quarta-feira, 5 de agosto de 2020
Pandemia, fome e desmatamento
quarta-feira, 29 de julho de 2020
O Capital acordou para Amazônia
O descontrole e o descaso do governo federal com o desmatamento e a Amazônia resultaram num efeito inesperado no setor privado. Pressionados pela rápida deterioração da imagem do Brasil no cenário internacional, que tem se refletido em desconfiança em relação aos produtos e serviços brasileiros, empresas de diversos setores têm se mobilizado para colocar em prática uma agenda proativa para a região.
Em 2019, o setor privado ainda aguardava uma reação do poder público que pudesse recolocar o Brasil no rumo do controle do desmatamento, mas os meses foram passando, e a luz amarela acendeu no início de 2020 em Davos, onde o Brasil passou um vexame, sem ter o que apresentar quando todas as atenções estavam voltadas para a agenda da sustentabilidade no Fórum Econômico Mundial.
Já são 14 meses seguidos em que o desmatamento sobe sem trégua quando comparado com o mesmo período do ano anterior. Mesmo com a passagem do bastão da coordenação do combate ao desmatamento para o vice-presidente Mourão no Conselho da Amazônia, não há sinais de retração. Por outro lado, a Covid-19 avança sobre os povos indígenas de forma particularmente cruel, pois está associada às invasões do garimpo e à extração ilegal de madeira em seus territórios, e a inação do governo é amplificada pelos vetos do presidente a medidas importantes de proteção dessas populações vulneráveis que haviam sido aprovadas pelo Congresso.
A luz amarela ficou vermelha quando os investidores começaram a externar de forma inequívoca que se afastarão do Brasil e das empresas que possam ter risco de se contaminar com desmatamento ou impactar as populações indígenas. Empresas no sul do Brasil, a 3 mil quilômetros de distância, agora têm que responder como garantem não estar vinculadas com a derrubada da floresta e o fogo na Amazônia.
Primeiro vieram os CEOs de dezenas de empresas, várias líderes nos seus setores, cobrando ação do governo no combate ao desmatamento ilegal e se comprometendo com apoio a caminhos sustentáveis para a Amazônia. Depois, os três maiores bancos privados do país se unem de forma inédita para promover cadeias produtivas sustentáveis e investimentos em infraestrutura básica para o desenvolvimento social e ambiental, ao mesmo tempo que cobram combate intransigente ao desmatamento na região. Gigantes do agronegócio, como a Marfrig, se comprometem a eliminar o desmatamento de toda a sua cadeia de suprimentos (direta e indireta) e planejam rastreabilidade completa da produção.
O que antes era um movimento isolado e pioneiro de empresas com longa trajetória na causa da sustentabilidade, como a Natura, agora se converte em um movimento mais amplo e abrange. Torcemos para seja o início de uma nova era que perdure e persevere nas próximas décadas.
Publicado em O Globo, 29 de Julho de 2020
quarta-feira, 24 de junho de 2020
Esqueceram o elefante na sala
O Ministério da Agricultura lançou recentemente o seu Plano Estratégico 2020-2027, com tudo a que um plano tem direito: missão, visão, objetivos estratégicos, programas e metas. Coisa rara no atual governo.
Não tive dúvidas e mergulhei nas 40 páginas do documento. Decepcionante. Missão e visão vagos e bem tradicionais. Quase nada de inovação ou inspiração.
A análise de contexto desconsidera ou apenas tangencia os principais desafios e questões colocadas à mesa da produção agropecuária no mundo, como o enfrentamento das mudanças climáticas que afetam diretamente a produção agropecuária, a conservação do solo e da água, a substituição da proteína animal por vegetal e a sintetização dos alimentos (new food).
Mas o mais incrível é a total ausência de qualquer referência ao elefante na sala da ministra da Agricultura: o desmatamento. Aliás, o elefante também já chegou aos gabinetes do Ministério da Economia e do Itamaraty.
O desmatamento, especialmente na Amazônia, é o centro da preocupação global com o Brasil, como mostra a carta dos 29 dos maiores fundos globais ameaçando retirar investimentos do país caso não consigam garantias de que o problema não contaminará seus negócios.
Mais de 95% das áreas desmatadas no Brasil são ocupados por atividades agropecuárias (e mais de 99% do desmatamento têm fortes indícios de ilegalidade). A agropecuária é, assim, o maior responsável ou beneficiário direto do desmatamento.
Mas, como diz a ministra Tereza Cristina e todos os seus antecessores desde Roberto Rodrigues em 2003, o Brasil não precisa derrubar mais um hectare de floresta ou vegetação nativa para continuar sendo a potência agropecuária e se tornar o maior produtor de alimentos do planeta. O problema é que a retórica não encontra eco na prática e, como se vê agora, nem mesmo no planejamento.
O plano do Ministério da Agricultura ignora a necessidade de desvincular o agronegócio brasileiro do desmatamento pela concreta redução das taxas de derrubada da mata e a implementação de um programa robusto de rastreabilidade da produção. Em vez disso, promete um programa de comunicação para conter as notícias negativas sobre o Brasil.
No plano, uma das poucas referencias à biodiversidade é como uma "oportunidade para agregação de valor, tais como explorar melhor o conceito de 'brasilidade' e fortalecer a marca do país”. Para a Amazônia, uma única referência, no Programa de Fortalecimento da Agricultura Familiar na Amazônia Legal, com a meta pífia de atender 13 mil produtores familiares até 2023 e só.
É hora de tirar o elefante da sala, não com plano de comunicação, mas com o compromisso sério de zerar o desmatamento na expansão da agropecuária brasileira, massificar agricultura de baixo carbono e tornar rastreável toda a produção nacional.
Com estes três pilares resolvidos, a agropecuária brasileira será certamente o maior cartão de visitas do Brasil para sua inserção global.
Publicado em O Globo em 25.06.2020
terça-feira, 2 de junho de 2020
No desmatamento a legalidade é exceção
sexta-feira, 29 de maio de 2020
Ao Mestre e Amigo Rubens Gomes
Havia anos Rubens vinha pesquisando o uso de madeiras da Amazônia que coletava em pastos queimados e áreas abandonadas para fazer violões artesanais – a arte da Lutheria. Foi professor de música e Lutheria numa faculdade amazonense, mas queria lidar com os sem oportunidade, com a periferia e resolveu abrir uma escola para crianças e jovens aprenderem o ofício. Estava se instalando bairro do zumbi, na violenta zona leste de Manaus. Precisa de apoio para dar o pontapé inicial na escola, me contou. Sempre me interessei pela interface entre música, e florestas afinal não são poucas as espécies raras utilizada para criar os instrumentos como Ébano para os Clarinetes, Jacarandá da Bahia e Mogno para os violões e claro o Pau Brasil para os arcos de violino. Eu contei do trabalho que fazíamos para promover o manejo sustentável da floresta e ele imediatamente associou as duas ideias – “excelente, daqui pra frente vamos usar madeiras certificadas”.
Eu perguntei se o instrumento era bom mesmo e sua resposta foi me entregar uma caixa com um de seus violões e emendar: “você está indo para São Paulo né? Leva este Rubens Gomes e teste. Se não for bom eu faço outro até ficar bom”.
Uma semana depois fui a Rio encontrar o amigo Perfeito Fortuna. Levamos o violão para Turíbio Santos e o Paulinho da Viola avaliarem. Ficaram encantados com o fato de ter nas mãos um instrumento tão bom vindo de um luthier desconhecido da Amazônia e com madeiras que nunca tinham visto. Voltei a Manaus e meses depois nascia a Oficina Escola de Lutheria da Amazônia na sala da casa do Rubens e atendendo jovens da periferia de Manaus.
Rubão era essa pessoa marcante que todos lembrar como e onde o conheceram.
Via a Lutheria como uma arte e ciência capaz de transformar a vida de uma pessoa, uma família, uma comunidade e toda Amazônia. Era capaz de passar horas me explicando como o corte da madeira deveria ser feito para que o som fluísse harmônico ao mesmo tempo que cuidava para que quem aprendesse na escola enxergasse o mundo a sua volta.
Se embrenhava pela floresta e as comunidades para promover o manejo florestal sustentável não só de madeira mas de açaí, castanha, peixe e o que mais houvesse.
Cordial e com um jeito informal nos fazia ficar à vontade mesmo nas conversas mais difíceis. Transitava bem em qualquer situação, conversando com o CEOs das empresas, produtores extrativistas, celebridades, ministros, cientistas e indígenas.
Teimoso, muito teimoso. E não tinha tempo ruim. Tudo tinha um jeito. Brigava com todo mundo quando se tratava de defender a Amazônia mas sempre terminava com um churrasco e alguma ideia para ir a frente.
Em nossos encontros o Açaí está estava sempre presente. Nunca se conformou com minha mistura com mel – Açaí é com peixe e farinha! Dizia resignado.
Músico, luthier, educador e ativista por onde passou Rubens deixou um legado de diálogo e construção para um mundo sustentável. Foi assim no FSC, no Grupo de Trabalho Amazônico (GTA), na Associação do Produtores Florestais de Boa Vista dos Ramos e na Cooperativa Amazonbai do seu Amapá entre tantas outras iniciativas que tiveram o privilégio de contar com o Rubão.
Mesmo acometido de um enfisema que o levaria a um transplante de pulmão em 2018, nunca parou de trabalhar e pensar a Amazônia.
Quando fui visita-lo em Porto Alegre após o transplante sentamos com a Jéssica – a inseparável esposa e companheira de todas as horas – e por horas enquanto comíamos um peixe com Açai (o meu com bastante mel) ele falou dos planos para os próximos 30 anos (afinal o pulmão é novinho, dizia).
Rubão é pra mim e a outra forma de dizer mestre e amigo.
A Amazônia perdeu um guerreiro, o socioambientalismo perdeu uma referência e eu perdi o chão.
Rubão, vou comer um Açai do Bailique com farinha e peixe do jeito que vc sempre insistiu ser o certo.
Vai em paz amigo.
quarta-feira, 29 de abril de 2020
A mistura explosiva: fogo e Covid-19
quarta-feira, 25 de março de 2020
COVID19 e o Meio Ambiente
O período crítico da Covid-19 deve derrubar as emissões globais de gases de efeito estufa, especialmente no setor energético, aos níveis mais baixos desde 2008. Por outro lado, o uso de materiais e embalagens descartáveis está aumentando rapidamente, e declinam os sistemas de coleta e reciclagem de resíduos.
Estas duas ações combinadas atacarão mais de 80% das emissões de gases de efeito estufa do planeta, ao mesmo tempo que aumentam o sequestro de carbono, reduzem a poluição dos centros urbanos e promovem a restauração dos ambientes naturais. De quebra, ainda ajudam a recuperar a economia e promover um ambiente mais saudável para todos.






