comum nas principais metrópoles do mundo e afeta deforma desigual ricos e pobres. Quando menos recursos e mais distantes do centro urbano mais tempo se desperdiça nos deslocamentos.

A mobilidade urbana se tornou um dos principais fatores de produtividade e qualidade de vida das cidades. Racionalização de vias, ampliação de corredores e vias exclusivas para transporte publico e bicicletas, automatização da sinalização e controle de fluxo ou medidas de desestimulo aos veículos individuais ajudam, mas não vão resolver o problema. É física pura, conforme as cidades se verticalizam com edifícios que abrigam milhares de pessoas por quadra não há como escoar o transito por vias em plano único nos momentos em que todos se deslocam nas manhas e finais de tarde.

A saída será verticalizar o sistema de transporte para cima e para baixo. Sim, já temos aviões, helicóptero e metrô, mas os modelos atuais ou são caros, ou pouco flexíveis e ou lentos para se expandir.

Algumas iniciativas recentes apontam que estamos prestes a romper paradigmas nesta área. Ainda em 2017 começa a funcionar em Dubai o primeiro sistema de transporte aéreo individual de passageiros utilizando drones elétricos e autônomos da Chinesa Ehang. O passageiro solicita o veiculo por um aplicativo e indicando o destino, o veiculo vem recolhê-lo e deixá-lo no destino final num raio de 20 km ao custo de uma corrida de taxi. Pelo menos dez outras startups estão trabalhando em veículos elétricos voadores para transporte rápido e barato nas cidades, inclusive a UBER (Uber-Elevate). O mais difícil nem é construir veículos viáveis, mas criar as regulamentações necessárias para segurança de vôos destes veículos.

De outro lado no inicio de 2017 Elon Musk, o fundador da Space X e Tesla e criador do conceito do Hyperloop (espécie de trem hiper-rápido que se movimento num tubo com semi-vácuo), anunciou que iria criar a empresa chata (‘The Boring Company’) para reinventar a forma de fazer túneis  Em síntese Elon quer aumentar a velocidade do chamado tatuzão – máquina que faz os túneis para metrô por exemplo – de pouco menos de 100 metros /dia para pelo menos 1 a 2 km/dia. Com isso seria possível construir rapidamente dezenas de níveis de túneis pelas cidades para passagem de metrô, trem, transporte de carga e carros.

Parece uma loucura, mas este é o mesmo maluco que em 2010 inventou de criar um foguete reutilizável e completou a façanha de pousar verticalmente um foguete já em dezembro de 2015.

Nas próximas duas décadas o transporte nos centros urbanos sofrerá uma transformação profunda, para cima e para baixo. Quem sabe assim recuperaremos várias semanas perdidas por ano no trânsito.

Publicado em Época Negócios em Março/2017

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Vinte e oito pombos

Desde 1972, quando foi lançado o Landsat, o primeiro satélite de imageamento, houve enorme avanço e aprimoramento dos sensores, aumento da resolução, ampliação da capacidade de processamento e redução do tempo entre imagens consecutivas.

Ainda assim, hoje o acesso a imagens de alta resolução, livres de nuvens e frequentes é caro e disponível para poucas regiões do planeta. Isso torna ainda bastante limitado o uso das imagens para tarefas como encontrar um avião desaparecido em pleno voo, monitorar incêndios e enchentes ou identificar áreas atingidas por desastres naturais.

Mas inovações recentes possibilitarão que, em poucos meses, tenhamos a capacidade de enxergar todo o planeta em alta resolução e quase em tempo real.

A Planet Labs, uma startup fundada por quatro jovens em 2010 na Califórnia, acaba de colocar em órbita a maior constelação de satélites da história. São 28 Doves (pombos em inglês), como foram batizados os microssatélites pouco maiores que uma garrafa PET de dois litros, que atuam em conjunto como uma espécie de scanner da superfície do planeta. Até o fim do ano, serão capazes de produzir e disponibilizar na internet diariamente imagens em alta resolução (3 a 5m) de todos os pontos do planeta. O investimento total para toda a constelação foi uma fração do custo de um satélite tradicional de alta resolução. Mais uma centena destes Doves deve ser lançada até o fim de 2015.

Outra startup do Vale do Silício, a Skybox, trabalha para colocar em órbita uma constelação de satélites capaz de produzir filmes em alta resolução e tempo real de qualquer ponto do planeta.

Já a Google criou um sistema com 20 mil computadores espalhados pelo planeta que processa diariamente milhares de imagens de satélite para construir imagens compostas livres de nuvens.

É certo que o vertiginoso barateamento e a miniaturização dos sensores de imagem, acompanhados do crescimento exponencial da capacidade de processamento, são fundamentais para que estas inovações estejam acontecendo agora, mas o fator mais importante é uma concepção disruptiva que está na base de boa parte das transformações em curso na sociedade global: a criação de conhecimento, produtos e serviços de forma distribuída.

Vários microssatélites operando de forma coordenada podem realizar de maneira mais ágil e simples o que nem o mais complexo dos grandes satélites consegue fazer. Esta é a lógica que impulsiona plataformas de financiamento coletivo, da geração de energia solar distribuída ou de aprendizado colaborativo.

Publicado em O Globo em 28.05.2014